Número 179 - Ano 4

São Paulo, quarta-feira, 6 de setembro de 2006 

«Eu sou o meu próprio escândalo contínuo.» (Murilo Mendes) *
 


Trazíbulo Casas



Caros,

Nascido em Feira de Santana - BA, na safra de 1957, Trazíbulo Henrique Pardo Casas equilibra-se bem entre a matemática, de que é professor, e a poesia, à qual oferece dedicação diferenciada e apoio integral. Ativista literário, participou das revistas Atos e Salamandra, ambas de poesia, e O Lixo, de contos. É também co-diretor da revista Hera, a mais longeva publicação de poesia no Brasil, desde 1985. Além de textos avulsos em revistas, Trazíbulo Casas publicou dois livros de poesia: Explicações à Minha Bota Furada (1983) e Noite Verde (2000).

A poesia de Trazíbulo é uma  constante tentativa de flagrar, com certa perplexidade, momentos de alta voltagem poética que brotam em cenas banais do cotidiano. Com algumas pitadas de surrealismo, ele cria um clima lírico estranho, mas que ao mesmo tempo nunca se afasta de referências bem conhecidas. Leia-se, por exemplo, o poema "Canção de Rádio":  "A coragem passeia na madrugada / casas olham, cúmplices / camas voam". Em "Prólogo", alguns homens decidem o destino do mundo enquanto um louco sonha com Homero.

É como se sempre houvesse uma superposição do mundo prosaico das decisões de poder com outra dimensão, mais profunda e onírica, por onde perpassam Homero, o homem de Neandertal (em "Arcturus") e a lua (em "O Beijo"). Uma convivência do efêmero com algo mais histórico ou talvez permanente.

No poema "Correspondente de Guerra" nota-se uma interpenetração das preocupações matemáticas do autor ("cortei os cabelos / e nada de resolver aquelas equações") com o  noticiário de mais um conflito armado. A guerra invade o ambiente familiar, simbolizada pela imagem da correspondente de guerra Christiane Amanpour, jornalista da rede americana CNN. Na guerra transformada em espetáculo, "a noite é verde".

No poema "Concerto para Flauta Doce e Tímpanos Roxos", o poeta emprega a mesma técnica de combinar reflexões pessoais com o transporte coletivo, a opinião pública e até com a morte, que "brinca de aparecer / em fotografias / quotidianas". Aqui, o contraste se dá entre o que pensa o indivíduo e o espetáculo diverso que a realidade insiste em lhe mostrar.

Em "Noturno dos Viajantes" e "My Happy Days in New York", o tom é diferente. Num misto de desencantamento e nostalgia, no primeiro apresenta-se uma constatação existencial, que pode ser, mais uma vez, uma referência à morte. No outro, predomina certa ironia, mostrada desde o título, em inglês, que parece lembrar indefinidos dias felizes na cidade de Nova York. O que dá o tom dessas supostas lembranças são contas (dinheiro) e a esperança de encontrar a felicidade "nas gôndolas / ou coisa parecida". Seriam as gôndolas de um supermercado ou loja similar?


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

 

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poesia.net em números

Em agosto, o site Alguma Poesia, que abriga as páginas deste boletim, bateu mais um recorde de audiência. Registrou, um total de 17 mil visitantes, o equivalente à média de 550 visitas diárias. 


 

Nova revista, Litbr.com

Quero registrar o surgimento de uma nova revista online de literatura. Trata-se da Litbr.com, um jeito breve de dizer literatura brasileira. Variada, a publicação traz ensaios, contos, poesia e entrevistas. Dirigida por Fernando Kraichete, a Litbr é mensal e já está no número 3. No número 2, fui convidado a participar, falando exatamente do poesia.net.

A noite é verde

Trazíbulo Casas

 



PRÓLOGO

                                 p/ fernando hora

todas as noites
aqueles homens decidem o destino
                                    do mundo.
fora de cena, um louco enrola-se
                                 em jornais
e sonha com homero.
 


CANÇÃO DE RÁDIO

a coragem passeia na madrugada
       casas olham, cúmplices
               camas voam

filho, distante
continuo ouvindo bach
      )o que deus fez está bem feito(

a coragem passeia na madrugada
               e assobiando compõe
com um violoncelo sem alma

 

PASSEANDO EM ARCTURUS

estou além daquele lago.
e mostro meu último poema
ao homem de neanderthal.



O BEIJO

as normalistas noturnas vão para casa
quase sempre não percebem a lua
que conversa comigo
pela vidraça quebrada do banheiro



CORRESPONDENTE DE GUERRA

ainda ontem cortei os cabelos
e nada de resolver aquelas equações —
a noite
narrada por christiane amanpour

farei caminhadas
e continuo lendo os russos —
a noite é
narrada por christiane amanpour

meu filho avisa
não são jogos de guerra na tv
a noite é verde
narrada por christiane amanpour

 

CONCERTO PARA FLAUTA DOCE
E TÍMPANOS ROXOS


esta manhã, esta solidão
são pedaços de películas cinematográficas
páginas de romance
                      a vida é uma catarse
no transporte coletivo cheio de opinião pública

saudade, amada
apenas notas de canções
marcações coreográficas
            enquanto as classes se debatem
e continuo preso à sonoridade
da equação
                :1 casaco vale 20 varas de linho:

é coisa de normalista
a morte no entanto brinca de aparecer
em fotografias
quotidianas

mas que diabo
não paro de pensar naquela mulher

 

NOTURNO DOS VIAJANTES

depois de uma longa conversa
todos os corpos se vão.

numa balouçante barca
sem cor.
 


MY HAPPY DAYS IN NEW YORK

as janelas olham
uma estudante às vésperas
do exame
uma mesa posta
um casal e as contas

as janelas sentem
um violoncelo soluçante
uma estante vazia
quem sabe
hoje encontro a felicidade
nas gôndolas
ou coisa parecida

as janelas
e um letreiro de academia de ioga
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2006

Trazíbulo Henrique Pardo Casas
•  Prólogo; Canção de rádio; Passeando em
    Arcturus; O beijo; Correspondente de
    guerra; Concerto para flauta doce e
    tímpanos roxos; e Noturno dos viajantes
    In Noite Verde
   
Ed. Museu de Arte Contemporânea, 2a. ed.,
    Feira de Santana, 2001
•  My happy days in New York
    In Hera n. 20
   
Feira de Santana, 2005
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* Murilo Mendes, "O Saque",
in A Poesia em Pânico