Número 317 - Ano 12

São Paulo, quarta-feira, 3 de setembro de 2014

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«Circunda-te de rosas, ama, bebe / E cala. O mais é nada.» (Ricardo Reis) *

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Sosígenes Costa
Sosígenes Costa

 

Caros,

O poeta baiano Sosígenes Costa (1901-1968) já apareceu aqui no boletim n. 79, dez anos atrás. Retorna agora, trazido pela riqueza de cores e sonoridades de seus “sonetos pavônicos”.

Nascido em Belmonte, cidade litorânea do sul da Bahia,  Sosígenes fez lá os primeiros estudos e mais tarde tornou-se professor primário. Em 1926, o poeta se transfere para Ilhéus, a capital do cacau, onde passou a maior parte de sua vida. Lá, trabalhou como telegrafista dos Correios e secretário da Associação Comercial.

Discreto, avesso à autopromoção e à convivência nos meios literários, Sosígenes nunca reuniu seus poemas em livro. Somente em 1959, já aposentado e morando no Rio de Janeiro (cidade onde viria a morrer em 1968), cedeu à insistência de amigos e consentiu na publicação de sua Obra Poética.

Essa mesma obra ganharia uma segunda edição em 1978, revista e ampliada pelo poeta paulista José Paulo Paes. Além de reunir a obra do poeta belmontino, Paes escreveu um conhecido ensaio interpretativo chamado Pavão, Parlenda, Paraíso – Uma Descrição da Poesia de Sosígenes Costa, em 1977. Tornou-se assim um dos principais responsáveis pela divulgação da poesia de Sosígenes entre as gerações mais recentes.

Por fim, o Conselho Estadual de Cultura da Bahia publicou em 2001 uma edição comemorativa do centenário de nascimento do poeta, com o nome de Poesia Completa. Nessa nova edição, além dos textos organizados por José Paulo Paes, aparece o poema longo “Iararana”, uma peça ao estilo do modernismo de 1922, que de alguma forma lembra Cobra Norato, de Raul Bopp, e Macunaíma, de Mário de Andrade.


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Devo confessar que roubei do poeta Florisvaldo Mattos (1932-), outro baiano da região cacaueira, a ideia de retornar à obra de Sosígenes Costa pelo atalho das cores e plumas dos sonetos pavônicos. Não, não adianta procurar a palavra no dicionário: ela é criação do próprio Sosígenes e refere-se obviamente ao pavão, essa luxuriante ave ornamental. Há poucas semanas, Florisvaldo reuniu e enviou a amigos os quatro primeiros sonetos ao lado. A eles juntei mais um, o “Pavão Azul”.


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Nos sonetos pavônicos revelam-se traços fundamentais da obra de Sosígenes. Neles estão, por exemplo, a extraordinária criatividade do poeta, sempre às voltas com sons, cores e aromas ― característica que trai as influências parnasiano-simbolistas presentes em seus versos.

A todo momento, a poesia de Sosígenes Costa apela aos sentidos do leitor. As metáforas constituem também um chamado à imaginação. Os pavões, por exemplo, são mutantes. Mudam de cor e de situação e assumem as formas mais inusitadas. Um tem chifre (“pavão pomposo e de chavelho” – “Pavão Vermelho”). Este pertence ao narrador, que diz: “Pavões lilases possuí outrora”. Outras aves são coqueiros e pertencem a um rei fictício (“O Primeiro Soneto Pavônico”). Outra mudança: os pavões (quase escrevo “clarões”) ora são da alvorada, ora do ocaso.

Se o poeta era pessoalmente arredio e reservado (consta que aceitou ser membro da academia de letras de Ilhéus, mas quase nunca a frequentou), revela ao contrário a mesma exuberância das plumas de pavão quando se trata de dar corda à imaginação.

Inventa animais: pavões azuis, vermelhos, verde-amarelos e até cor-de-rosa (“os únicos do mundo” — “Tornou-me o pôr do sol um nobre...”). Inventa reinos, castelos, nobrezas. E esbanja na floricultura: somente nestes cinco sonetos, há cravos, narcisos, rosas, lírios, azaleias, azureias (palavra que não encontrei nos dicionários que tenho nem na internet), lilases e açucenas.

No último soneto dos cinco aqui transcritos, o pavão azul não pertence ao narrador: é o próprio narrador, que foi transformado em pavão por um bruxo. Vivendo nos jardins do castelo desse mago, a ave morre de amores por “um grande lírio de ouro e de açafrão”. E sabe que morrerá se um dia lhe tirarem a açucena amada. Curioso o conhecimento de Sosígenes. Aqui, parece ter havido uma transformação de lírio para açucena. Não: lírio e açucena são a mesma flor.

Outro aspecto importante: os textos saltam, sem a menor cerimônia, do plano visual para o auditivo. Ou, quando não saltam, sugerem ao leitor que o faça. O pavão vermelho é “uma festa de púrpura” e “a cor vermelha chega a ser sonora”. Que som terá essa cor? Pode-se imaginar. Antes, no mesmo soneto, o texto diz que o pavão vermelho — que, aliás, é a alegria — “vem pousar como um sol em meu joelho / quando é estridente em meu quintal a aurora”. Mais uma vez, a aurora, que é tipicamente cor, transmuta-se em som agudo e penetrante.

Por mais que esses textos não possam ser enquadrados, pura e simplesmente, na fôrma parnasiana ou nos procedimentos simbolistas, não há dúvida de que esses pavões mutantes, com suas cores e olores, têm raiz no simbolismo.

Também é certo que algumas palavras ou expressões ficaram velhas na poesia de Sosígenes Costa. No “Pavão Azul”, por exemplo, encontram-se coisas como “bruxos d’asas d’ouro”, algo estranho a olhos e ouvidos atuais. Também é antiga a “flor taful” (alegre, festiva), palavra que já representou um lugar-comum preciosista, uma rima quase obrigatória para azul.

Uma última observação. O título “Tornou-me o pôr do sol um nobre entre os rapazes” aparentemente não tem muito a ver com o soneto, único dos cinco escrito em versos alexandrinos. Mas, observando bem, título e poema ligam-se pelo pôr do sol. E então, no segundo quarteto, ocorre mais uma transformação. O narrador, graças ao poder de sugestão do crepúsculo, transmuta-se no dono de um castelo — que, supõe-se, é o rapaz do título. Note-se que o título é também um verso alexandrino e contém a última rima do soneto (oásis, trazes). É possível imaginar que o poeta pretendia usar o verso-título no corpo do soneto (mais especificamente, no fim), porém a evolução do texto tomou outro rumo. Ele então decidiu manter como título o alexandrino descartado. Grande Sosígenes.



Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado

                    

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Cinco sonetos pavônicos

Sosígenes Costa

 



Beatriz Milhazes - Chiclete com Banana

 

O PRIMEIRO SONETO PAVÔNICO

Foge a tarde entre o bando de gazelas.
A noite agora vem do precipício.
Sóis poentes, douradas aquarelas!
Mirabolantes fogos de artifício!

Maravilhado assisto das janelas.
Os coqueiros, pavões de um rei fictício,
abrem as caudas verdes e amarelas,
ante da tarde o rútilo suplício.

Cai uma chuva de oiro sobre os cravos.
O grifo sai do mar com a lua cheia
e as pombas choram pelos pombos bravos.

Um suspiro de amor do peito arranco.
A luz desmaia. E o céu todo se arreia
Em vez de estrela de narciso branco.

(1923)

 

pavão azul-verde



TORNOU-ME O PÔR DO SOL UM NOBRE ENTRE OS RAPAZES


Queima sândalo e incenso o poente amarelo,
perfumando a vereda, encantando o caminho.
Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.
A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.

Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo
e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.
Encanto! E eis que já sou o dono de um castelo
de coral com portões de pedra cor de vinho.

Entre os tanques dos reis, o meu tanque é profundo.
Entre os ases da flora, os meus lírios lilases.
Meus pavões cor-de-rosa, os únicos do mundo.

E assim sou castelão e a vida fez-se oásis
pelo simples poder, ó pôr do sol fecundo,
pelo simples poder das sugestões que trazes.

(1924)

 


pavão branco



SONETO AO ANJO

Por tua causa o meu jardim fechou-se
às mulheres que vinham buscar lírios,
quando o poente cor-de-rosa e doce
punha pavões nos capitéis assírios.

Teu beijo como um pássaro me trouxe
o mais azul de todos os delírios.
Por tua causa o meu jardim fechou-se
às mulheres que vinham buscar lírios.

Só tu agora colhes azaleia
e os cintilantes cachos da azureia,
mágica flor que em meu jardim nasceu.

Só tu verás os lírios cor da aurora.
Meu pavão dormirá contigo agora
e o meu jardim dourado agora é teu.

(1930)


pavão vermelho



PAVÃO VERMELHO


Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

(1937-1959)




pavão azul 



PAVÃO AZUL


No jardim do castelo desse bruxo
d'asas d'ouro e olhos verdes de dragão,
tú és à beira de um lilás repuxo
um grande lírio de ouro e de açafrão.

Transformado em pavão por esse bruxo,
vivo te amando em tardes de verão,
dentre as rosas e os pássaros de luxo
do jardim desse bruxo castelão.

Tenho medo que um dia o jardineiro...
Mas nunca, estou bem certo, do canteiro
há de colher-te, ó minha flor taful.

Porque ele sabe que em manhã serena,
não suportando a ausência da açucena,
há de morrer esse pavão azul.

(s/ data)



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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2014


Sosígenes Costa
•  In Poesia Completa
   
Conselho Estadual de Cultura da Bahia
    Salvador, 2001

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* Fernando Pessoa, "Ode 358", in Odes de Ricardo Reis