Número 74

São Paulo, quarta-feira, 23 de junho de 2004 

«É sonho o sonho?» (Emílio Moura)
 


Alphonsus de Guimaraens


Caros,

Em 1919, o jovem poeta Mário de Andrade, antes de ser conhecido como o incendiário autor de Paulicéia Desvairada e agitador-mor do modernismo, fez uma viagem sentimental a Mariana, MG. Essa viagem foi recriada num longo e belíssimo poema de Drummond, "A Visita", publicado em A Paixão Medida (1980).

O que fizera o paulistano se abalar de sua cidade para ir às Minas Gerais? Em Mariana residia um poeta: Alphonsus de Guimaraens (1870-1921). Curioso, Mário queria entrar em contato com o mestre simbolista, conhecido como "o solitário de Mariana".

Nascido em Ouro Preto, Afonso Henriques da Costa Guimarães —  Alphonsus de Guimaraens — teve a vida marcada por uma tragédia. Em 1888 morreu sua noiva Constança, filha de Bernardo Guimarães, o autor de A Escrava Isaura. Desolado, o rapaz nunca mais se recuperou dessa perda. Formou-se em direito em São Paulo, entrou em contato com autores simbolistas. Conheceu Cruz e Sousa em 1895.

Casou-se, foi nomeado juiz em Mariana em 1906. Apesar de viver com a mulher, Zenaide de Oliveira, e os catorze filhos, Alphonsus continuou a pensar na noiva perdida. É a ela que se refere o pungente soneto "Hão de chorar por ela os cinamomos".

Católico místico e profundamente marcado pela idéia da morte, Alphonsus escreveu obras-primas como essa Ismália, a louca sonhadora da torre. Influenciado pelos simbolistas franceses, o poeta também os traduziu. No boletim n. 24, mostramos aqui uma versão dele para a célebre "Chanson d'automne", de Paul Verlaine.

Dos filhos de Alphonsus de Guimaraens, dois também se tornaram escritores: João Alphonsus (1901-1944), contista, e Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008), poeta que já apareceu aqui nos boletins n. 8 e n. 256.

Um abraço,

Carlos Machado


 

O solitário de Mariana

Alphonsus de Guimaraens

 

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

 

HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS...

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria...”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — “Por que não vieram
                                              [ juntos?”

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004

•  Alphonsus de Guimaraens
    In Os Melhores Poemas de Alphonsus de
    Guimaraens
   
Seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho
    Ed. Global, São Paulo, 1985