Número 271 - Ano 9

São Paulo, quarta-feira, 30 de novembro de 2011

«Não me busqueis no texto: eu fui sonhado.» (Alphonsus de Guimaraens Filho) *
 

Cruz e Sousa (1861-1898)
Cruz e Sousa


Caros,


A edição 222 deste boletim, que circulou em agosto de 2007, foi dedicada ao poeta catarinense Cruz e Sousa. Neste número o poesia.net volta a colocar em primeiro plano o grande simbolista, agora com o intuito de comemorar os 150 anos de seu nascimento, ocorrido em 24 de novembro de 1861, em Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis.

Considerado por Mário de Andrade um "poeta genuíno, visionário", João da Cruz e Sousa, negro e filho de escravos, é, nas palavras do professor Domício Proença Filho, o "único poeta negro de dimensão universal na literatura brasileira".

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Ah! Lilases de Ângelus harmoniosos, / neblinas vesperais, crepusculares, /  guslas gementes, bandolins saudosos, /  plangências magoadíssimas dos ares...

Esta quadra, que abre o poema "Ângelus..." (assim mesmo, com as reticências), representa um bom exemplo do que os simbolistas propunham como ideal de expressão poética. Ela está no livro Broquéis (1893), de Cruz e Sousa, considerado o marco inaugural da poesia simbolista no Brasil.

O que querem dizer esses versos? O que seriam esses lilases ― flores ou cores ― em meio a neblinas do crepúsculo, guslas (um tipo de violino de uma só corda), bandolins e ares chorosos? Conforme o ponto de vista do leitor, tudo ― e nada. São apenas sugestões, combinando música, ritmo, cores. Para ouvir e sentir, traçar imagens na mente. Uma poesia para os sentidos.

Vagos, imprecisos, os simbolistas adoravam palavras de valor abstrato e em geral as grafavam com inicial maiúscula, dando a elas o peso de entidades misteriosas. Assim, se você folhear Broquéis, o livro de estréia de Cruz e Sousa, vai encontrar com maiúsculas termos como Ilusão, Mistério, Silêncio, Alma, Espírito. Também não deixará de notar a insistência em expressões que sugerem luzes e cores, aromas e sons. É o império dos sentidos.

Naturalmente, no meio dessas indefinidas sugestões sensoriais, escondem-se desejos nada etéreos. Nunca se pode esquecer de que o papa do simbolismo é o francês Charles Baudelaire (1821-1867), aquele que escreveu ladainhas a Satã e cuja obra-prima se chama Flores do Mal (1857) . Erotismo, satanismo e alguma escatologia também fazem parte da poesia revolucionária de Baudelaire.

Em Cruz e Sousa também se encontram, com freqüência, versos flagrantemente eróticos, misturados com o terror do pecado católico, delírios budistas e até lampejos espíritas. E, no meio de tudo isso, a constante presença da Morte ― com letra maiúscula, óbvio.

Embora construída com dedicado apuro pelo gênio do poeta catarinense, essa obra sombria e aparentemente descolada da realidade terrena nunca encontrou muito espaço entre os brasileiros. Nem a poesia de Cruz e Sousa nem a de outros da mesma escola.

Na verdade, só há dois grandes poetas simbolistas: o próprio Cruz e Sousa e o mineiro Alphonsus de Guimaraens (1870-1921). E o simbolismo por aqui sempre ficou ao largo da poesia mais aceita. Na época, o veio principal da produção lírica passava pelo parnasianismo, que a rigor desfrutava do status de poesia oficial.

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A fluidez etérea da poesia de Cruz e Sousa deu azo à criação de alguns mitos. Primeiro, espalhou-se que ele não se importava com a condição de seus irmãos de cor escravizados. Não é verdade. O poeta participou ativamente do movimento abolicionista, manifestando-se em jornais e também em sua poesia.

A esse respeito, escreve o professor Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira: "A pesquisa de seus inéditos trouxe à luz composições de forte sabor polêmico, "A Consciência Tranqüila" e "Crianças Negras", que ao lado da "Litania dos Pobres" bastariam para desfazer a lenda de um Cruz e Sousa alheio aos dramas de sua raça".

Em outro aspecto, a origem étnica do poeta leva a uma interpretação muito rasa de sua obra. É fortemente difundida a idéia de que ele aderiu ao simbolismo para dar vazão a um anseio de tornar-se branco. Como suposta comprovação disso, citam-se à exaustão as repetidas referências que ele faz a objetos de cor branca, como lírios, neves, luas e espumas. O poema "Antífona", que abre o livro Broquéis, invoca: "Ó Formas alvas, brancas, Formas claras / de luares, de neves, de neblinas!..."  Os estudiosos mais sérios vêem nessa "explicação" uma abordagem simplista, que não leva em conta sequer a própria concepção estética do simbolismo.

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O poeta nascido em Desterro viveu apenas 37 anos e foi, muitas vezes, desterrado. Negro e filho de escravos, recebeu educação esmerada, porque foi adotado pelos proprietários de seus pais, um influente marechal sem filhos. Letrado, com domínio de latim, inglês e francês, Cruz teve uma formação a que raríssimos negros (e poucos brancos) teriam acesso em sua época.

Com a morte de seu protetor e a chegada da idade adulta, as dificuldades não tardaram a se apresentar. Em 1884, Cruz foi  nomeado promotor de Laguna, SC. Mas não conseguiu tomar posse, porque autoridades locais não aceitaram um negro na função.

Depois de viajar pelo país trabalhando numa companhia de teatro, em 1890 ele fixou-se no Rio de Janeiro, onde se casou e teve quatro filhos homens. Nessa época, escrevia em jornais e conseguiu um emprego na Estrada de Ferro Central do Brasil, na função de arquivista. A vida difícil e a morte de dois dos filhos levaram a mulher, Gavita, à loucura. Cruz cuidou dela, que conseguiu recuperar-se. Mas ele próprio foi acometido de tuberculose e morreu em 1898. Os outros dois filhos também se foram, pouco depois.

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Na microantologia ao lado, escolhi  poemas que mostram algumas facetas de Cruz e Sousa. Em "Litania dos Pobres" e em "Claro e Escuro", textos afinados com um diapasão mais terreno, o poeta descreve a terrível aventura dos despossuídos. No primeiro texto, ele dá à legião dos pobres o estatuto de hoste revolucionária. É a turba que quer tomar o céu de assalto: "procurando o céu, aflitos / e varando o céu de gritos".

O mesmo tom prossegue em estrofes como "Bandeiras rotas, sem nome, / das barricadas da fome" e "Ele já marcha crescendo, / o vosso bando tremendo". Curiosamente, esses dois poemas são póstumos. O primeiro é de Faróis, coletânea publicada dois anos após a morte de Cruz. E o outro pertence a O Livro Derradeiro, que contém textos deixados pelo poeta e só publicados em 1961.

"Madona da Tristeza" e "Abrigo Celeste" são poemas que apareceram em Últimos Sonetos, volume dado à luz em 1905. Também aí Cruz e Sousa fala de coisas mais concretas. Na verdade, no fim da vida o vate do Desterro foi assumindo versos mais claramente autobiográficos e menos etéreos. Esses dois sonetos parecem inspirados numa figura em quem o poeta se apóia, possivelmente a esposa, Gavita.

Por fim, transcrevo um excerto de "Emoção", poema em prosa do livro Missal, publicado em 1893, o mesmo ano de Broquéis. Aí o momento é erótico, outra faceta da poesia de Cruz e Sousa. Observe-se como ele transforma o "encontro fortuito" com uma "formosa mulher" numa seqüência de sugestões sensuais, como no trecho da "mão avara" que vai se esconder na "luva fresca".


O abraço de sempre,


Carlos Machado

 

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Mais Cruz e Sousa

  Programa De Lá Pra Cá, apresentado em 16/10/2011 na TV Brasil, por Ancelmo Gois e Vera Barroso.

  Trecho do filme Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro (1998), de Sylvio Back.

  Você encontra quase toda a obra de  Cruz e Sousa na coleção Brasiliana USP, que contém os livros doados pelo grande bibliófilo José Mindlin (1914-2010). Os livros, digitalizados, podem ser baixados para seu computador em formato PDF. Lembre-se, no entanto, que eles trazem a grafia da época (início do século XX). 

 



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Alguma Poesia: www.algumapoesia.com.br

O que se lê no site
Alguma Poesia?


No período de 19/10 a 18/11/2011, o site Alguma Poesia recebeu 61 mil visitas. Uma pergunta que vocês devem fazer e que também me faço é: o que se lê nesse site? Aí está a resposta.

A página-índice dos boletins Drummond: 100 anos, de 2002, é de longe a mais visualizada do site. Em segundo lugar, porém com menos da metade das visitas, vem a página-índice dos boletins poesia.net, que circulam desde 2002.

A seguir, da posição 3 até a 50, são somente páginas do boletim drummondiano, com apenas sete exceções:

• Posição 6 – poesia.net 171, edição dedicada ao modernista Oswald de Andrade.
• Posição 11 – poesia.net 267, com textos para crianças dos poetas Cecília Meireles, José Paulo Paes, Ruy Proença e Sônia Barros.
• Posição 13 – poesia.net 3, enfocando o francês Charles Baudelaire.
• Posição 14 – poesia.net 174. Gonçalves Dias e as canções do exílio. A original, dele, e várias outras, escritas sob a influência da primeira.
• Posição 45 – poesia.net 1, João Cabral de Melo Neto e “O cão sem plumas”.
• Posição 48 – poesia.net 4, destacando a "poesia vestida de azul" do pernambucano Carlos Pena Filho.
• Posição 50 – poesia.net 52, de 31/12/2003, "Passagem do ano", de — mais uma vez — Carlos Drummond de Andrade.


 

Luzes! Cores! Sons! E tristeza...

Cruz e Sousa

 

 

LITANIA DOS POBRES

Os miseráveis, os rotos
são as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
e varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios,
imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
da caverna dos Destinos!

Ó pobres! o vosso bando
é tremendo, é formidando!

Ele já marcha crescendo,
o vosso bando tremendo...

Ele marcha por colinas,
por montes e por campinas.

Nos areais e nas serras
em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
a subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
a caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
das Esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
de torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
o bando, que em vós parece.

Ó Pobres de ocultas chagas
lá das mais longínquas plagas!

Parece que em vós há sonho
e o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
prelibam todo o carinho...

Que os vossos olhos sombrios
trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, d’indolências
e graças e quintessências.

Que já livres de martírios
vêm festonadas de lírios.

Vêm nimbadas de magia,
de morna melancolia!

Que essas flageladas almas
reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
dos sopros que vêm do largo...

Radiantes d'ilusionismos,
segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
bóiam nelas cisnes vagos...

Que essas cabeças errantes
trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
de alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
e o vosso bando é de eleitos.

Que vestis a pompa ardente
do velho Sonho dolente.

Que por entre os estertores
sois uns belos sonhadores.

                    De Faróis (póstumo, 1900)

 



 

CLARO E ESCURO

Dentro — os cristais dos tempos fulgurantes,
músicas, pompas, fartos esplendores,
luzes, radiando em prismas multicores,
jarras formosas, lustres coruscantes,

Púrpuras ricas, galas flamejantes,
cintilações e cânticos e flores;
promiscuamente férvidos odores,
mórbidos, quentes, finos, penetrantes.

Por entre o incenso, em límpida cascata,
dos siderais turíbulos de prata,
das sedas raras das mulheres nobres;

Clara explosão fantástica de aurora,
deslumbramentos, nos altares! ― Fora,
uma falange intérmina de pobres.

                    De O Livro Derradeiro (1961, póstumo)



MADONA DA TRISTEZA

Quando te escuto e te olho reverente
e sinto a tua graça triste e bela
de ave medrosa, tímida, singela,
fico a cismar enternecidamente.

Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
toda a delicadeza ideal revela
e de sonhos e lágrimas estrela
o meu ser comovido e penitente.

Com que mágoa te adoro e te contemplo,
ó da Piedade soberano exemplo,
Flor divina e secreta da Beleza!

Os meus soluços enchem os espaços,
quando te aperto nos estreitos braços,
solitária madona da Tristeza!



ABRIGO CELESTE

Estrela triste a refletir na lama,
raio de luz a cintilar na poeira,
tens a graça sutil e feiticeira,
a doçura das curvas e da chama.

Do teu olhar um fluido se derrama
de tão suave, cândida maneira
que és a sagrada pomba alvissareira
que para o Amor toda a minh'alma chama.

Meu ser anseia por teu doce apoio,
nos outros seres só encontra joio,
mas só no teu todo o divino trigo.

Sou como um cego sem bordão de arrimo
que do teu ser, tateando, me aproximo,
como de um céu de carinhoso abrigo.

                    De Últimos Sonetos (1905, póstumo)





EMOÇÃO

(trecho inicial)

Não sei que estranho frisson nervoso percorre-me às vezes a espinha, me eletriza e sensibiliza todo como se o meu corpo fosse um harmonioso teclado de cristal vibrando as sonoridades mais delicadas.

Um ombro aveludado e trescalante a frescuras aromáticas, que pelo meu ombro levemente roce na rua, num encontro fortuito, produz-me um estado tal de volúpia, dá-me tão longa, larga volúpia, que me vejo por entre incensos, festivamente paramentado como o sacerdote que ergue o cálice acima da cabeça, ao alto do Altar-Mor dos templos doirados, sentindo que uma aluvião de almas crentes o adora de joelhos.

A mão fina, ideal, calçada em luva clara, de formosa mulher que por entre a multidão aparece e desaparece, como uma estrela por entre nuvens, bem vezes, também, me alvoroça e agita o sangue.

E sigo, radiante, triunfal, rei, essa nobre mão enluvada, à qual eu em vão pediria o ouro, a riqueza afetuosa de um gesto carinhoso — a essa delicada mão avara e milionária que, para mais avara tornar-se ainda, se fora esconder na maciez elegante da luva fresca, vivendo dentro dela afagada, confortada, palpitando talvez por encontrar a mão feliz que vibrará de amor ao seu contato.

                    De Broquéis (1893)

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2011

Cruz e Sousa
•  Poesia Completa
    Fundação Catarinense de Cultura, 1981
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Imagens do site Paintings of Abstract Art (site desativado)
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* Alphonsus de Guimaraens Filho, "Poética", poema completo,
  in Absurda Fábula (1973)