Número 277 - Ano 10

São Paulo, quarta-feira, 4 de abril de 2012

«O poeta canta a si mesmo / porque de si mesmo é diverso.» (Mario Quintana) *
 

Raymond Carver (1938-1988)
Raymond Carver

 

Caros amigos,

Observei que desde a edição 265 ― com a poeta polonesa Wislawa Szymborska, que infelizmente nos deixou no final de janeiro ―, o boletim concentrou-se apenas em autores brasileiros. Neste número voltamos a um poeta de outras terras, o americano Raymond Carver (1938-1988).

Embora mais conhecido como contista ― um dos mais importantes da literatura americana ―, Carver também publicou sete livros de poesia. Nascido no interior do Oregon, estado da costa oeste americana, seu pai trabalhava numa serraria e a mãe era balconista de loja. Tinha um irmão cinco anos mais novo.

Carver ainda era criança quando a família mudou-se para o interior de Washington, o estado vizinho ao norte. Após concluir o colegial em 1956, casou-se com Maryann Burk, sua namorada de 16 anos, que estava grávida. Quando Carver contava apenas 20 anos, o casal já tinha dois filhos. Para sustentar a família, os dois trabalhavam em múltiplos empregos simultâneos.

Apesar das dificuldades, ele graduou-se em letras em 1963 e passou a escrever e publicar contos e poemas, enquanto trabalhava como editor de livros. Posteriormente, deu aulas em diversas universidades americanas. No início dos anos 70, Carver começou a abusar do álcool. Ele mesmo relata que muitas vezes deixava de escrever e passava todo o tempo bebendo.

Em junho de 1977, após um ultimato dos médicos (do tipo ou para de beber ou morre), começou o que ele chamava de sua "segunda vida". Tornou-se abstêmio até a morte. Em 1979, separou-se de Maryann e passou a viver com a também poeta Tess Gallagher, com quem permaneceu até o fim. Carver morreu em 1988 de um câncer de pulmão.

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Sua primeira coletânea de contos, Put Yourself In My Shoes (algo como "Ponha-se no meu lugar") foi publicada em 1974. A essa altura ele já havia publicado dois livros de poemas. Apesar de ter começado como poeta, ele certa vez confessou que não se sentia um "poeta nato" e, quando teve de fazer uma escolha, preferiu a ficção.

A obra poética de Carver compõe-se de 306 poemas, que foram reunidos postumamente no volume All Of Us – The Collected Poems, de 1996. No Brasil, todos os contos de Raymond Carver foram traduzidos. Estão disponíveis em dois volumes publicados pela Cia. das Letras, Iniciantes (2009) e 68 Contos de Raymond Carver (2010).

Sua poesia, no entanto, continua inédita. É possível achar um ou outro poema traduzido na internet ou em publicações literárias. Mas não tenho notícia de nenhuma coletânea de poemas editada aqui. Os poemas ao lado foram traduzidos por Cide Piquet e publicados na Folha de S. Paulo em 18/07/2010.

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Com seu trabalho de ficção, Carver é considerado um dos expoentes do dirty realism (realismo sujo), assim chamado por causa das narrativas focadas no dia a dia de pessoas comuns. Sua poesia, pelo que se pode ver nos textos ao lado, tem características similares. Parece também seguir as pegadas da poesia de autores como William Carlos Williams, marcada por um discurso também fincado no cotidiano e completamente isento de ênfase.

O poema “Felicidade” ilustra bem essas características. À janela, o narrador observa dois garotos que passam na rua entregando jornais. Linguagem direta, coloquial, sem metáforas.

Outro aspecto que se pode observar na poesia de Carver é que ele não apenas escreve sobre o cotidiano: muitas vezes insere nos poemas crônicas de sua vida pessoal. É bem provável que o poema "Dirigindo e Bebendo"  esteja ligado ao período em que abusava do álcool.

O texto "O que o médico disse" também parece ligar-se a um fato pessoal. Trata do momento em que o poeta recebeu do médico a notícia de que estava com câncer. Aliás, três páginas adiante, no livro All Of Us, aparece outro poema sobre o mesmo assunto. É “Gravy”, no qual ele considera um bônus ter vivido dez anos desde o ultimato do outro médico em relação à bebida.

O poema "Medo", com uma frase em cada linha e todas iniciadas com a palavra-título, é um dos mais citados do poeta. Retrata um momento de ansiedade moderna em que a pessoa se enreda num cipoal de temores contraditórios. "Medo de dormir à noite. / Medo de não dormir. (...) Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar".



Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



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Medos contraditórios

Raymond Carver

                                                   Tradução: Cide Piquet



DIRIGINDO E BEBENDO

Já é agosto e eu não
leio um livro há seis meses
a não ser por um troço chamado A Retirada de Moscou
de Caulaincourt.
Ainda assim, estou feliz
andando de carro com meu irmão
e bebendo um pint de Old Crow.
Não estamos indo a lugar nenhum,
só estamos indo.
Se eu fechasse os olhos por um minuto
estaria perdido, contudo
eu poderia facilmente deitar e dormir pra sempre
na beira desta estrada.
Meu irmão me cutuca.
Para que algo aconteça, está por um triz.



DRINKING WHILE DRIVING

It's August and I have not
read a book in six months
except something called
The Retreat From Moscow
by Caulaincourt.
Nevertheless, I am happy
riding in a car with my brother
and drinking from a pint of Old Crow.
We do not have any place in mind to go,
we are just driving.
If I closed my eyes for a minute
I would be lost, yet
I could gladly lie down and sleep forever
beside this road.
My brother nudges me.
Any minute now, something will happen.


Medo do telefone que toca no silêncio da noite. / Medo de tempestades elétricas. (Raymond Carver)
Medo do telefone que toca no silêncio da noite. / Medo de tempestades elétricas.


MEDO

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta
                                                                  [ culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice,
                                                                  [ e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.
         Já disse isso.



FEAR

Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I've been told won't bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children's handwriting on envelopes.
Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.
       I've said that.



FELICIDADE

Tão cedo que ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e tudo aquilo que sempre a essa hora
nos passa pela mente.

Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.

Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles traz uma mochila nas costas.
Estão tão felizes
que nem sequer conversam, os garotos.

Acho que, se pudessem, estariam até
de braços dados.
É de manhã bem cedo
e os dois caminham lado a lado.

Lentamente, eles vêm vindo.
O céu começa a clarear,
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor,
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.



HAPPINESS

So early it's still almost dark out.
I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.
When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.
They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren't saying anything, these boys.
I think if they could, they would take
each other's arm.
It's early in the morning,
and they are doing this thing together.
They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.
Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.
Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


 

Raymond Carver e Tess Gallagher, sua segunda esposa
Raymond Carver e Tess Gallagher, sua segunda esposa



O QUE O MÉDICO DISSE

Ele disse não parece bom
ele disse parece mau aliás muito mau
ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes
de parar de contar
eu disse fico feliz não ia querer saber
que tem mais do que isso lá
ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha
em bosques na floresta e se permite pedir ajuda
quando encontra uma cachoeira
a névoa soprando contra seu rosto seus braços
você para e pede clareza nesses momentos
eu disse não mas pretendo começar hoje mesmo
ele disse sinto muito ele disse
gostaria de ter outro tipo de notícia para dar
eu disse Amém e ele disse algo mais
que eu não entendi e sem saber mais o que fazer
e sem querer que ele precisasse repetir aquilo
e que eu realmente precisasse digeri-lo
apenas olhei para ele
por um minuto e ele olhou de volta foi então
que me ergui num salto e apertei a mão daquele homem que
acabara de me dar
algo que ninguém no mundo jamais tinha me dado
talvez eu tenha até agradecido por força do hábito



WHAT THE DOCTOR SAID

He said it doesn't look good
he said it looks bad in fact real bad
he said I counted thirty-two of them on one lung before
I quit counting them
I said I'm glad I wouldn't want to know
about any more being there than that
he said are you a religious man do you kneel down
in forest groves and let yourself ask for help
when you come to a waterfall
mist blowing against your face and arms
do you stop and ask for understanding at those moments
I said not yet but I intend to start today
he said I'm real sorry he said
I wish I had some other kind of news to give you
I said Amen and he said something else
I didn't catch and not knowing what else to do
and not wanting him to have to repeat it
and me to have to fully digest it
I just looked at him
for a minute and he looked back it was then
I jumped up and shook hands with this man who'd just given me
something no one else on earth had ever given me
I may have even thanked him habit being so strong


 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2012

Raymond Carver
•  Poemas em inglês extraídos de:
    All of Us
The Collected Poems
    Vintage Books, New York, 2000
    Tradução dos poemas: Cide Piquet
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* Mario Quintana, "O Poeta Canta a Si Mesmo",
  in Esconderijos do Tempo (1980)
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1a. foto: Sadness, The Romanizm