Número 181 - Ano 4

São Paulo, quarta-feira, 20 de setembro de 2006 

«A poesia sopra onde quer.» (Murilo Mendes) *
 


Silvia Chueire


Caros amigos,

A carioca Silvia Chueire é uma poeta marcada pela era da internet. Psiquiatra de profissão, ela publicava seus poemas no blog Eugênia in The Meadow, assinando com o pseudônimo de Eugênia Fortes. Até que um dia alguém gostou tanto dos textos de Eugênia que os imprimiu e resolveu mostrá-los a um editor na cidade do Porto, Portugal. Resultado: seu primeiro livro, Por Favor, Um Blues, saiu em papel, no ano passado, lá do outro lado do Atlântico, pela Cosmorama, uma pequena editora especializada em poesia. Com isso, a médica carioca decidiu mostrar sua própria face e seu próprio nome. Hoje o blog Eugênia in The Meadow ainda existe, mas é assinado por Silvia Chueire.

O que terá visto nos poemas de Silvia a pessoa que os levou ao editor português? Certamente, esse mensageiro da poesia ficou envolvido com a força lírica de seus versos amorosos, com a expressão nitidamente feminina de seus textos, com o olhar sensual que a poeta lança sobre as coisas do mundo. "Cola a tua boca / no mar que sou / o sal e as ondas // derramadas", diz ela em "Mar".

Na pequena amostra ao lado, reúno poemas do livro português de Silvia (Por Favor, Um Blues não foi lançado no Brasil) a outros textos cedidos pela autora ou coletados em seu blog. Antes de encerrar, leio em voz alta estas duas estrofes musicais, extraídas de "Quereis Muito":

quereis o que não sei
se posso dar.
o segredo do olhar,
o frio que me corta a pele
antes que a palavra
se esfacele e arda
na fina folha
de cada momento.

— como se cada volta da caneta
não fosse hesitação —


Quereis mais?


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



                      •o•
 


FERNANDO MENDES VIANNA

O poeta e romancista Ronaldo Costa Fernandes, de Brasília, chama-me a atenção para uma notícia triste da semana passada: faleceu no domingo, dia 10/09, o poeta Fernando Mendes Vianna. Nascido no Rio em 1933, Vianna vivia em Brasília desde os primórdios da cidade, em 1961. Escreveu dez livros de poesia própria e cinco outros de traduções. Entre suas obras estão Marinheiro no Tempo (1958), Proclamação do Barro (1964) e Ah, Último Paraíso (1998).

Por favor, um blues

Silvia Chueire

 



A PALAVRA

a palavra em ângulo agudo
risco no ar
adaga
a descer sobre o homem

ferida à flor dos olhos.
voz letra
música
a palavra inevitável

II

a palavra a dizer(-se)
de algum lugar
ave a subir nas minhas mãos
a voar delas

 

MAR

cola a tua boca
no mar que sou
o sal e as ondas

derramadas.

ouves o marulhar
na respiração ritmada
que cresce
e desliza na praia?

às vezes é tudo tão azul
que ofusca
 


QUEREIS MUITO

quereis a palavra certa
na hora certa.
não apenas o metro correto,
a frase bem feita.
quereis o sangue,
a alma do poeta,
a vida curta a galopar
gargantas

— como se não custasse esforço
fingir que fingimos —

quereis a vida,
a árvore da vida.
não apenas o trajeto reto,
geometria exata.
quereis elipses, parábolas,
o sabor mais íntimo
a perpassar vocábulos.

— como se cada letra
não fosse gota derramada —

quereis o que não sei
se posso dar.
o segredo do olhar,
o frio que me corta a pele
antes que a palavra
se esfacele e arda
na fina folha
de cada momento.

— como se cada volta da caneta
não fosse hesitação —

quereis muito, senhores,
muito.
mais do que pode
a mão que escreve o poema.
mais do que pode
um simples coração.



UM MAR

era um mar desmesurado
demasiado mar
e ondas
e poder
e grito por vir

era a emoção súbita
a revelar ao meu corpo
sua natureza fragilíssima
sua pequena natureza humana

era o mar a crescer-me no peito
vozes do mundo
homens e mulheres no amor

era o mundo líquido
suspenso entre a minha respiração
e o vértice da minha vida



IMAGINA

imagina homens que caem como coisas
a descrever um caminho estranho,
um trajecto helicoidal
— a repetir atos não exatamente iguais —
que apenas encobre a reta inadiável.

imagina a terra que os recebe todos,
a receber as coisas, os homens,
silenciosamente.
e devolver-nos natureza, esplendor,
na sua geografia inexata,
mas eficiente.
um sem-fim de vozes.



NAUFR�?GIO

naufraguei nas tuas costas
ó país dos desalentos.

perdi-me nas tuas águas
a tempestade a varrer-me
o corpo em ascendido movimento

soube assim da crueldade dos gestos
da inutilidade das palavras
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2006

Silvia Chueire
•  ""Mar", "Quereis Muito"
    In Por Favor, um Blues
  
 Ed. Cosmorama, Porto, Portugal, 2005
•  Todos os outros poemas: cedidos
    pela autora ou extraídos de seu blog:  
    http://eugeniainthemeadow.blogspot.com
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* Murilo Mendes, "Parábola", in Os Quatro Elementos