Número 70

São Paulo, quarta-feira, 26 de maio de 2004 

«A percepção de um Objeto / custa justo a perda do Objeto.» (Emily Dickinson)
 


Mário de Sá-Carneiro


Caros amigos,

"Sá-Carneiro não teve biografia: teve só gênio. O que disse foi o que viveu." Essas frases de Fernando Pessoa resumem bem a vida de seu amigo e parceiro, o poeta português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916).

Filho único de pai rico, Sá-Carneiro ficou órfão de mãe aos dois anos de idade. Infância difícil, adolescência angustiada. Mudou-se de Lisboa para Paris, em 1913, onde pretendia estudar direito. Manteve correspondência com Pessoa, considerado seu melhor amigo. Nas cartas, discutia estética e expunha suas angústias pessoais. Numa delas, anunciou que iria suicidar-se. Cumpriu. Tinha 26 anos.

A obra de Mário de Sá-Carneiro confunde-se com sua vida. Em seus versos, ele expressa uma angústia permanente. Não é à toa que ele se autodenomina um "castrado de alma" e lamenta:
"Hoje, de mim, só resta o desencanto / das coisas que beijei mas não vivi".

Em dois textos ao lado, "Quase" e "O Outro", o poeta trabalha com a idéia do Eu e do Outro, que remete tanto ao desconhecimento de si mesmo como à aspiração frustrada de ser diferente do que é. No poema "Fim", revela-se outra faceta da personalidade de Sá-Carneiro: o narcisismo, que está presente até na morte.

A vida e a poesia de Sá-Carneiro — um dos poetas mais importantes do modernismo português — têm sido alvo de numerosos estudos. Eis alguns deles:

Narciso em Sacrifício: A Poética de Mário de Sá-Carneiro, livro de Fernando Paixão. Ateliê Editorial,  São Paulo, 2003.

• "Sá-Carneiro e Seus Duplos", ensaio de Leyla Perrone-Moisés. In Inútil Poesia, Cia. das Letras, São Paulo, 2000.

"Mário de Sá-Carneiro: Zonas Intermédias", ensaio de Maria Estela Guedes. In revista eletrônica TriploV, Portugal.


Um abraço,

Carlos Machado


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POESIA QUÂNTICA

«Quanto mais precisamente a posição [de uma partícula subatômica] é determinada, menos precisamente, no mesmo instante, seu momento [massa x velocidade] é conhecido, e vice-versa.»
           Werner Heisenberg, 1927

A frase acima é parte de um texto no qual o cientista alemão Werner Heisenberg (1901-1976) enuncia o  o célebre Princípio da Incerteza
concepção de enormes implicações para a ciência física. Um dos motivos para essa incerteza, ou indeterminação, está no tamanho minúsculo dos objetos observados um elétron, por exemplo. Os próprios instrumentos utilizados para medir a posição ou a velocidade do elétron interferem no comportamento da partícula.

Que os físicos me perdoem a imprecisão do que escrevi acima. Mas meu ponto de chegada não é a física, e sim a poesia. Observem este trecho de um poema da americana Emily Dickinson (usei-o como dístico neste boletim):

A percepção de um Objeto
custa justo a perda do Objeto.

Emily
(1830-1886), à sua maneira e antes de Heisenberg, já sabia enunciar o Princípio da Incerteza!

 

Eu não sou eu nem o outro

Mário de Sá-Carneiro

 



QUASE



Um pouco mais de sol
eu era brasa.
Um pouco mais de azul
eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho
ó dor! quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim
quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
Ai a dor de ser-quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol
vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

...........................................
...........................................

Um pouco mais de sol
e fora brasa,
Um pouco mais de azul
e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

                    (Paris, 13 de maio de 1913)





7


Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
     Pilar da ponte de tédio
     Que vai de mim para o Outro.

                    (Lisboa, fevereiro de 1914)





FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos berros e aos pinotes

Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro...

                    (Paris, 1916)
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004

Mário de Sá-Carneiro
• In Poesia
Organização, introdução e notas de Fernando Paixão
Ed. Iluminuras, 2a. ed., São Paulo, 2001