Número 215 - Ano 5

São Paulo, quarta-feira, 27 de junho de 2007

«O amador é um martelo que esmaga. / Que transforma a coisa amada.» (Herberto Helder) *
 


Juan Gelman


Caros amigos,


Filho de ucranianos de origem judia, o poeta argentino Juan Gelman nasceu em Buenos Aires, em 1930. Considerado hoje um dos principais escritores em língua castelhana, Gelman estreou em 1956 com o livro Violín e Otras Cuestiones, obra que deu início a uma seqüência regular de títulos.

A partir dos anos 70, a vida e a obra do poeta foram marcadas por acontecimentos trágicos, deflagrados pela ditadura militar argentina. Seu filho, Marcelo, e a esposa, Claudia, grávida, foram seqüestrados em 1976. Os dois entraram para a lista de desaparecidos. Somente em 1989 o poeta encontrou os restos mortais do filho. No ano 2000, localizou a neta, nascida no cárcere, já com 23 anos. A menina fora adotada pela família de um militar uruguaio. Os restos de Claudia não foram encontrados até hoje. Em 1976 ela foi levada para o Uruguai, num esquema resultante da colaboração entre ditaduras vizinhas. O poeta, agora com reforço da neta, ainda hoje move uma campanha mundial em busca dos restos mortais da nora.

Os poemas transcritos ao lado vêm do livro Isso, escrito justamente nesse período angustiante em que Gelman, exilado e ameaçado em sua terra, buscava notícia dos parentes desaparecidos. Isso foi escrito em Paris entre 1983 e 1984. O exílio do poeta durou doze anos. Atualmente, não por motivos políticos, ele vive no México.

Nos poemas ao lado, o que se nota é um poeta tentando flagrar gestos pequenos e desimportantes que marcam o dia-a-dia da convivência humana. E aí estão o vizinho que contempla a chuva; os que só crêem na dor; e esses estranhos pássaros que saem de dentro das pessoas. Às vezes, é tudo trivial. Mas de repente surge a asa de algum ser fantástico.


Abraço,

Carlos Machado

 

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JUAN GELMAN (1930-2014)

O poeta Juan Gelman faleceu no México em 14/01/2014.

(atualizado em 16/01/2014)

Contemplando a chuva

Juan Gelman

 



CHUVA

hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra/
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta se entra em muitos lugares/
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/nem na alma/
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/que chove muito/
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e somente a alma sabe onde os dois se encontram/
e quando/e como/
mas o que pode a alma explicar?/
por isso meu vizinho tem tormentas na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem
e morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/
à chuva/
ao meu coração desterrado/



LLUVIA

hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/ pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y
mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado/

 

OS ILUDIDOS

a esperança fracassa muitas vezes, a dor jamais, por isso alguns crêem que mais vale dor conhecida que dor por conhecer, crêem que a esperança é ilusão, são os iludidos da dor.



LOS ILUSOS

la esperanza fracasa muchas veces, el dolor jamás. por eso algunos creen que más vale dolor conocido que dolor por conocer. creen que la esperanza es ilusión. son los ilusos del dolor.



A MEXICANA

outro dia começaram a sair pássaros de minhas mãos/
se puseram a revoar sobre o bairro/o povo
saía para olhar/porque na verdade/revoavam que era uma beleza/
aqui/ali/acolá/um
se meteu na casa de seu antonio e até no próprio seu antonio/
bicou sua memória e levou um pedaço no bico/
começaram a sair águas/fraldas/medos/pelo buraco em seu antonio/
e ternuras velhíssimas que inundaram a rua/um vizinho
chamou os bombeiros que:
trouxeram uma manta para envolver seu antonio e levá-lo/
mas o pássaro que entrou na juana
não queria sair/revoava por todo o corpo da juana/
e assim a vimos/suspensa no ar/revoando que era uma beleza/
passou pela janela do meu quarto gritando "ôa"
e caíam folhas dos seus olhos como quem prefere não chorar/
"ôa"/"ôa"/a juana foi entrando até o fundo do céu/ali
parecia um pássaro pequenininho/um ponto/
começou a arder quando subiu a noite/
todas as noites ela ardia aqui embaixo/
pensando no fundo do céu ao qual um dia ia subir/
pra me amar muito/



LA MEXICANA

el otro día empezaron a salair pájaros de mis manos/
se pusieron a revoloter encima del barrio/la gente
salía a mirarlos/porque en verdad/revoloteaban que era un gusto/
para aquí/para allá/por acullá/uno
se metió en la casa de don antonio y hasta el propio don antonio/
le picoteó la memoria y se llevó un pedazo en el pico/
empezaran a salir aguas/pañales/miedos/por el agujero de don antonio/
y ternuras viejísimas que inundaron la calle/un vecino
llamó a los bomberos que:
trajeron una manta para envolver a don antonio y llevárselo/
pero el pájaro que se adentró en la juana
no quería salir/le revoluteaba todo el cuerpo a la juana/
y así la vimos/levantada en el aire/revoloteando que era un gusto/
pasó por la ventana de mi pieza gritando "huija"
y se le caían hojas de los ojos com quien prefiere no llorar/
"huija"/"huija"/la juana
se fue metiendo hasta el fondo del cielo/allí
parecía un pájaro chiquito/un punto/
empezó a arder cuando subió la noche/
todas las noches ella ardía aquí abajo/
pesnsando en el fondo del cielo al que un día iba a subir/
para quererme mucho/



A MÃO

não ponha a mão na água
porque se vai como peixe/
não ponha água em sua mão
porque virá o oceano
e a margem depois/

deixe sua mão assim/
em seu ar
nela/
sem começo/
nem fim/


LA MANO

no pongas la mano en el agua
porque se irá de pez/
no pongas agua en tu mano
porque vendrá el oceano
y la orilla después/

dejá tu mano así/
en su aire
en ella/
sin comienzo/
ni fin/
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2007

Juan Gelman
In Isso  (Paris, 1983-84)
Tradução e introdução de
Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves
Editora UnB, Brasília, 2004
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* Herberto Helder, "Tríptico", in Ou O Poema Contínuo,
  Girafa, São Paulo, 2006