Número 337 - Ano 13

São Paulo, quarta-feira, 5 de agosto de 2015

poesia.net header

«Nenhum tempo passou / desde os cajás / molhados nos lábios do verão.» (Lenilde Freitas) *

facebook 

Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
Afonso Felix de Sousa


Amigas e amigos,

Nascido em Jaraguá-GO, Afonso Felix de Sousa (1925-2002) foi poeta, cronista, jornalista e tradutor. Publicou seus primeiros poemas em jornais goianos no início dos anos 40. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1947 e em seguida para Brasília, em 1962. Profissionalmente, foi economista, funcionário do Banco do Brasil, jornalista do Diário Carioca e adido comercial da embaixada brasileira em Beirute, Líbano.


Sua estreia em livro se dá em 1948, com o livro O Túnel, publicado no Rio de Janeiro. Daí seguiu-se mais de uma dezena de títulos, dos quais o último foi Chamados e Escolhidos, reunião de poemas publicada em 2001.


Afora a poesia autoral, Afonso Felix de Sousa traduziu autores como o espanhol Federico García Lorca (Romanceiro Gitano, 1957; Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit, 1988); o inglês quinhentista John Donne (Sonetos de Meditação, 1985); e o francês quatrocentista François Villon (Testamento, 1987). Nota-se, portanto, que o poeta dominava vários idiomas.

No plano pessoal, Afonso Felix de Sousa foi casado com a também poeta e contista amazonense Astrid Cabral.

•o•

Os poemas de Afonso Felix mostrados aqui foram todos retirados do volume Chamados e Escolhidos. Abre a seleção o soneto “[Nos recantos tranquilos encontrava]”, publicado originalmente na seção “Sonetos Elementares” do primeiro livro do poeta, O Túnel. Lírico e saudoso, esse texto constrói-se com base nas recordações de infância do poeta. “Com o menino brincar vinham as tardes / e vinha o céu”.


Vem a seguir o quarteto “Escrito na Areia”, integrante do livro À Beira de Teu Corpo (1988). Aqui o poeta reflete sobre a condição humana e a essencial solitude de cada indivíduo. “Trocadero, 1955” aparece na seção Poemas Dispersos, em Chamados e Escolhidos. O texto parece registrar uma impressão despertada por uma lembrança da famosa Praça do Trocadero, em Paris.


É a indagação existencial, mais uma vez, que perpassa os versos de “Máscaras”. O ser humano diante do espelho e um feixe de perguntas inevitáveis. Quem sou? Quem é esse estranho que vejo no reflexo? “A vida nos põe no rosto / máscaras de gosto e desgosto”, diz o poeta.


Em “Tardia Elegia para Sylvia Plath”, do livro Quinquagésima Hora (1987), a pessoa que fala dirige-se à poeta suicida e tenta penetrar na mente dela e aproximar-se de suas angústias e delírios. Vem, por fim, o poema “50 anos”, que dá um tratamento sumaríssimo, de haikai, ao tema do natural declínio do corpo após a quinquagésima rotação em torno do sol. A partir daí, o jogo da vida se assemelha a uma trapaça, porque já se sabe claramente quem sairá vencedor.


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



•o•



Visite o poesia.net no Facebook:


facebook

Máscaras de gosto e desgosto

Afonso Felix de Sousa


 
 
De Chirico - Orfeu Trovador Cansado -1970
Giorgio de Chirico, italiano, Orfeu Trovador Cansado (1970)




[NOS RECANTOS TRANQUILOS ENCONTRAVA]

Nos recantos tranquilos encontrava
a poesia. Sobre mim e o rio
debruçavam-se as árvores. Os pássaros
eram ecos nos seus primeiros cantos.

Ruas de chuvas leves, nunca o inverno.
Com o menino brincar vinham as tardes
e vinha o céu. Adeus, nuvens cinzentas
onde vagam os monstros meus da infância.

Já não vibram as músicas ingênuas
na planície escutadas. A poesia
difícil se tornou e vive em sombras.

Em mim que tanto amei hoje às palavras
movem-se para ásperas mensagens
e vão morrer na incompreensão dos gestos.





De Chirico - São Jorge Matando o Dragão - 1940
De Chirico, São Jorge Matando o Dragão (1940)



ESCRITO NA AREIA

De água somos. E pó. E choro. E riso.
E há um sol que arde em nós.
O sol aviva o chão, o chão que piso
E nós pisamos. Sós.




De Chirico - Retrato de Clarice Lispector - 1945
De Chirico, Retrato de Clarice Lispector (1945)



TROCADERO, 1955

Enquanto eu te esperava, enquanto se desfazia
a espuma no copo de cerveja, eu ia escrevendo
palavras sem sentido e nenhum nexo numa folha
de papel que, como a recortar um lagarto
cujos pedaços continuassem teimosamente vivos,
rasguei em pedacinhos, cada um deles
com uma letra e cada sequência de letras,
como se num sonho ou num poema dadaísta,
dando um sentido ao que dentro e fora
de mim se passava e se resumia num grito mudo
de quem se despede e sabe que está se despedindo
para sempre, e sabe também que numa despedida
pedaços de nós como que amputados se destacam
e vão ficando teimosamente vivos pelo caminho
.




De Chirico - Pranto de Amor - Heitor e Andrômaca - 1974
De Chirico, Pranto de Amor - Heitor e Andrômaca (1974)



MÁSCARAS


A vida nos põe no rosto
máscaras de gosto e desgosto
que o tempo afoga
em espelho sem nexo
e sem tamanho
onde fica o reflexo
do rosto de um estranho
que se interroga



De Chirico - Piazza d'Italia -
De Chirico, Piazza d'Italia (1913)




TARDIA ELEGIA PARA SYLVIA PLATH

Sem bater à porta
chego à soleira
do teu delírio

Sem lira ou lírio
feito um verme faminto
me adentro por teus olhos
e roubo e roo
visões que se desfazem
e se refazem
e te apavoram
e te alimentam
enquanto vão te lambendo
as línguas geladas
da morte

Línguas do inferno
oh the tongues of hell

Traduzo-te as palavras
e o que há por trás das tuas
palavras
(What does it mean?)
e sinto-te bela
como se estivesse entrevendo

numa rua de Londres
no outono
de mil novecentos
e cinqüenta e nove
e próxima
como se nos amássemos
há três dias
há três noites
há milênios

Enquanto te traduzo
línguas do inferno
chegam às soleiras
do coração
da mente

Querem lamber-me
e queima-me a tua febre
e molha-me o suor
de tua pele
e tudo o que vês e deixas
de ver
e eu vejo
de dentro de teus olhos
vai-se cobrindo
das cinzas de Hiroshima.





De Chirico - O Canto de Amor -1914
De Chirico, O Canto de Amor (1914)



50 ANOS

Prossegue o jogo
mas já de cartas marcadas
a ferro e fogo.



poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2015




Afonso Felix de Sousa
* In Chamados e Escolhidos
   Record, Rio de Janeiro, 2001
_____________
* Lenilde Freitas, "A Castro Alves", em Tributos (1994)
______________
- Imagens: trabalhos de Giorgio de Chirico (1888-1978), pintor italiano.