Número 341 - Ano 13

São Paulo, quarta-feira, 14 de outubro de 2015

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«Só a tristeza tem história.» (Amélia Pais) *

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Vera Lúcia de Oliveira
Vera Lúcia de Oliveira



Amigas e amigos,


Não fazem parte da tradição poética brasileira os poemas que dizem “na lata” o que pretendem dizer. Do mesmo modo, também não é comum encontrar, entre nossos poetas já consagrados, textos que falem, sem meias palavras, da pobreza, da miséria urbana. Nesse aspecto, tem-se até a falsa impressão de que esses temas crus e desagradáveis não aparecem na poesia porque não existem na realidade.

Obviamente, há exceções. Entre os poetas já pertencentes ao cânone, Manuel Bandeira escreveu alguns poemas nesse tom. É o caso de “O Bicho”, “Meninos Carvoeiros”, “Balõezinhos” e “Poema Tirado de uma Notícia de Jornal”, além de “Tragédia Brasileira”.

Destaco “O Bicho”, aquele animal que cata comida “na imundície do pátio”. Bandeira conclui o poema de forma chocante: “O bicho não era um cão, / não era um gato, / não era um rato. // O bicho, meu Deus, era um homem”. Creio que Bandeira mereceria um boletim à parte somente para discutir esses poemas. Mas aqui o poeta recifense é apenas o ponto de partida.

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Sempre que leio a produção mais recente de Vera Lúcia de Oliveira, poeta paulista radicada na Itália, lembro-me desses poemas de Bandeira. Não se trata de dizer que Bandeira influenciou Vera Lúcia. O ângulo é outro: creio que seja mais uma questão de olho pessoal. Vera Lúcia tem a sensibilidade de ver e transfundir em poesia essa realidade brasileira.

Quem sabe, as décadas de vida longe do Brasil a tenham auxiliado no ajustamento dessa mirada especial, nessa capacidade de enxergar o absurdo que, para a maioria de nós, possivelmente já se tornou “natural” e, portanto, “invisível”.

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Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota, SP. É professora universitária de literatura portuguesa e brasileira na Itália, onde reside há décadas e onde escreve ambidestramente em português e em italiano. Sua incorporação do idioma de Dante foi tão profunda que ela já conquistou diversos prêmios de poesia em italiano.

Não é a primeira vez que Vera Lúcia aparece nesta página. Ela já esteve aqui na edição n. 40, em outubro de 2003, e também no boletim n. 235, de novembro de 2007. Vera é também uma das colaboradoras do poesia.net. Uma de suas contribuições, por exemplo, foi o boletim n. 187, para o qual traduziu e apresentou o poeta italiano, nunca publicado no Brasil, Alessio Brandolini.

Lamentavelmente, nunca tive a oportunidade de conhecer, face a face, a maioria dos poetas atuais publicados no poesia.net. Não é o caso de Vera Lúcia de Oliveira, uma amiga preciosa que faz parte do legado deixado a mim e a outros amantes da poesia pelo saudoso companheiro Donizete Galvão (1955-2014).


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músculo amargo


Os poemas mostrados neste boletim foram extraídos de dois livros de Vera Lúcia de Oliveira: O Músculo Amargo do Mundo (Escrituras, 2014) e A Poesia é um Estado de Transe (Portal, 2010). Em ambas as coletâneas os poemas, embora sem perder a emoção lírica, tendem a encarar essa realidade brasileira que muitos certamente consideram indigna de poesia.

Um sinal inequívoco disso está na capa de O Músculo Amargo... (acima), que exibe a foto de um catador de material reciclável em São Paulo — homem que se desloca pelas ruas arrastando uma carroça de duas rodas carregada com latas, vidros, papelão.

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Selecionei cinco poemas de O Músculo Amargo do Mundo. Nesse livro, os textos não têm título. Desse modo, recorro aqui a um expediente já conhecido de vocês: para facilitar a identificação, uso entre colchetes, à guisa de título, o verso inicial do poema.

O primeiro texto é “[Nem bem tinha adoecido]”. Trata-se de uma peça que tem de ser lida por inteiro. Não é possível isolar um trecho, uma frase ou alguns versos. Aí está a realidade, crua e vestida com a capa da desfaçatez. Alguém adoece, possivelmente vai morrer, e então os abutres dão em cima dos parcos recursos do infeliz.

Um detalhe: o poema é construído de tal forma que não se pode dizer se a pessoa lesada é homem ou mulher. Também não se sabe quem veio “limpar-lhe a casa” (aqui, o verbo limpar não carrega nenhuma higiene, nenhuma limpeza). Vieram — sujeitos indefinidos: parentes? amigos? conhecidos?

Outro texto do mesmo nível é “[Viu o fiapo da teia]”. Trata de um inseto apanhado numa teia de aranha. Embora alguém tente salvá-lo, o bicho “já estava dentro da morte / e não sabia”. Esse poema parece apontar não para a situação do inseto, mas para a vida precária dos seres humanos que se movem em O Músculo Amargo do Mundo.

Em “[Esse cão me segue]”, quem fala é alguém que, pelo contexto do livro, parece ser um morador de rua, alguém que tem o cachorro como companheiro. A rigor, bem mais que isso: “ele é meu irmão / ele é que é meu dono”. Em poucas palavras, a solidão e o abandono de um ser humano à margem da vida.

O mesmo abandono aparece em “[Sinal da cruz ajuda]”. Aqui, o sujeito que fala descreve, sem mágoa nem blasfêmia, as asperezas da vida. O que preside seu desabafo é um rombudo sentimento de desânimo, o estado de espírito de quem se vê mergulhado numa situação sem saída, da qual nem Deus é capaz de tirá-lo. Mas a impotência não é da divindade, e sim do próprio sujeito, que não se julga merecedor da atenção de um ser tão maiúsculo e distante.

O último texto de O Músculo Amargo do Mundo é “[Não se nasce onde se quer]”. Aqui, a pessoa que fala compara-se a uma formiga, seguindo uma fila indiana de seus semelhantes, programada para carregar um peso, cumprir sua tarefa e só.

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Os textos selecionados de A Poesia É Um Estado de Transe respiram a mesma atmosfera daqueles extraídos do outro livro. Contudo, as pessoas e animais aqui não parecem ter caído tanto. Sofrem um vazio, carências agudas e indefiníveis. Uma dessas carências é o que angustia a pessoa descrita em “A Fome”. Uma necessidade tratada como fome, mas que não é de alimento nem de água. Uma fome que “ele não saberia dizer”.

Semelhante sensação de vazio aparece em “O Osso”. Nesse poema não se pode dizer se o protagonista é realmente um cão ou este apenas representa um termo de comparação para uma pessoa. Como já vimos, os poemas de Vera Lúcia de Oliveira cultivam esse tipo de imprecisão que multiplica as possibilidades de leitura.

No poema “A Solidão”, a palavra “vazio” volta a aparecer numa tentativa de explicar aquele sentimento de falta, de incompletude. Em “O Pedido”, a carência retorna, agora explicitamente apresentada por um homem (pai? avô? irmão) a seus familiares.

Vem, por fim, “Sabia Falar”. Nesse caso, quem sabia falar — com a morte! — é possivelmente uma mulher, “a esposa do que não / tem morada”, “a dama das coisas / prenhes de mistério”. Enfim, alguém que num ambiente de carências indefiníveis encontra saídas no delírio ou no mistério.

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Em O Músculo Amargo do Mundo e A Poesia é um Estado de Transe, Vera Lúcia de Oliveira nos apresenta uma poesia que mantém os pés firmes no chão. Não se trata de versos para provocar sorrisos ou para acalentar corações enamorados. São textos diretamente extraídos do lado mais sombrio do cotidiano, ou no dizer mais sonoro da autora — "o músculo amargo do mundo".

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



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O músculo amargo do mundo

Vera Lúcia de Oliveira


 
 
Os Gêmeos - O Peixe..., 2006
Os Gêmeos, brasileiros, de O Peixe que comia estrelas cadentes (2006)



[NEM BEM TINHA ADOECIDO]

nem bem tinha adoecido
vieram limpar-lhe a casa
abrir as prateleiras
buscar aquele maço
enfiado num caderno
sem capa
onde possuía
a fadiga da vida inteira



[VIU O FIAPO DA TEIA]

viu o fiapo da teia
e na ponta o inseto
lutando para viver
o corpo emaranhado
quanto mais preso
mais se debatia

pensou em salvar o bicho
lidou com o fio pegajoso
e o animal caiu
mas não voou
já estava dentro da morte
e não sabia



Os Gêmeos - Mural em San Francisco 2013
Os Gêmeos, Mural em San Francisco, EUA (2013)



[ESSE CÃO ME SEGUE]

esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que eu tenho
divido com ele, o que eu não tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é o meu dono



[SINAL DA CRUZ AJUDA]

sinal da cruz ajuda, pelo menos libera
mas Deus não acho que goste de ser invocado
entrar na sujeira da vida, lambuzar-se na lama
a não ser que Deus fosse como ele, penasse
como ele, mas daí não servia, não adiantava
não mandava em nada, não mudava nada



[NÃO SE NASCE ONDE SE QUER]

não se nasce onde se quer nem se morre quando se quer,
       o fato é que viver
é pôr-se em fila indiana feito formiga, cada um com seu
       quinhão para levar
sem deixar cair quebrar rasgar, só de olho na cabeça
       curva da outra saúva


De O Músculo Amargo do Mundo (2014)



Os Gêmeos - O Peixe...
Os Gêmeos, de O Peixe que comia estrelas cadentes (2006)



A FOME


dera para lamentar-se de fome
não de um prato de comida
não de um copo de água
era fome que o roía que bramava
dentro noite e dia, se
alguém perguntasse que fome
era aquela ele não saberia
dizer não saberia
dizer



O OSSO

tinha uma delicadeza feminina
amava com seu jeito silencioso
de cão que fica aguardando um osso
depois deu para morder a sombra
da memória, deu para sofrer
por alguma coisa que lhe faltava
não sabia bem quando a perdera
mas foi por isso que desandou
a rosnar para o mundo




Os Gêmeos - O Peixe...
Os Gêmeos, Gigante (2010), mural em Nova York



A SOLIDÃO

a solidão não é um vazio
a solidão é um cheio de tudo
um abarrotamento dentro da gente
no grande silêncio de fora



O PEDIDO

chamou a família
vocês nunca me entenderam
vocês nunca ouviram o moinho dentro
ralando um milho sem piedade que era
a minha alma, a minha espera, a minha
vontade de ser amado, vocês não souberam
ver o que atrás da minha fala mansa eu pedia
o que vocês acham que eu estava pedindo?
o que vocês acham que eu vivi pedindo?



Os Gêmeos - A Ópera da Lua, 2006
Os Gêmeos, de A Ópera da Lua (2006)



SABIA FALAR

sabia falar com a morte
sabia esperá-la nas encruzilhadas
enfrentava coisa ruim
conversava com o sombrio
era a esposa do que não
tem morada nem tempo
era a dama das coisas
prenhes de mistério



De A Poesia É Um Estado de Transe (2010)



poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2015


Vera Lúcia de Oliveira
* "[Quebro Ampulhetas]", "[Não Procures o Amor]"
   In O Músculo Amargo do Mundo
   Escrituras, São Paulo, 2014
* "[Abro os Alçapões da Loucura]"
   In A Poesia É um Estado de Transe
   Portal, São Paulo, 2014
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* Amélia Pais, "Só a Tristeza Tem História"
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- Imagens: trabalhos de Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo), dupla de
  artistas paulistanos, gêmeos idênticos, nascidos em 1974. Com seus grafites,
  pinturas, esculturas e murais, ganharam projeção internacional.