Número 288 - Ano 11

São Paulo, quarta-feira, 13 de março de 2013

«Os rios não são / parados ou rápidos, / alegres ou tristes, / são rios.» (Jorge de Lima) *
 

Charles Baudelaire (1821-1867)
Charles Baudelaire



Caros,

Publicado pela primeira vez em 1861, na segunda edição da obra-prima Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal), do francês Charles Baudelaire (1821-1867), o poema “L’Albatros” (“O Albatroz”), assim como numerosos outros do mesmo volume, tornou-se um clássico da literatura moderna e representa um sempre renovado desafio aos tradutores. Nesta edição, o poesia.net enfileira o texto original e cinco traduções, uma portuguesa e quatro brasileiras. É no mínimo interessante comparar as soluções encontradas pelos tradutores com o trabalho original.

Neste célebre poema, Baudelaire mostra como o albatroz, majestoso rei do azul, se reduz a motivo de troça quando forçado a andar no convés de um navio. Torna-se um ser confuso e desajeitado fora de seu elemento natural. As três primeiras estrofes do poema descrevem a desdita da ave quando presa ao chão.

Na última estrofe, a condição do gigante alado compara-se à do poeta — que, no entender do escritor parisiense, é um estrangeiro no mundo em que vive, solitário e incompreendido pela sociedade. Assim como o albatroz, o poeta seria tratado com escárnio pelos seus contemporâneos.

Embora Baudelaire seja considerado o primeiro poeta moderno, essa ideia da incompreensão e da hostilidade social revela-se tipicamente romântica. É como se o poeta-albatroz fosse um “companheiro de viagem” dos homens comuns (os marujos), mas que se sente “exilado” entre eles. Seu lugar de brilhar é nos altos espaços, longe da “corja impura”.

O volume As Flores do Mal abriu numerosas picadas para o desenvolvimento da poesia moderna: a liberdade no tratamento dos temas; a ousadia de trazer para o texto poético assuntos à época (e alguns até hoje) considerados tabus, como drogas, sexo, vampiros, satanismo e morte; o mal-estar da vida nas grandes cidades. Não por acaso, o livro — publicado originalmente em 1857 e depois ampliado em 1861 — foi alvo de censura e o poeta classificado como “maldito”.

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Apesar do realismo e da crueza de certos temas do livro — há, por exemplo, um poema chamado “Uma carniça” e uma ladainha a Satã, que clama “Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria” —, “O Albatroz” é um texto idealista de matriz romântica. Aquele poeta visto como um ser acima dos homens comuns caiu da nuvem no alto modernismo.

Não importa. Esses quatro quartetos de versos alexandrinos formam uma das páginas mais admiradas e repetidas da poesia moderna.

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Passemos às traduções. Aqui estão alinhadas versões para o português de cinco poetas, dois nascidos ainda no século de Baudelaire e três no século XX. São eles o português Delfim Guimarães (1872-1933) e os brasileiros Guilherme de Almeida (1890-1969), Onestaldo de Pennafort (1902-1987), Jamil Almansur Haddad (1914-1988) e Ivan Junqueira (1934-2014). (Veja, no final, mais informações sobre os tradutores.)


Delfim Guimarães, que cronologicamente é o primeiro tradutor (sua versão é de 1909), introduz, logo na primeira estrofe, informações que não estão nem no albatroz, a ave, nem no poema de Baudelaire: “ave enorme e voraz”. Esse último adjetivo praticamente transforma o albatroz numa águia, um perigoso predador dos mares. Na verdade, a ave alimenta-se de peixes e crustáceos e, hoje, das 21 espécies catalogadas, 19 estão ameaçadas de extinção, devido à redução do estoque de peixes provocada pela pesca predatória.

O quarto verso de Guimarães apresenta um andamento pobre, indigno da maestria baudelairiana. Primeiro, porque no original não há “voo triunfal” nem “carreira audaz”. Depois, porque o tradutor enfileirou essas duas expressões pomposas e de estrutura idêntica (substantivo+adjetivo) apenas para respeitar a métrica e a rima do verso alexandrino.

A leitura do segundo quarteto mostra claramente que Delfim Guimarães fez uma paráfrase e não uma tradução do poema. O tradutor português é também o primeiro a fazer o albatroz perder seu “nimbo” (nuvem), a fim de forçar uma rima para “cachimbo” — solução também adotada, depois, por Guilherme de Almeida.

O primeiro verso do último quarteto mostra que de fato, para Guimarães, o albatroz é uma “águia marinha”. Sem dúvida — e aqui  também pesam os mais de cem anos da tradução —, o trabalho de Guimarães é o menos fiel ao original e o que apresenta mais imperfeições poéticas.

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O primeiro verso, na tradução de Guilherme de Almeida, é perfeito e fiel ao original. Foi também a mesmíssima solução adotada por Ivan Junqueira: “Às vezes, por prazer, os homens da equipagem”. Corresponde bem ao original Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage. A saída encontrada por Jamil Almansur Haddad é menos fluida. Em lugar de “por prazer”, ele usa “por folgar”. Onestaldo prefere “em recreio”. Todas são versões corretas, mas “por prazer” é mais direta, mais próxima de pour s’amuser (para divertir-se).

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Um detalhe interessante: todos os tradutores citados trabalham sempre com o albatroz no singular. Baudelaire, no entanto, fala em albatrozes, no plural, nos dois primeiros quartetos. Só a partir da terceira quadra a ave é singularizada e depois comparada ao poeta.

Para forçar uma rima com "cachimbo", Haddad faz o albatroz cair num "limbo": “o alado viajor tomba como num limbo”. Esse trecho, o primeiro verso da terceira estrofe, parece ser o mais problemático para os tradutores. Guimarães e Guilherme recorreram ao “nimbo”; Haddad desviou para um “limbo”. Mas o original é muito mais simples e direto: Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule! (Esse viajante alado, como é desajeitado e apático!)

Haddad usa o termo “escarcéu” alvoroço, gritaria que não parece comunicar a ideia original da algazarra dos marujos fazendo troça com a ave marinha. A “corja impura” de Guilherme e a “turba obscura” de Junqueira ficam mais próximas dessa ideia.

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Na tradução de Ivan Junqueira, surge uma expressão menos natural logo no quarto verso: “o navio a singrar por glaucos patamares”. O original: Le navire glissant sur les gouffres amers (literalmente, “o navio que desliza sobre abismos amargos”). Os glaucos (esverdeados, verde-azulados) patamares criam um momento de estranheza que não existia no original.

Também as rimas desta quadra, todas em a (agem, ares), são menos interessantes que as do original: age, mers. Embora, reconheça-se, o tradutor tenha obtido, com o par “mares/patamares”, efeito similar ao que existe entre mers (mares) e amers (amargos).

Junqueira saiu-se muito bem na terceira estrofe, que representou um fundo abismo para Almeida e Haddad. Em vez de forçar a rima com “cachimbo”, ele desviou para a fumaça e obteve um resultado bem sonoro e mais espontâneo. Ficou perfeita a descrição das brincadeiras dos marinheiros apoquentando o destronado rei do azul.

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O último verso da primeira estrofe também ofereceu boa dificuldade a Onestaldo de Pennafort. Sua solução (“o navio que sobre o atro abismo caminha”) perde um pouco de naturalidade com esse “atro” (sombrio, desastroso, triste) que ficou em lugar do original amargo (amer). Também o navio empreende um movimento mais pobre: em vez de deslizar, caminha.

Guilherme de Almeida também usou o verbo “caminhar”, mas livre do adjetivo “atro”, colocando o abismo no plural: “O navio que sobre os abismos caminha”. Assim, o resultado torna-se mais sonoro.

Na segunda estrofe, Pennafort obtém bom resultado na descrição do caminhar deselegante da ave no convés. Mesmo assim, em 

“como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado, / desajeitadamente, as asas colossais”

a expressão “a seu lado” parece excessiva. Dá a impressão de que está ali só para garantir a rima com a palavra “desconjuntado”.

A solução de Pennafort para o alarido dos marinheiros foi “em meio ao riso e à vaia”, que funciona bem para indicar o alarido e o gracejo diante dos movimentos canhestros da ave.

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Seria possível fazer muitas outras observações comparativas a respeito das traduções, mas paro por aqui. Se você tiver paciência de se aprofundar nesse exercício, vai levantar muitos outros pontos. Divirta-se com esse poema que conquista a atenção de leitores do mundo inteiro há mais de 150 anos.

Creio que seja útil lembrar que estas leituras paralelas do original e das versões não têm a intenção de mostrar quem fez melhor, quem fez pior. O objetivo é, antes, estimular a leitura do poema-fonte em cotejo com suas traduções.

Repito aqui o que já disse em outro boletim: as soluções mais ou menos felizes dos tradutores mostram apenas que, na luta com as palavras, não há vencedor inequívoco. Sempre se ganha um pouco aqui, perde-se outro tanto acolá. Felizes de nós, que apreciamos a boa poesia, quando temos a rica oportunidade de comparar cinco versões de um mesmo poema. Agradeçamos, portanto, aos tradutores que nos proporcionaram essa experiência. Veja, abaixo, uma breve informação sobre cada um dos tradutores aqui citados.

Um abraço, e até a próxima.  

Carlos Machado



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OS TRADUTORES

Delfim GuimarãesDelfim Guimarães (Porto, 1872-Amadora, 1933). Poeta, ensaísta e editor português. Publicou uma tradução de As Flores do Mal, de Baudelaire, em 1909.

Guilherme de AlmeidaGuilherme de Almeida (Campinas, 1890-São Paulo, 1969). Advogado, jornalista, poeta e tradutor. Traduziu 21 poemas de As Flores do Mal e publicou-os no volume Flores das Flores do Mal.

Onestaldo de PennafortOnestaldo de Pennafort (Rio de Janeiro, 1902-idem, 1987). Poeta, jornalista e tradutor. A ele Carlos
Drummond de Andrade dedicou o poema "Dentaduras Duplas", do livro Sentimento do Mundo (1940).

Jamil Almansur HaddadJamil Almansur Haddad (São Paulo, 1914-idem, 1988). Médico, foi também crítico e ensaísta. Traduziu o volume completo de As Flores do Mal, assim como o bíblico Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão. 


Ivan JunqueiraIvan Junqueira (Rio de Janeiro, 1934-idem, 2014). Poeta, jornalista, editor, ensaísta e tradutor. Verteu para o português As Flores do Mal, de Baudelaire, além de poemas de T.S. Eliot, Dylan Thomas e outros.

 

 

 

O albatroz

Charles Baudelaire

Tradução: Delfim Guimarães, Guilherme de Almeida, Onestaldo de Pennafort, Jamil Almansur Haddad, Ivan Junqueira



l Charles Baudelaire

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L' ALBATROS


Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.




l Guilherme de Almeida

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O ALBATROZ

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.




l Jamil Almansur Haddad

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O ALBATROZ

Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue — companheiro indolente de viagem —
O navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!

O Poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar.


l Ivan Junqueira

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O ALBATROZ

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

 

 

l Onestaldo de Pennafort

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O ALBATROZ

Às vezes, em recreio, os homens da equipagem
pegam um albatroz, enorme ave marinha
que segue, companheiro indolente de viagem,
o navio que sobre o atro abismo caminha.

Mal no convés se vê, todo desconjuntado,
logo esse rei do azul, em passos desiguais,
como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado,
desajeitadamente, as asas colossais.

Esse alado viajor, como é grotesco andando!
Ei-lo horrível e inerme, ele que antes pairava!
Um chega-lhe o cachimbo ao bico, e outro, coxeando,
arremeda no andar o pobre que voava!

O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia,
que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar;
exilado no solo, em meio ao riso e à vaia,
suas asas de gigante impedem-no de andar.



l Delfim Guimarães

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O ALBATROZ

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!



 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2013

Original e traduções extraídos das seguintes fontes:
•  Charles Baudelaire
    Les Fleurs du Mal
    Paris, 1861
•  Ivan Junqueira
    As Flores do Mal
   
Nova Fronteira, 2a. ed., Rio de Janeriro, 1985
•  Guilherme de Almeida
    Flores das Flores do Mal
   
Edições de Ouro, Rio de Janeriro, s/data
•  Jamil Almansur Haddad
    As Flores do Mal
   
Círculo do Livro, São Paulo, s/data
•  Onestaldo de Pennafort
    Poesias
   
Org. Simões, Rio de Janeiro, 1954
•  Delfim Guimarães
    Flores do Mal
   
Guimarães & Cia., Lisboa, 1909
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* Jorge de Lima, "X", in Invenção de Orfeu (1952)