Pássaro de vidro

Poemas. Editora Hedra, São Paulo, 2006

Pássaro de Vidro

Merece o mais vívido entusiasmo este Pássaro de vidro que Carlos Machado há tempos vinha burilando. Todos que conheciam o olhar atento, a observação acurada e a sintaxe elegante dos comentários de Machado que acompanham os poemas de poesia.net podem ver essas mesmas qualidades condensadas em sua poesia.

Pássaro de vidro nos apresenta um poeta em plena maturidade, rigoroso na sua concisão substantiva, em que a clareza e a leveza estão a serviço de uma poesia reflexiva e consistente. Vale ressaltar o acabamento impecável dos poemas que resultam em artefatos límpidos, sem rasura. Seguindo a máxima de Aníbal Machado, o autor retira dos poemas toda estridência para que ganhem mais alcance e ressonância.

Donizete Galvão

 


Opiniões críticas sobre Pássaro de vidro

19 – Pássaro de vidro, de Carlos Machado (editora Hedra)
Machado é um poeta burilador, sua lírica estica as cordas da linguagem, despojando-a e gerando uma tensão para que o poema surja, e ele surge singela e poderosamente iluminado, como na melhor lição drummondiana.

Da revista literária online São Paulo Review, que organizou, em abril/2017, a lista
50 livros para você entender a 'literatura contemporânea brasileira',
na qual
Pássaro de vidro ocupa o número 19



Pássaro de vidro
é excelente como poesia e produto gráfico. (...) O poeta Carlos Machado conhece a fundo a engenharia das palavras e as coloca nas páginas com a exatidão de um jogador de xadrez. Ou de um relojoeiro suíço. Sua poesia é um campo minado de tensões, de imagens e de outras figuras de linguagem que enriquecem o discurso. O livro inteiro é exemplo acabado de boa poesia. Uma poesia que não esbanja palavras nem sonoridades discutíveis.

Francisco Carvalho



É poeta maduro e que domina perfeitamente, com simplicidade e inteligência, seus meios de expressão.

Marcelo Coelho



O apresentador Antônio Abujamra (1932-2015) lê o poema "Homem-bomba"
no programa Provocações n. 155, exibido em 14/09/2003 



Homem-bomba

em que pensa
o homem-bomba
no exato
momento
de soltar o pino
e estancar
o tempo?

em que pensa
o homem-bomba
na hora imensa
em que o sangue
se adensa
e todos os sóis
e todos os poros
e todas as luas
do universo
projetam
forças vorazes
de gravitação na
explosiva
nave de
seu coração?

em que veia
cava o
medo crava
seus tentáculos?
em qual
infinitésimo
de segundo
a mão trêmula
avança para
o pino e
vence a inércia
do ser vivo
que deseja
permanecer
capaz de semente
— não de ideias
mas de
carne viva?


Carlos Machado
In Pássaro de vidro, 2006



Seus poemas dosam com ritmo contido e imagens transparentes, feito o vidro deste seu pássaro, alcançadas em pausas de silêncio e palavra, um canto vivo e claro. Nenhum excesso, nenhuma retórica nos versos curtos de peças também elas curtas, que não são uma coleção de instantes dispersos, mas se harmonizam num livro bem estruturado, com setores demarcados por títulos que definem os conteúdos. A vulnerabilidade e a fugacidade do viver são marcas frequentes desta comedida poesia, que um pássaro, e de vidro, metaforiza com justa exemplaridade.

Izacyl Guimarães Ferreira


... em todo o livro, o que se impõe é o verso de Carlos Machado, de vigor e ritmo próprios. Não há um verso frouxo, não existem palavras sobrando: poesia é a essência.

Hugo Almeida

 

Não seria exagero afirmar que Machado toma o tempo, literalmente, como sua matéria de criação. (...) Em face da relação inevitável entre o sujeito e o tempo, permeada pela serenidade e o desespero, Carlos Machado acentua o diálogo entre poesia e filosofia, ambas percebidas como pontes estendidas sobre o abismo da existência.

Edimilson de Almeida Pereira



O apresentador Antônio Abujamra (1932-2015) lê o poema "Açafrão"
no programa Provocações n. 246, exibido em 25/09/2005 




Açafrão

um ou dois poemas
de sentido oculto
um galho seco
de açafrão
e a necessidade
de ficar
sóbrio sobre as cinzas

— eis todo o meu saber

se me perguntarem
— por quê?
vou jurar que não sei
não sou
desses que sabem

talvez um dia
eu tenha pensado
conhecer os
pontos cardeais
fases da lua e
frases da rua:
     mas o sol
é sábio e ensina
todos os dias
sua lição de incerteza

uma vez
no oco branco
da noite
pensei que
o amanhecer me
traria pássaros
fáceis
e obedientes

falhei —
o ferro quente do erro
o ferro fértil do erro


Carlos Machado
In Pássaro de vidro, 2006

 


... a disposição gráfico-visual dos poemas, mais ou menos uniforme, sugere um poeta meticuloso e sóbrio, capaz de fazer escolhas e de, sem desconversas, sustentá-las. Por fim, e este me parecia ser o maior dos “problemas” colocados pelo contato inicial com o livro, colhi a esmo, no salto entre um fragmento e outro, um número nada pequeno de “pontos luminosos”, os quais só fizeram ampliar as dúvidas na minha cabeça de leitor. Segui em frente e não me arrependi. Pássaro de vidro é uma das boas surpresas do ano.

Ricardo Aleixo



Carlos Machado encontrou sua medida, feita de versos curtos e secos, começando com uma letra minúscula, como se para indicar a ausência absoluta de tons grandiloquentes. Os poemas são, também, em sua maioria curtos e epigramáticos, embora tenham uma densidade de palavra buscada e escavado, à maneira de Ungaretti, "a vida, / como um abismo." Veja-se, por exemplo, esta pequena peça, composta por dois dísticos, intitulada "Heraclitiano": "na segunda chicotada / você já é outro // ― não importa o lado / do chicote".

Vera Lúcia de Oliveira

 

De uma coesão incrível, de uma precisão e clareza notáveis, Pássaro de vidro é livro sem chão, é livro feito para nuvens, aberto para o infinito. (...) Através de seu pássaro imóvel, Machado empreende um voo livre em regiões raras da poesia, criando composições repletas de achados poéticos, associações linguísticas feitas de encantamento e fulguração.

Alexandre Bonafim




O apresentador Antônio Abujamra (1932-2015) lê o poema "Certo"
no programa Provocações n. 412, exibido em 01/05/2009 

 

Certo

as coisas não dão certo
nunca deram certo
não foram feitas para dar certo

nós é que temos a ambição
do alinhamento e da simetria

e até inventamos deuses perfeitos
construídos à imagem
e semelhança do que sonhamos

as coisas não dão certo
nós é que cerzimos o pano
obturamos o dente
remendamos a fronteira no mapa

e inauguramos
na estátua de chumbo
um simulacro de ave

queremos crer
que as coisas dão certo
as coisas agora estão dando certo
e — se deus quiser —
sempre darão

Carlos Machado
In Pássaro de vidro, 2006