Número 141 - Ano 3

São Paulo, quarta-feira, 2 de novembro de 2005

«Acredito nos deuses que crio, / porque sei quanto vale um deus.» (Antonio Brasileiro)
 


Moacyr Félix


Caros,

Estreante em 1948 com o livro Cubo de Trevas, o poeta carioca Moacyr Félix de Oliveira (1926-2005) teve seu nome quase sempre associado a uma poesia de militância social. Eram muito conhecidos, nos anos 60 e 70, seus poemas contidos em livros como Canto para as Transformações do Homem (1964), Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966) e Invenção de Crença e Descrença (1978). Também no início dos anos 60, coordenou a série de livros Violão de Rua, que incentivava a poesia engajada. Moacyr Félix faleceu no Rio na semana passada, aos 79 anos.

Filósofo graduado na Sorbonne e também advogado, ele foi um dos fundadores e diretores de  importantes publicações de cultura e debate, a exemplo da Revista Civilização Brasileira, que circulou entre 1964 e 1968, e da revista Paz e Terra, criada em 1966. Em ambos os casos, trabalhou em associação com o editor Ênio Silveira.

Lida pelas novas gerações, a poesia engajada de Moacyr Félix deve causar estranhamento. Tanto pelo engajamento em si como pela sua fatura eminentemente discursiva. Fica, porém, o anseio de justiça e liberdade do poeta. Também permanece a vertente lírica de sua poesia. Dela selecionei os três poemas transcritos ao lado.

Em homenagem a Moacyr Félix, fiquemos com as palavras do crítico Antonio Candido: "Moacyr Félix é um poeta que deseja intervir na vida, porque, como sugere um poema do seu livro O Pão e o Vinho, se os deuses podem abismar-se na meditação, ao homem só é dado agir.”


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



 

Na cidade e no tempo

Moacyr Félix

 

 

TARDE NA ILHA

Não sei por quê,
mas tenho
uma vontade mansa de tomar chá
com Thomas Stearns Eliot,
de não dizer nada
de não perguntar nada,
e ficar olhando
todas as manchetes e todas as capas
de todos os livros,
olhando de olhos vazios
não como os do morto, mas vazios
como o luar que orvalha a tamareira e o poço.

Uma vez ou outra, ouvirei
a colherinha pousar na porcelana frágil,
e é tudo que eu ouvirei, a colherinha de prata.

Talvez até lhe dissesse uma coisa qualquer, uma
                                                     [ coisa
só para quebrar o silêncio, só para isso,
uma coisa sem importância, simples, como por
                                                     [ exemplo:
Você sabe, ó T.S. Eliot, minha mãe já foi muito
                                                     [ bonita...

                                   Paris, 1950


FLAUTIM

Foi quando
naquele
momento
tão longe,
disseste
nos olhos
o que
nem tu
sabias,
e agora
não lembras,
que dentro
de mim,
oculto
no sangue
e em gosto
de Terra,
senti o
mistério
fluindo.

Naquele
momento
fui deus.

 

POEMA QUASE EXPLICAÇÃO

Luzes cortaram mais uma vez a noite básica
e desenharam o mundo em que vivemos.

E as estrelas derramaram pedra e cal
e construíram em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
— e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal, prontas para o nada.

Simplificado como uma lágrima
cruzaste a tua ponte de meninos mortos:
não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas o descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.

Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2005

Moacyr Félix
•  "Tarde na Ilha" e "Poema Quase Explicação"
    In Invenção de Crença e Descrença
   
Civ. Brasileira, Rio de Janeiro, 1978
•  "Flautim"
    In Um Poeta na Cidade e no Tempo
   
Civ. Brasileira, Rio de Janeiro, 1966