Número 169 - Ano 4

São Paulo, quarta-feira, 28 de junho de 2006 

«Fazer o poema / é estar em conflito / com o sangue que corre nas veias do mito.» (Francisco Carvalho) *
 


William Shakespeare



Caros,


O poeta desta semana é um clássico entre clássicos — o inglês William Shakespeare. Mais conhecido como dramaturgo, Shakespeare (1554-1616) é considerado o mais importante autor da língua inglesa e um dos mais influentes de todos os tempos. Os poemas transcritos aqui foram todos extraídos de sua famosa coletânea de 154 sonetos, publicada pela primeira vez em 1609 — ou seja, há apenas 400 anos.

O soneto shakespeariano, também conhecido como soneto inglês, tem estrutura diferente do original, surgido na Idade Média italiana e notabilizado por poetas como Dante Alighieri (1265-1321) e Francesco Petrarca (1304-1374). Com mínimas variações, o soneto italiano é também o praticado entre nós, desde Camões. Consiste numa peça de catorze versos decassílabos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. Nos quartetos, o padrão rímico é abba-abba. Nos tercetos, admitem-se variantes, mas um dos padrões mais comuns é ccd-eed.

O soneto shakespeariano diverge desse esquema em dois aspectos. Primeiro, na apresentação das estrofes. Em lugar de quartetos e tercetos, os versos são apresentados num bloco único. A distribuição das rimas também é diferente. Nos primeiros doze versos, elas seguem o padrão abab- cdcd-efef. A penúltima e a última linhas fecham o poema com uma rima paralela (gg). Assim, cada rima aparece apenas uma vez.

Escritos em diferentes épocas da vida do poeta, os sonetos de Shakespeare tratam de variados temas, porém o amor é um de seus eixos. Os sonetos 12, 18 e 65 discorrem sobre idéias que são caras ao poeta: a efemeridade da beleza, o desejo humano de preservar a força e a graça da juventude e o poder da grande arte de sobreviver ao ser humano. O desejo da perpetuação da amada por meio da arte está, por exemplo, no fecho do soneto 18: "Enquanto houver viventes nesta lida, / Há-de viver meu verso e te dar vida". 

A mesma idéia está nas linhas finais do soneto 65. Preocupado com a ação do tempo, ele pergunta: "Quem não lhe sofre o espólio nesta vida?" E responde: "Nada! a não ser que a graça se consinta / De que viva este amor na negra tinta". Como não pode vencer o tempo no plano físico, pela indefinida sobrevivência dos amantes, o amor — espera o poeta —  talvez permaneça naquilo que sobre ele foi escrito no papel.

O soneto 91 é uma declaração de amor, à maneira do Bardo, colocando a amada acima de todos os bens materiais. O último poema citado ao lado, o soneto 138, mostra outra faceta do amante. O poeta, mais velho, lida com uma pitada de cinismo, numa trama de fingimentos de parte a parte.

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Os sonetos apresentados aqui foram extraídos do livro 42 Sonetos, traduzido e apresentado pelo poeta mineiro Ivo Barroso, um dos mais respeitados tradutores do país. Barroso traduziu a obra completa de Rimbaud, além de textos em prosa e verso de nomes como Edgar Allan Poe, Eugenio Montale, Hermann Hesse, T.S. Eliot, Italo Calvino e Umberto Eco.

Mas os sonetos shakespearianos ocupam um lugar especial nas traduções de Ivo Barroso. Nas notas introdutórias de 42 Sonetos, ele conta que se envolveu nesse espinhoso exercício desde 1947. No final dos anos 50 já colecionava uns quatro ou cinco sonetos traduzidos. Em 1973, saiu a primeira edição dos 42 Sonetos, que eram então apenas 24.

Ao longo do tempo, o meticuloso tradutor nunca se afastou dos sonetos. Além de burilar novas versões, estudou Shakespeare, aprofundou-se em teoria da tradução. São mais de cinqüenta anos de dedicação. Como escreveu Antonio Houaiss no prefácio da primeira edição dos sonetos de Barroso, trata-se de “traduções de amor”.

De fato, só pode ser amor. E não é preciso muito para constatar isso. Basta comparar o original e a tradução do Soneto 12. Ouçamos Shakespeare:

When I do count the clock that tells the time

Observem: o Bardo usa aliterações com os sons, /d/ [do], /k/ [count, clock] e /t/ [count, tells, time]. O efeito sinestésico produz o tiquetaque de um relógio. Agora, Ivo Barroso:

Quando a hora dobra em triste e tardo toque

Percebe-se, claramente, a tentativa de repetir o efeito com as aliterações de quando, dobra, triste, tardo toque. Uma solução dessas não ocorre aos gênios apressados. Só pode resultar de muito trabalho e retrabalho — exatamente o que faz Ivo Barroso.


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AOS TRADUTORES


Este boletim é não só dedicado a Shakespeare, mas também aos tradutores, aqui representados por Ivo Barroso (foto). Ao longo das edições deste boletim já passaram por esta página poetas estrangeiros vertidos por gente como Augusto de Campos, Guilherme de Almeida, Ivan Junqueira, José Paulo Paes, Manuel Bandeira e Paulo Henriques Britto, escritores que associaram seu nome à prática continuada da tradução.

A todos eles nossa gratidão.



Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado




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ERRATA

Na edição anterior, transcrevi erradamente um verso de Luíza Mendes Furia no poema “[O gole, o sorvo de ar]”. Os dois versos iniciais, corretos, são:

o gole, o sorvo de ar
a cada instante inconcluso


No site, o poema já foi corrigido. Peço desculpas à autora pela confusão.


 

O amor no papel

William Shakespeare

 

 

12

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
    Contra a foice do Tempo é vão combate,
    Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.


XII

When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hideous night;
When I behold the violet past prime,
And sable curls, all silvered o'er with white;
When lofty trees I see barren of leaves,
Which erst from heat did canopy the herd,
And summer's green all girded up in sheaves,
Borne on the bier with white and bristly beard,
Then of thy beauty do I question make,
That thou among the wastes of time must go,
Since sweets and beauties do themselves forsake
And die as fast as they see others grow;
    And nothing 'gainst Time's scythe can make
                                                   [ defence
    Save breed, to brave him when he takes thee
                                                   [ hence.

 

18

Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
    Enquanto houver viventes nesta lida,
    Há-de viver meu verso e te dar vida.


XVIII

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course
                                                 [ untrimm'd:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,
    So long as men can breathe, or eyes can see,
    So long lives this, and this gives life to thee.



65

Se ao bronze, à pedra, ao solo, ao mar ingente,
Lhes vem a Morte o seu poder impor,
Como a beleza lhe faria frente
Se não possui mais forças que uma flor?
Com um hálito de mel pode o verão
Vencer o assédio pertinaz dos dias,
Quando infensas ao Tempo nem serão
As portas de aço e as ínvias penedias?
Atroz meditação! como esconder
Da arca do Tempo a jóia preferida?
Que mão lhe pode os ágeis pés deter?
Quem não lhe sofre o espólio nesta vida?
    Nada! a não ser que a graça se consinta
    De que viva este amor na negra tinta.


LXV

Since brass, nor stone, nor earth, nor boundless
                                                [ sea,
But sad mortality o'ersways their power,
How with this rage shall beauty hold a plea,
Whose action is no stronger than a flower?
O! how shall summer's honey breath hold out
Against the wrackful siege of battering days,
When rocks impregnable are not so stout,
Nor gates of steel so strong, but Time decays?
O fearful meditation! where, alack,
Shall Time's best jewel from Time's chest lie hid?
Or what strong hand can hold his swift foot
                                               [ back?
Or who his spoil of beauty can forbid?
    O! none, unless this miracle have might,
    That in black ink my love may still shine bright.

 

91

Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça, ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas;
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
    O infortúnio seria apenas este:
    Tirar de mim o bem que tu me deste.


XCI

Some glory in their birth, some in their skill,
Some in their wealth, some in their body's force,
Some in their garments though new-fangled ill;
Some in their hawks and hounds, some in their
                                             [ horse;
And every humour hath his adjunct pleasure,
Wherein it finds a joy above the rest:
But these particulars are not my measure,
All these I better in one general best.
Thy love is better than high birth to me,
Richer than wealth, prouder than garments' cost,
Of more delight than hawks and horses be;
And having thee, of all men's pride I boast:
    Wretched in this alone, that thou mayst take
    All this away, and me most wretched make.



138

Quando jura ser feita de verdades,
Em minha amada creio, e sei que mente,
E passo assim por moço inexperiente,
Não versado em mundanas falsidades.
Mas crendo em vão que ela me crê mais jovem Pois sabe bem que o tempo meu já míngua, Simplesmente acredito em falsa língua:
E a patente verdade os dois removem.
Por que razão infiel não se diz ela?
Por que razão também escondo a idade?
Oh, lei do amor fingir sinceridade
E amante idoso os anos não revela.
    Por isso eu minto, e ela em falso jura,
    E sentimos lisonja na impostura.


CXXXVIII

When my love swears that she is made of truth,
I do believe her though I know she lies,
That she might think me some untutor'd youth,
Unlearned in the world's false subtleties.
Thus vainly thinking that she thinks me young,
Although she knows my days are past the best,
Simply I credit her false-speaking tongue:
On both sides thus is simple truth supprest:
But wherefore says she not she is unjust?
And wherefore say not I that I am old?
O! love's best habit is in seeming trust,
And age in love, loves not to have years told:
    Therefore I lie with her, and she with me,
    And in our faults by lies we flatter'd be.

 

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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2006

William Shakespeare
In 42 Sonetos
Tradução e apresentação de Ivo Barroso
Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006
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* Francisco Carvalho,
in Memórias do Espantalho