Número 295 - Ano 11

São Paulo, quarta-feira, 9 de outubro de 2013

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«Tu procuras saber / eu não procuro porque nunca saberei.» (António Ramos Rosa) *

Cassiano Ricardo (1895-1974)
Cassiano Ricardo

 

Caros,

Assim como Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Jorge de Lima, modernistas nascidos no século XIX, Cassiano Ricardo (1895-1974) iniciou sua trajetória poética ainda sob a influência do parnasianismo e do simbolismo. Estreou em 1915 com o volume Dentro da Noite, ao qual se seguiu A Frauta de Pã, de 1917. Marcados pela predominância de sonetos e versos alexandrinos, esses livros não conquistaram muita repercussão.

A obra de Cassiano Ricardo passa a receber maior atenção após sua adesão aos modernistas e especialmente com o lançamento dos livros Vamos Caçar Papagaios (1926) e Martim-Cererê (1928). Nessas coletâneas publicou poemas antológicos que lhe valem a inclusão obrigatória em qualquer antologia que trate dos primeiros passos da poesia que se seguiu à Semana de Arte Moderna.

Como quase tudo no século XX, os grupos poéticos também estavam vinculados a uma visão política do mundo e da construção do Brasil. Cassiano, inicialmente, ligou-se às concepções modernistas dos grupos Verde-Amarelo e Anta, que acabaram desaguando num nacionalismo ufanista. O grupo da Anta seguiu uma orientação claramente de direita, do qual sairia, nos anos 30, o Integralismo de Plínio Salgado, líder fascista tupiniquim. Posteriormente, Cassiano Ricardo faria autocrítica, e declararia um erro sua participação no grupo Anta.

Em 1946, Cassiano lança O Sangue das Horas, seguido por Um Dia Depois do Outro (1947). Aí o poeta já é outro. Em vez dos papagaios e do ambiente rural, os poemas se voltam para a preocupação existencial de quem vive nas cidades.

Nos anos 50 e 60, o foco muda mais uma vez para o perigo nuclear, a guerra fria, as ditaduras, a restrição às liberdades individuais. Jeremias, personagem central de Jeremias Sem-Chorar, coletânea lançada em 1964, é um sujeito que perde um olho devido à patada de um cavalo durante a repressão a um comício. O último livro de Cassiano seria Os Sobreviventes, no qual ele desenvolve os temas de Jeremias. A essa altura, Cassiano já havia aderido às vanguardas, em explícito namoro com os concretistas.

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Conheci a poesia de Cassiano Ricardo na adolescência, durante o curso colegial (hoje, ensino médio). Em seu trabalho, eu achava interessantes os poemas sobre o perigo nuclear, a guerra fria, o avanço da tecnologia e as viagens espaciais — um pacote de temas tipicamente anos 60.

Creio que esses temas aproximaram o poeta de muitos jovens da época. Infelizmente, após a morte de Cassiano Ricardo, em 1974, só foram republicados dele os livros dos anos 20. Tenho o volume Poesias Completas (José Olympio, 1957), porque o adquiri há cerca de dois anos num sebo.

Dos títulos mais novos, tenho Jeremias Sem-Chorar e Os Sobreviventes, nas edições originais, que também não tiveram reedições. Tenho ainda uma Seleta em Prosa e Verso (1975), organizada por Nelly Novaes Coelho, que me permite o acesso a alguns poemas de João Torto e a Fábula (1956), Montanha Russa e A Difícil Manhã (ambos de 1960). Esses três livros situam-se hoje numa espécie de limbo: nem fazem parte da Poesia Completa de 1957, nem jamais foram reeditados.

Em resumo, hoje — e já faz muito tempo — só é possível encontrar nas livrarias os volumes Vamos Caçar Papagaios e Martim-Cererê. Ouvi dizer (não tenho comprovação) que existe um problema entre os herdeiros dos direitos autorais do poeta, e isso impede a divulgação de sua obra completa. Uma lástima.

É verdade que — penso hoje, mais de quarenta anos depois de conhecer e admirar o autor —  muito do que ele escreveu e conquistou minha atenção nos anos 60 ficou datado. De todo modo, Cassiano Ricardo é um poeta de referência do século XX, e merecia melhor tratamento.

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Nascido em São José dos Campos (SP), Cassiano Ricardo formou-se em direito e atuou em cargos públicos. Foi inclusive chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris, entre em 1953 e 1954. Além de poesia, escreveu ensaios históricos e literários. Este boletim é o segundo dedicado ao poeta, que já apareceu aqui na edição n. 2.

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A seleção de poemas ao lado dá notícia de alguns dos recursos expressivos de Cassiano Ricardo. “Relâmpago”, texto de Martim-Cererê, faz o registro de um momento rapidíssimo, como um instantâneo captado por uma câmera fotográfica. Trata-se de uma cena de caça com arco e flecha, na qual um arqueiro não identificado abate uma onça. A descrição cheia de movimento constrói um processo sinestésico, provocando no leitor a ideia de velocidade e visualidade.

Palavras como relâmpago, usada duas vezes, rápida, elétrico e árvore acentuam a expectativa, ao mesmo tempo que dão o sentido de velocidade. Os procedimentos utilizados em “Relâmpago” são, mais ou menos, retomados, anos depois, no poema “Multiplicação dos Peixes”, de Jeremias Sem-Chorar.

A cena de pescaria é mostrada em seus movimentos, luminosidade e até nos sons, seja da agitação das águas e da puxada da rede, seja na inquietação dos peixes.  A sequência das palavras xadrez, xis, peixe, repuxo ajuda a multiplicar os peixes e torna o ambiente mais vivo e buliçoso. No verso “Nunca tanto xis de tanto peixe”, a letra xis materializa graficamente a presença dos peixes. Na segunda metade do poema, a câmera, antes em modo paisagem, desce ao detalhe, focando um único peixe.

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“Acrobatismo é outro texto em que o poeta lança mão da sinestesia para descrever um brevíssimo acontecimento. Nesse caso o ambiente é a floresta, onde um louva-a-deus, "pequeno palhaço verde", executa um salto ornamental.

Textos como “Relógio”, “A Orquídea” e “Soneto da Ausente”, de Um Dia Depois do Outro, e ainda “Depois de tudo”, apresentam exemplos de refinado lirismo. Também do mesmo livro é o poemeto “Serenata Sintética”, que antecipa procedimentos das vanguardas concretistas que viriam a surgir nos anos 50.

Em “Campanário de São José” (de A Difícil Manhã, 1960), um microssoneto de versos monossilábicos, a chave está no estrato sonoro. Daí porque o autor faz, abaixo do título, a indicação de que o poema deve ser repetido três vezes na leitura (certamente em voz alta). Experimente, e perceberá que os sons “em” e “ão” produzem de fato a sugestão de sinos tocando.

Aliás, os mesmos sons — e para o mesmo efeito — já haviam sido usados por Manuel Bandeira  no poema “Os Sinos”, de O Ritmo Dissoluto (1924): “Sino de Belém bate bem-bem-bem // Sino da Paixão bate bão-bão-bão”. Bandeira enriquece o toque dos sinos, introduzindo metais de timbre mais agudo: “Sino do Bonfim, por quem chora assim?...”


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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A multiplicação dos peixes

Cassiano Ricardo

 





RELÂMPAGO

A onça-pintada saltou tronco acima que nem um re-
lâmpago de rabo comprido e cabeça amarela:
zás!
Mas uma flecha ainda mais rápida que o relâmpago
                                        [fez rolar ali mesmo
aquele matinal gatão elétrico e bigodudo
que ficou estendido no chão feito um fruto de cor
                    [que tivesse caído de uma árvore!

            De Martim-Cererê (1928)

 

Albert Gleizes - Paisagem Cubista
Albert Gleizes (1881-1953), francês, Paisagem Cubista (1914)

 



LUA CHEIA


Boião de leite
que a Noite leva
com mãos de treva
pra não sei quem beber.

E que, embora levado
muito devagarzinho,
vai derramando pingos brancos
pelo caminho...

          De Martim-Cererê (1950)

 

 

RELÓGIO

Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.

          De Um Dia Depois do Outro (1947)

 

Albert Gleizes - Homem numa Rede
Albert Gleizes, Homem Deitado numa Rede (1913)

 


A ORQUÍDEA

A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.

Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.

Já supõe palavra
embora muda.
Já supõe insídia.

Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?


          De Um Dia Depois do Outro (1947)

 


SONETO DA AUSENTE

É impossível que na furtiva claridade
que te visita sem estrela nem lua,
não percebas o reflexo da lâmpada
com que te procuro pelas ruas da noite.

É impossível que, quando choras, não vejas
que uma de tuas lágrimas é minha.
É impossível que, com o teu corpo de água jovem,
não adivinhes toda a minha sede.

É impossível não sintas que a rosa
desfolhada a teus pés, ainda há um minuto,
foi jogada por mim, com a mão do vento.

É impossível não saibas que o pássaro,
caído em teu quarto por um vão da janela,
era um recado do meu pensamento!


          De Um Dia Depois do Outro (1947)

 

 

SERENATA SINTÉTICA

Lua
morta.

       Rua
       torta.

Tua
porta.


          De Um Dia Depois do Outro (1947)



Albert Gleizes - Porto Comercial
Albert Gleizes, Porto Comercial (1912)

 


A CANÇÃO MAIS RECENTE

O poeta
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eterna-
mente matutina.

Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Alem disso o amanhã
nunca deixará de ter pássa-
ros.

          De A Face Perdida (1950)

 


ACROBATISMO

Parou o vento. Todas as árvores
quiseram ver o salto original.
Então,
quedaram-se todas
com os seus anéis azuis de orvalho,
e os seus colares de ouro teatral,
prestando muita atenção.
Foi como se um silêncio fofo de veludo
começasse a passear seus pés de lã por tudo.
Nisto uma folha
sai, muito viva, de uma rama,
e vai cair sem o menor rumor
sobre o tapete de grama.
É um louva-a-deus lépido e longo
que se jogou de um trapézio
como um pequeno palhaço verde
e lá se foi, a rodopiar,
às cambalhotas
no ar.


Albert Gleizes - Retrato de Igor Stravinsky
Albert Gleizes, Retrato de Igor Stravinsky (1914)


CAMPANÁRIO DE S. JOSÉ
(para ser repetido, três vezes, na leitura)

          A Antônio Carlos Cabral

Quem
não
tem
seu

bem
que
não
vem?

Ou
vem
mas

em
vão?
Quem?


          De A Difícil Manhã (1960)

 



DEPOIS DE TUDO

Mas tudo passou tão depressa.
Não consigo dormir agora.

Nunca o silêncio gritou tanto
nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo
que pelos vãos dos dedos flui?

Meu coração é hoje um pássaro
pousado na árvore que eu fui.


          De A Difícil Manhã (1960)




MULTIPLICAÇÃO DOS PEIXES


     Súbito
     uma rede de pescador e toda uma popula-
                                          ção piscosa
     pu-lula entre o xadrez da malha
     e o das escamas, numa só escumalha.

          Nunca tanto xis de tanto peixe.

          Um deles, com a cauda em repuxo,
se conserva vivo por mais tempo, ao sol.

     Vivia, há um minuto,
                dentro d'água.

                                 Movendo-se

                livre e belo

(e esse minuto trêmulo ainda lhe cin-
                                            tila
     no dorso, ainda molhado).


          De Jeremias Sem-Chorar (1964)


 

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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2013




Cassiano Ricardo
• 
"Relâmpago", "Lua Cheia", "Relógio", "A Orquídea", "Soneto da Ausente",
    "Serenata Sintética" e "A Canção Mais Recente"
    in Poesias Completas
    José Olympio, Rio de Janeiro, 1957
•  "Campanário de S. José"
    in Cassiano Ricardo - Seleta em Prosa e Verso
    org. Nelly Novaes Coelho
    José Olympio, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1975
•  "Acrobatismo"
    Fundação Cultural Cassiano Ricardo
    (sem indicação dos livros de origem)
•  "Depois de Tudo"
    in A Difícil Manhã
    Livros de Portugal, Rio de Janeiro, 1960
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* António Ramos Rosa, no livro Animal Olhar (2005)
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- Todas as imagens: Albert Gleizes (1881-1953), pintor cubista francês