Número 79

São Paulo, quarta-feira, 28 de julho de 2004 

«O essencial, em poesia, não é o Amor, a Vida, Deus e outras maiúsculas, mas a própria poesia.» (Mário de Andrade)
 


Sosígenes Costa


Caros amigos,

O baiano Sosígenes Costa (1901-1968) deixou uma obra poética que tem um pé fincado no simbolismo e outro no modernismo. Do lado simbolista, ficaram famosos os sonetos "pavônicos", nos quais sua imaginação fertilíssima cria bichos fantásticos. A ave-título do soneto "O Pavão Vermelho", por exemplo, aparece ao nascer do dia e possui chifre. E mais: substitui outros pavões de estimação, que eram de cor lilás.

Em outro soneto, "Chuva de Ouro", o que se destaca é a descrição da natureza esfuziante, numa apoteose de cores e movimentos da vida.

Na faceta modernista, Sosígenes se aproxima da poesia da primeira fase do movimento. Um exemplo disso é dado aqui por "Duas Festas no Mar", um poema que mistura Marx, Freud e a mitologia popular. 

O trabalho modernista mais destacado de Sosígenes é "Iararana", um longo poema épico-regionalista (a região, no caso, é o sul da Bahia, a área do cacau, onde nasceu o poeta) que vai no mesmo rumo de Macunaíma (Mário de Andrade), Cobra Norato (Raul Bopp) e Martim Cererê (Cassiano Ricardo).

Para a reunião da poesia de Sosígenes Costa contou sobremaneira o trabalho do poeta e crítico José Paulo Paes, que organizou sua publicação, em 1978 e 1979, e também lhe dedicou estudos críticos. Em 2001, centenário de nascimento do poeta, seus versos foram reunidos num volume único, Poesia Completa, publicado pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia.

Um abraço,


Carlos Machado



                     •

 

 

A sereia que leu Marx e Freud

Sosígenes Costa

 



O PAVÃO VERMELHO

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

                                    (1937-1959)


 


CHUVA DE OURO

 

As begônias estão chovendo ouro,

suspendidas dos galhos da oiticica.

O chão, de pólen, vai ficando louro

e o bosque inteiro redourado fica.


Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.

Nunca a floresta amanheceu tão rica.

As begônias estão chovendo ouro,

penduradas nos galhos da oiticica.


Bando de abelhas através do pólen

zinindo num brilhante fervedouro,

as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,

as begônias estão chovendo ouro.

Formosa apoteose do amarelo!
 

                                    (1928)




DUAS FESTAS NO MAR

 

Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.

Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.

E o mar então deu uma festa.

E no outro dia a sereia

achou um livro de Marx

dentro de um búzio do mar.

Quando a sereia leu Marx

ficou sabendo de coisas

que o rei do mar nem sonhava

nem a rainha do mar.

Tirou então a coroa

que usava para dizer

que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.

E houve outra festa no mar.

                                    (1934)
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004

Sosígenes Costa
•  In
Poesia Completa
    Conselho Estadual de Cultura da Bahia
    Salvador, 2001