Número 114 - Ano 3

São Paulo, quarta-feira, 27 de abril de 2005

«Poesia promete sangue, suor, lágrimas, água, pão, flor e nada.» (Paulo Mendes Campos)
 


Edimilson de Almeida Pereira


Caros amigos,

Dublê de antropólogo e poeta, o  juiz-forano Edimilson de Almeida Pereira (1963-), embora jovem, já reúne extensa produção nas duas áreas. Estudioso da cultura popular afro-brasileira em Minas Gerais, ele publicou, em parceria com Núbia Pereira Magalhães Gomes, quase uma dezena de livros baseados em pesquisas de campo.

Professor de literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora, Edimilson coleciona títulos universitários: é mestre em literatura e em ciência da religião e doutor em comunicação e cultura. Em poesia, estreou em 1985 e, de lá para cá, já publicou quase duas dezenas de livros. Em 2003, reuniu sua obra poética em quatro volumes: Zé Osório Blues (2002); Lugares Ares (2003); Casa da Palavra (2003); e As Coisas Arcas (2003).

A poesia de Edimilson tem múltiplas faces. Em muitos momentos, ela assume o ritmo da fala popular — fala de negros do interior mineiro —, ritmo que vem transubstanciado pelos filtros do poeta. São modos de dizer sincopados, elípticos. Esse é o tom predominante em Zeosório Blues. Em Lugares Ares, segundo volume da obra poética, destacam-se os perfis de pessoas comuns e paisagens de cidades: Genebra, Nova Orleans, Lisboa.

Em Casa da Palavra, o terceiro volume, o eixo se desloca para as falas e festas populares de comunidades negras das Minas Gerais. Aqui, o antropólogo vem de mãos dadas com o poeta. Em As Casas Arcas, o último volume, os ritmos são ainda mais variados.

Numa obra extensa e tão diferenciada, é difícil escolher meia dúzia de poemas sem deixar de lado o que há de mais substancial. Para este boletim, selecionei seis textos. Em todos eles, é possível notar que a poesia de Edimilson — embora, naturalmente, não seja isenta de influências — desloca-se em trilhas muito particulares.

Os cinco primeiros poemas não mostram explicitamente as fundas associações do poeta com a cultura afro. No último, porém, constata-se um tom mais ácido — embora nunca resvale para o panfleto ou o populismo. "Caderno de Retorno" é um poema-livro, plasmado em múltiplos timbres e andamentos, no qual se misturam muitas vozes, inclusive a memória do autor. Nos trechos aqui mostrados, selecionei de propósito alguns dos versos em que o poeta encara o problema da desigualdade racial no Brasil.

No trecho 2 de "Instrução do Homem pela Poesia em Seu Rigoroso Trabalho", Edimilson discute o fazer poético. A voz é de alguém cuja experiência de vida está fincada no interior, na convivência com  chuvas e  lagartas.  "Quem não risca não sabe os rios da palavra". Conhecedor desses rios, "parceiro da chuva", o dono dessa voz sabe bem a força dos vocábulos. E até se mede com Deus: "Eu no verbo faço manhã ou noite".

O trabalho poético de Edimilson de Almeida Pereira não é algo que se resolve em leitura rápida e superficial. Exige atenção, exige con-sentimento do leitor para acompanhar as evoluções e mudanças de ritmo, do blues à congada, das referências eruditas às falas salpicadas de termos em iorubá. É uma poesia em que pulsa a vida das ruas, nas cidades grandes ou em comunidades do interior. A vida profunda, de gente que ri e chora, dança e tem medo. Vida que não se aprende nos livros.

Um abraço, e até a próxima.


Carlos Machado


 

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ELES CANTAM O TEXTO
DOS POETAS

O Música Surda é um quarteto carioca de voz, violão e canções — todas compostas pelos próprios integrantes do grupo. As músicas são excelentes, idem para a voz e o instrumental. Um detalhe marcante está nas letras, que são textos de grandes poetas: Camões, Drummond, Cecília Meireles, García Lorca. O nome do grupo vem de um dos poemas musicados, escrito pelo carioca Dante Milano (1899-1991). Ouça as canções e leia os poemas no site do Música Surda.


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Blues à moda mineira

Edimilson de Almeida Pereira

 



DIA DE FESTA

                    A Maria Alice de Melo

Com sobrenome dia de festa
a mulher mora no cóccix da
máquina de escrever morte.

A mulher mora no cóccix da
máquina de escrever inverno.
Com sobrenome dia de festa

a mulher resolve o dilema da
máquina de escrever isto ou
aquilo remédio impaciência.

Um céu propício lá fora e a
mulher insiste na máquina de
escrever como se fiação fosse.

Isso aquilo luminária e sorte
são variações da mulher no
cóccix da máquina do mundo.

                    De Zé Osório Blues (2002)


SENHORITA DESESPERO

Chamem o amador de blues
vou bater nele como boxeur.

Na casa onde mora, luas
mexem os olhos até ferver.

Chamem o amador de blues
vou matá-lo arrumar emprego.

Tenho de magoar sua íris.
Vejo sua pele sob a blusa

movendo rios incêndios.
Vou matá-lo se me faz feliz.

Chamem o amador de blues
que persegui dias e noites.

E soube miserável sem irmã.
Chamem vou matá-lo

depois ganhar dinheiro.
Quero ser das que dançam

até fechar o clube e ferir
no tórax meu companheiro.

Chamem o amador de blues
não confio nele mais não.

É desses que entram a alma
e fazem a gente arder.

Chamem o amador de blues.
Vou bater nele como boxeur.


                    De Zé Osório Blues (2002)



SEBASTIÃO, MINERADOR

Aceito o nome procurado,
mas advirto:
a palavra filtra incertamente
o que é núcleo
sob o céu.

Há os que esperam
o ouro do sentido.
Para seu desespero
a eternidade
depura os relógios.

Tudo quanto diremos
foi mencionado.
Só a palavra vista por dentro
traz algum proveito.


                    De Lugares Ares (2003)


PLURAL

Quero o amor plural
de dois nomes
e cem telefones.

O amor indissolúvel
não tem lugar.

O amor plural
vai às bibliotecas
tem um violão dispendioso.
No seu encalço
a percepção do incêndio.

O amor plural
encarquilhou na juventude.
Está aqui e ali.
Veio à cidade
nem recado mandou.

O amor plural
privou-se do mar.
Faz-se indissolúvel
entre cartas e igrejas.

Ei-lo embaraçado no próprio sangue.


                    De Lugares Ares (2003)
 

INSTRUÇÃO DO HOMEM PELA POESIA EM SEU RIGOROSO TRABALHO


2.

Porém, escrevo. Para cem cartas, mil lagartas. Quando a dúvida imagina sentidos a terra já se viu madrinha de meus provérbios.

Verbos povoados, de camisa, colete e sapato. Assim como no ir à missa à procissão para ser mais amado que o santo.

Quem não risca não sabe os rios da palavra, o labirinto de haver escrito sem estremecer. Eu mesmo me avio: parceiro da chuva, do capim cebola preparo um livro de cortar.

E se perguntam: ainda não é manhã? É quando eu no verbo faço manhã ou noite. A treva é a escrita, nem mais, nem pois. Deus não entortou
linhas por que escrevia canhoto?

                    De Casa da Palavra (2003)


CADERNO DE RETORNO

                                           (trechos)

Quero às vezes me desligar do lugar onde nasci como um rádio que se desviasse das ondas
         tantos os furos no olho
         tantos mortos a esmo
         tantos assomos para o sacrifício
         tantos tiros no muro.



Há reptos lêndeas e maios no meu país
         ícones entristecidos
         miragens
que me atam de vez à sua quermesse.

Um terno de devotos belisca a tarde.
Antes que os turistas o flagrem
a moça se desprende nua
da banca de jornais.
O espírito e o corpo vagam a quarenta graus.
Em meio a tanto desejo
(céu e carne figurados)
não sei fotografar o pensamento.
         Quem se doa por mim?
         doem por mim?
Há dias saíram para buscar reforços
e, sem que chegassem,
uma após a outra as desavenças
crisparam sobre lenços caixas de fósforo
e o amor ainda crédulo.



Tenho doze anos. Ao entregar a roupa limpa
me indicam a entrada de serviço
mal iluminada.
O menino desliza o hades das garagens
adivinha a campainha em braile.
A cozinha abre a porta
(até quando fará os mesmos gestos)
         sorri recolhe as peças
         e mergulha outra vez
         no Brasil colonial.
Será o doublê de mucama que areou vasilhas
sábados a fio?
e engomou por força o próprio destino?



Quando o goleador abandonou o jogo
         depois de encantar a torcida
         era para lavar pratos
         num subsolo clandestino?
Quando a delegação estrangeira visitou o
                                            [ campus
         deveríamos exibir com orgulho
         (porque fruto da pesquisa)
         ou vergonha
         as cifras do contabilista nefasto?

75% dos azuis têm mais chances de serem os primeiros demitidos 70% trabalham em serviços não-técnicos 80,9% de suas parceiras ganham até 2 salários mínimos 62% dos azuis ganham até dois salários mínimos 80% deles moram em favelas e em locais insalubres 87% dos que estão fora das escolas são azuis como seus pais 47% dos azuis concluem o ensino médio somente 1% dos azuis concluem o ensino superior 37,7% das azuis são analfabetas 40,25% dos azuis são analfabetos mas não temos vulcões nem ebola nem terremotos

                    De As Coisas Arcas (2003)
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2005

Edimilson de Almeida Pereira
• "Dia de Festa", "Caros Ouvintes"
  
In Zeosório Blues Obra Poética 1
   Mazza Edições, Belo Horizonte, 2002
• "Sebastião, Minerador"; "Plural"
   In Lugares Ares Obra Poética 2
   Mazza Edições, Belo Horizonte, 2003
• "Instrução do Homem pela Poesia..."
   In Casa da Palavra Obra Poética 3
   Mazza Edições, Belo Horizonte, 2003
• "Caderno de Retorno"
   In As Coisas Arcas Obra Poética 4
   Funalfa Edições, Juiz de Fora, 2003