Número 184 - Ano 4

São Paulo, quarta-feira, 11 de outubro de 2006 

«Ri-se da cicatriz quem nunca foi ferido.» (Shakespeare) *
 


Adalgisa Nery



Caros,

O nome da poeta Adalgisa Nery (1905-1980) deve soar, para a maioria dos leitores como desconhecido. Mais ainda: mesmo quem tem informação sobre o nome dela pouco sabe sobre seu trabalho.

Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira, nome de batismo de Adalgisa Nery, foi poeta, jornalista, prosadora e política. Nasceu no Rio de Janeiro, filha de um funcionário municipal. Órfã de mãe desde os 8 anos, estudou como interna num colégio de freiras. Aos 16 anos, casou-se com o pintor paraense Ismael Nery, um dos precursores do modernismo. O casamento durou até a morte de Ismael, em 1934. A relação foi conflituosa e até violenta. O casal teve sete filhos, dos quais sobreviveram apenas dois.

Viúva, e obrigada a trabalhar para sustentar os filhos, Adalgisa lançou seu primeiro livro, Poemas, em 1937. Três anos depois, casou-se com o diretor do temível Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, criado pelo ditador Getúlio Vargas em 1939 para difundir as idéias autoritárias do Estado Novo. O casamento durou treze anos. Nesse período, Adalgisa viajou pelo mundo em missão diplomática, acompanhando o marido,

Separada, abandonou a literatura e passou a dedicar-se ao jornalismo. Também adotou a política. Foi deputada três vezes pela legenda do Partido Socialista Brasileiro. Depois do golpe militar de 1964, passou ao MDB e foi cassada em 1969.

Seus últimos anos foram melancólicos. Nos anos 70, viveu de favor, durante algum tempo, numa casa do apresentador de televisão Flávio Cavalcanti, em Petrópolis (RJ). Escreveu ainda seis livros -- entre os quais dois de poesia. É dessa época o romance Neblina (1972), dedicado a Flávio Cavalcanti. Essa dedicatória, certamente ditada pela gratidão, pegou mal na difícil conjuntura política da época. Cavalcanti era tido como dedo-duro nos meios de comunicação.

Em 1976, Adalgisa recolheu-se a uma clínica para idosos, no Rio. Um ano depois, sofreu um acidente vascular que a deixou hemiplégica. Morreu em 1980.



Autora de poemas, contos, crônicas e romances, Adalgisa teve seus dias de glória. Viúva aos 29 anos e dona de um perfil de mulher fatal, consta que ela destroçava corações. "Acho que todos nós a amávamos, mesmo sem saber que se tratava de amor", escreveu Carlos Drummond de Andrade após a morte dela. Também se sabe que o poeta Murilo Mendes foi perdidamente apaixonado por Adalgisa. Chegou-se até a sugerir (não há provas) que ela fora amante do ditador Vargas. 



Não conheço a prosa da autora. Tive a oportunidade de ler sua poesia quase completa, que está no volume Mundos Oscilantes, publicada pela José Olympio em 1962. Escrevi "quase completa", porque ela ainda produziu bastante depois dessa data. De todo modo, Mundos Oscilantes contém seis livros (1937-1962), o essencial da obra poética de Adalgisa.

Talvez por causa de sua trajetória pessoal, marcada desde cedo pelo sofrimento, Adalgisa produziu uma poesia em que predominam os tons cinzentos. Mesmo quando ela proclama amores incondicionais, há sempre uma fragilidade de nuvem, uma busca de transcendência.

Quando li Mundos Oscilantes, fiz a seguinte anotação: "Uma poesia que parece eternamente ancorada no cais da solidão, do desalento, da morte. Nas mais de 300 páginas desse livro, não se encontra um só poema de clima um pouco mais solar ou mesmo cujo tema se volte para coisas mais concretas, fora da trilogia solidão, desalento, morte. O tom, às vezes, beira o apocalíptico".

Talvez por causa dessas características, o volume se torne meio cansativo pela uniformidade. Também na forma dos poemas há uma certa inflexão monocórdica. Em versos livres, sempre iniciados por maiúsculas, todos os textos têm apenas um bloco. Não há estrofes.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



                      •o•



MÚSICA E POESIA

Uma dica para leitores cariocas. O professor, compositor e musicólogo Antonio Jardim, da UFRJ, está lançando no próximo dia 18, quarta-feira, seu livro Música: Vigência do Pensar Poético, pela editora 7Letras. Já falei aqui no boletim sobre o trabalho de Jardim e seu grupo, o Música Surda. Eles musicam, com alta sensibilidade e riqueza artística, poemas de nomes como Drummond, Camões, Cecília, Dante Milano e García Lorca. Anotem:

Data: 18/10/2006, quarta-feira
Hora: 19h00
Local: Salão Dourado do Fórum de Ciência e Cultura
Av. Pasteur, 250 - 2° andar.


                      •o•



ALGUMA POESIA

Não posso deixar de dar a vocês esta boa notícia: o número de visitas ao site Alguma Poesia —  a casa deste boletim na internet — continua em alta. Em setembro, registrou-se a média de 655 visitantes diários. Confiram a evolução no gráfico abaixo.

www.algumapoesia.com.br
MÉDIA DIÁRIA DE VISITAS - 2006

Mundos oscilantes

Adalgisa Nery

 



CEMITÉRIO ADALGISA

Moram em mim
Fundos de mares, estrelas-d'alva,
Ilhas, esqueletos de animais,
Nuvens que não couberam no céu,
Razões mortas, perdões, condenações,
Gestos de amparo incompleto,
O desejo do meu sexo
E a vontade de atingir a perfeição.
Adolescências cortadas, velhices demoradas,
Os braços de Abel e as pernas de Caim.
Sinto que não moro.
Sou morada pelas coisas como a terra das
                                        [ sepulturas
É habitada pelos corpos.
Moram em mim
Gerações, alegrias em embrião,
Vagos pensamentos de perdão.
Como na terra das sepulturas
Mora em mim o fruto podre,
Que a semente fecunda repetindo a vida
No sereno ritmo da Origem.
Vida e morte,
Terra e céu,
Podridão, germinação,
Destruição e criação.

                          De Poemas (1937)



POEMA AO FAROL DA ILHA RASA

O aviso da vida
Passa a noite inteira dentro do meu quarto
Piscando o olho.
Diz que vigia o meu sono
Lá da escuridão dos mares
E que me pajeia até o sol chegar.
Por isso grita em cores
Sobre meu corpo adormecido ou
Dividindo em compassos coloridos
As minhas longas insônias.
Branco
Vermelho
Branco
Vermelho
O farol é como a vida
Nunca me disse: Verde.

                          De Poemas (1937)



POEMA NATURAL

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do
                                            [ tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao
                                            [ vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

                          De Poemas (1937)



ESCULTURA

Eu já te amava pelas fotografias.
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na
                                             [ alegria.
Te amava por todos os teus complexos de
                                             [ derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos
                                             [ atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem
                                             [ pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força
                                       [ e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...

                          De A Mulher Ausente (1940)
 


MISTÉRIO

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por
                                                   [ mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu
                                                   [ nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.

                          De Cantos da Angústia (1948)


REPOUSO

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
                                     [ canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
                                     [ os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
                                     [ entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
                                     [ agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
                                     [ amada.

                          De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2006

Adalgisa Nery
In Mundos Oscilantes - Poesias Completas
José Olympio, Rio de Janeiro, 1962
_________________
* Shakespeare, in Romeu e Julieta,
Ato II, Cena II: Romeu