Número 243 - Ano 6

São Paulo, quarta-feira, 12 de março de 2008 

«O poeta canta a si mesmo / porque de si mesmo é diverso.»  (Mario Quintana) *
 


Decio Bar


Caros,

No campo da criatividade, o paulistano Decio Bar (1943-1991) jogava em múltiplas posições. Cursou várias faculdades (filosofia, sociologia, jornalismo, arquitetura) e falava meia dúzia de idiomas. Profissionalmente, dedicou-se em especial ao jornalismo, mas também trabalhou em publicidade, além de ter feito filmes Super-8, fotografia, roteiros para TV. E não é só: também, em suas próprias palavras, foi "desenhista, ator, compositor, de samba, chargista e ghost-writer".

Em literatura, Decio Bar fez parte do grupo paulistano que publicou a Antologia dos Novíssimos, em 1961. Ao lado dele, estavam nomes como Claudio Willer, Roberto Piva e Antonio Fernando de Franceschi. Na mesma época, Decio lançou o volume No Temporal, definido como uma "novel-poema". O surrealismo era uma influência forte entre aqueles jovens poetas.

Depois de No Temporal, Decio dividiu-se entre seus múltiplos talentos. Embora continuasse a escrever, não publicou mais nenhum livro.

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Decio Bar morreu em julho de 1991. Nos últimos cinco anos de sua vida, ele — que já abusara do álcool —, manteve-se completamente sóbrio. Ao mesmo tempo, sabe-se que ele tinha algum problema e andou de médico em médico, em busca de tratamento, talvez para algum problema neurológico. Não se sabe ao certo se ele caiu ou se lançou do apartamento.
       
A morte do jornalista inspirou a escritora Maria Adelaide Amaral, sua amiga desde o início dos anos 60, a escrever o romance Aos Meus Amigos, de 1992. Esse romance foi agora adaptado e deu origem à minissérie Queridos Amigos, que está sendo exibida na rede Globo. O personagem Leo, representado pelo ator Dan Stulbach, é inspirado vagamente na figura de Decio Bar.


 
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Conheci Decio Bar em 1982. Trabalhamos juntos, durante mais de dois anos na redação da revista Ciência Ilustrada, da Editora Abril. Era impressionante conviver com ele, que era oito anos mais velho, e perceber o quanto havia lido, quanto conhecia sobre os mais diversos assuntos, especialmente música e literatura, que pareciam ser áreas de sua especial predileção. Antes do convívio, eu já o conhecia de nome, de ter lido reportagens de sua autoria em publicações como a revista Realidade

Embora eu soubesse da atividade literária de Decio Bar, até o presente (2008)
nunca havia lido nenhum de seus textos. Agora em fevereiro, sua filha, Joy Bar, e a viúva, Elaine Pedreira Rabinovich, resolveram dar a público o seu trabalho. Assim, reuniram no livro Escritos (Scortecci, São Paulo, 2008) o material deixado por Decio. O título foi dado pelo próprio autor, que o escreveu numa pasta onde colecionava os textos.

Escritos contém dois blocos de poemas. O primeiro compõe-se de produções dos anos 60. O outro é formado por textos da década de 80. Nota-se claramente uma diferença de tom entre as duas fases. Na primeira, prevalece o discurso marcado pela influência do surrealismo. As imagens são ousadas, como "abraços de serpentina", "naufrágios em taças de magnésio". Um "banquete de rebeldia". Veja os poemas "[Todas as Manhãs]" e "Olha, Criança".

Os poemas dos anos 80
— os três últimos na seleção ao lado — afinam-se por outro diapasão. A ambição e certa solenidade épica das criações surrealistas dão lugar a anotações secas, quase despretensiosas. É como se o poeta apenas registrasse pequenos lampejos, sem o compromisso de elevá-los à condição de peças publicáveis.

É o que se pode ler, por exemplo, em "[Apart]". (Atenção: os títulos entre colchetes indicam na verdade poemas sem título, só para facilitar a referência.) Em cinco versos irônicos, ele baseia-se na expressão apart-hotel e daí deriva "apart-escolas", "apart-berçários" etc. É como se, por trás dessas palavras, estivesse a palavra apartheid. Ou seja: estamos educando nossas crianças num sistema de separações?

Em "Balanço" e "Idades", os outros dois textos dos anos 80, Decio Bar faz confissões nitidamente autobiográficas. No primeiro, usa números, numa disposição típica dos documentos contábeis: de um lado, a descrição; de outro, o valor. Só que ali os números aparentemente se referem às idades em que os itens se concretizaram. Depois, ele passa em revista as atividades que deixou para trás, como as artes plásticas, a arquitetura e o cinema. "Fico com esses farrapos / de literatura", conclui.

Em "Idades", o corinthiano Decio Bar, usa metáforas do futebol para falar, metafisicamente, de seus 45 anos. "Aos 45 do primeiro tempo, / que molde / toma / a vaidade?"


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



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poesia.net sem imagens

Desde o final do ano passado, tentei elaborar boletins mais ilustrados. No entanto, nas últimas edições, essas mensagens não foram bem recebidas pelos servidores de e-mail.

O número 241 (Dante Milano) chegou a ser enviado duas vezes. Em ambas as ocasiões, cerca de 500 mensagens foram devolvidas como inaceitáveis (spam). Isso ocorreu em especial com os endereços @yahoo.com e @yahoo.com.br.

Para evitar as devoluções, sou obrigado a reduzir ao máximo o número de imagens ilustrativas nos boletins. De todo modo, no site Alguma Poesia, o boletim aparecerá completo.



Quarta sim, quarta não

Como muitos podem ter deixado de receber os boletins deste ano, aproveito para repetir o aviso: o poesia.net mudou sua periodicidade. Agora, em vez de circular toda quarta-feira, o boletim aparecerá quarta sim, quarta não.

Banquete de rebeldia

Decio Bar

 



[TODAS AS MANHÃS]


Todas as manhãs —
            mesmo as cavalgadas por astros
            esporeados, as adormecidas em
            noturnos abraços de serpentina,
            as que vêm de naufrágios em
            taças de magnésio, as que surgem
            repentinas (aquelas em que
            percebemos o crescimento da sombra
            das unhas) —
Todas as manhãs
            uma tempestade sai do mar e eu
            sou o seu oco:

            ... — e não, ainda não se dá o tempo
            da clarineta, e nem a tesoura recortando
            os calendários de sangue entrevê
            a água de espelhos, e assim
Todas as manhãs
            com o sol dentro do copo, sondo os
            cabos submarinos em busca de avarias,
            indago de algum telegrafista desertor
            roído de nostalgia, e vasculhando os
            céus I’m just a man in a crowd — poor
            cloud of birds and angels; e assim vou
            — na trilha, nos trilhos — de uma parede
            ao muro que me limita, com os olhos
            muito longe de mim 

E neste ritual
            em que não faltam túmulos de jornais,
            flautas enlanguescidas por carência de valsa
            compulsando corpos que o inverno
            reduziu da medida de meus delírios; aliando-me a
            querubins alucinados sedentos
            de ambigüidades; valendo-me de um
            telefone de aço para uso psicotrópico;
            deitando cartas no leito das formas
            que se pode adivinhar no bojo das
            nuvens, ou na epiderme da pólvora

Neste ritual espero
                     da outra manhã
       que me sirva à mesa no meu banquete
                     de rebeldia
 


"Todas as manhãs uma tempestade sai do mar e eu sou o seu oco" (Decio Bar)



OLHA, CRIANÇA

Olha, criança, que mordes a lua
como se fosse uma certeza.
A noite é sobre ti, criança, moldura
de panteras que teu cabelo ariscam,
e tangem tules cercando teus traços.
Junto à ponte trouxeste a chama,
e o vento tropeçou o lume
com sussurros de amante.
A flor que eu tinha era recorte de soçobro,
meu canto — vaga vela, retas rotas
pássaro inconsútil, cansaços prudentes.
Dos vitrais ensaiamos a Estrela,
de flores inventamos Orientes,
nossos pés descalços ritmavam folhas
em nossos passos.
Nos muros, aranhas teciam tempo e medo,
fisgando teu olhar cósmico
promontório raso que a maré agasalha.
A leste da estrela a flor tornou-se hera
o tempo das águas gastou-se na espera
e do grito selvagem
da furna adiada
do vôo do vento
crestou-se a ramagem.
Ah criança que mordes a lua
como se fora uma certeza.

Olha, criança, que mordes a lua
como se fora uma certeza.
A noite é sobre ti, criança, moldura
de panteras que teu cabelo ariscam
e tangem tules cercando teus traços.

Junto à ponte trouxeste a chama,
o vento a tropeçar o lume
com sussurros de amante.
A flor que eu tinha era recortes de assombro,
Meu canto — vaga vela, rôtas rotas
pássaro inconsútil, cansaços prudentes.

Dos vitrais ensaiamos a Estrela
de flores morremos Poentes
nossos pés descalços ritmavam folhas
aos nossos passos.

Nas frinchas aranhas teceram tempo e medo
fisgando teu olhar precipitado,
promontório raso que a maré agasalha em renda.

Segredo
            (A Leste da Estrela a flor tornou-se hera
            o tempo das águas gastou-se de espera
            e do grito selvagem
            na furna adiada
            em vôos de vento
            crestou-se a ramagem)

Olha, criança, que mordes a lua
como se fora uma certeza.



Apart-hotéis, apart-escolas, apart-quartéis  (Decio Bar)



[APART]

As crianças moravam em apart-hotéis.
Primeiro, apart-berçário, depois
apart-escolas, até chegar no
apart-singles, não sem antes passar pelos
apart-quartéis.



BALANÇO

Aos 44
Tenho um carro — 40 anos
uma filha          — 31
uma casa          — 42

já joguei fora
as ARTES PLÁSTICAS
a ARQUITETURA
a METAFÍSICA
a CIÊNCIA
o CINEMA
— no VT passei direto

Fico com esses farrapos
de literatura
que se resumem à articulação
da palavra.

 

IDADES

Aos 45 do primeiro tempo,
que molde
        toma
                a vaidade?
Mais 1 minuto
          e o jogo
               pára
Mais 15, ele recomeça
Só que
    então
já serão
os semifinais da morte

1/jan/89
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2008

Decio Bar
Escritos
Scortecci Editora, São Paulo, 2008
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* Mario Quintana, "O Poeta Canta a Si Mesmo",
  in Esconderijos do Tempo (1980)