Número 344 - Ano 13

São Paulo, quarta-feira, 25 de novembro de 2015

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«Circunda-te de rosas, ama, bebe / E cala. O mais é nada.» (Ricardo Reis) *

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Quinita Ribeiro Sampaio
Quinita Ribeiro Sampaio



Amigas e amigos,


A poeta que apresento nesta edição é uma escritora bissexta, com apenas um livro-solo publicado. Contudo, trata-se de uma pessoa especial, que na verdade nunca se distanciou da poesia e da literatura. Estou falando de Quinita Ribeiro Sampaio — ou, nos registros oficiais, Joaquina Elisa Ribeiro Sampaio de Melo Serrano.

Nascida no ano de 1926 em Campinas-SP, ela mantém acesa até hoje a chama poética. Formou-se em letras clássicas em 1946, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica de Campinas e fez carreira no magistério. Lecionou língua portuguesa no Colégio Estadual Culto à Ciência e literatura portuguesa na Faculdade de Letras da PUC-Campinas.

Apesar dessa trajetória sempre vinculada à língua e à literatura, ela conta que publicou, com dois outros autores, um volume chamado Canto a Três Vozes, em 1961. “Foi uma publicação intramuros, com tiragem reduzida”, esclarece. Depois dessa estreia, no entanto, Quinita Ribeiro Sampaio afastou-se completamente da poesia. Hoje, lamenta e diz: “Foi como se me exilassem de mim mesma”.

Felizmente, já afastada do magistério, cercada de filhos e netos, a poeta exilada voltou a pisar no chão da poesia. Tanto que em 2012, aos 85 anos, lançou a coletânea Aprendizagem pelo Avesso. Nesse livro Quinita reúne os poemas escritos após sua reaproximação com as musas e também inclui alguns textos daquele primeiro período de convivência lírica.

Conheci Quinita Ribeiro Sampaio este ano, durante um lançamento numa livraria em São Paulo. Sorridente e bem-falante — traços que devem ser pessoais, mas certamente reforçados pelo exercício do magistério —, ela discorre sobre questões literárias com destreza e naturalidade. Para minha surpresa e enorme satisfação, é leitora deste boletim.

Na livraria, Quinita me ofereceu um exemplar autografado de Aprendizagem pelo Avesso, além de alguns textos inéditos mais recentes, impressos em folhas A4. A pequena amostra da poesia dela, apresentada ao lado, consiste em três desses poemas avulsos, seguidos de quatro extraídos do livro.

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TRÊS INÉDITOS

No poema “Retrato”, a autora fala da menina que ela foi. “Fui íntima um dia / mas como me distanciei / da menina do retrato”. Com certa melancolia, conclui que aquela garota morreu. Só não sabe quando.

Se “Retrato” discorre sobre a infância, o poema seguinte, “No Princípio”, trata do outro extremo da vida, a velhice. O texto diz que a idade provecta vai chegando de forma sorrateira. No início, o “paciente” finge que não a vê, recebe-a com descaso. “No princípio / a velhice é um mero objeto”. Mas, a partir de certo momento, “a velhice / começa a ganhar força de sujeito”.

Aqui aparece a ex-professora de português. A transformação existencial é expressa pela troca de função sintática: o que era objeto passa a ser sujeito. O personagem secundário, subalterno — ao qual nem é preciso prestar atenção — de repente assume o papel de protagonista.

O terceiro poema dos inéditos é “Dicionário”. Nele, o sujeito lírico vai procurar no léxico sinônimos para a palavra morte. Busca e acha. Muitos, e esquisitos, como “exício decesso decedura / traspasse libitina / limoctônia”. Nomes estrambóticos para uma realidade “merovíngia” — referência àquela dinastia de reis francos, tidos como déspotas e carniceiros.

Assustado com a hediondez das palavras, o narrador pede para si uma morte simples, pura e mansa, como todos gostaríamos de ter. Afinal, quem quer ter uma libitina ou uma limoctônia? [Curiosidade: Aurélio e Houaiss registram limoctonia; o Aulete, limoctônia. O Vocabulário da Academia Brasileira de Letras confere com os dois primeiros.]

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POEMAS DO LIVRO

“Tríptico” é o primeiro poema da miniantologia ao lado extraído do livro Aprendizagem pelo Avesso. O texto descreve, metaforicamente, o trabalho do enfermeiro, dividido em três funções, comparadas às atividades agrícolas de plantar, regar e colher.

Em “Outono”, o acontecimento da poesia lembra essa estação do ano com todos os seus sinais de penumbra e reflexão: [A poesia] “Vem qual memória / a rolar de encosta pedregosa. / Como uma fala antiga, um flébil veio de água / que não estanca”. É interessante ver como a arte poética aparece não em sintonia, por exemplo, com os esbanjamentos luminosos do verão, mas com os instantes de recolhimento e reflexão propostos pela paisagem outonal. E, dentro desta, a paisagem da memória.

“Acalanto” é uma canção de adeus, uma despedida entre mãe e filho. Não se sabe se para um afastamento provisório ou se a mãe também está se despedindo da vida — o que é possível entender quando ela fala, no último verso: “Levo lírios e lilases”. Um poema bonito e muito triste.

Vem, por fim, “Miragens”. O tema, mais uma vez, parece ser a morte ou alguma experiência de delírio ou pesadelo. “O ar oprime / Imóvel a noite é como lápide / silente e dolorosa”. E a pessoa que vê as miragens insiste na procura de seus meninos: “Onde estão meus meninos aonde levaram / aonde levaram”.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

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poesia.net errou

No boletim anterior (n. 343, Ruy Proença), cometi dois erros. 1. Ao comentar o poema "Motoboy", transcrevi os versos "hora extra / trabalho sujo" sem esta última palavra. 2. Na seção de créditos (rodapé, à direita), indiquei errada a cidade da Editora 34, que é São Paulo.

Um problema técnico: durante o envio do boletim por e-mail, deve ter ocorrido alguma desconfiguração, de modo que alguns leitores receberam versos sem o alinhamento proposto pelo autor. Para ver os textos no formato correto, confira o boletim no site Alguma Poesia, onde também já foram feitas as duas correções acima.


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Aprendizagem pelo avesso

Quinita Ribeiro Sampaio


 
 
Berthe Morisot - Julie Manet - 1892
Berthe Morisot, impressionista francesa, Julie Manet (1892)




RETRATO

Fui íntima um dia
mas como me distanciei
da menina do retrato.

Já habitei sua pele
mas dela nada mais sei
não conheço
a menina do retrato.

Como seria a sua voz
e o som do riso
e o seu choro?

Em vão busco em seu olhar
um vestígio, algum resto.

Um mistério opaco encerra
a menina no retrato.

Em que dia se rompeu
o elo que nos prendia?

Em que dia ela morreu?




Berthe Morisot - Dia de Verão -1879
Berthe Morisot, Dia de verão (1879)




NO PRINCÍPIO

No principio
a velhice é um mero objeto.

A gente olha para ela
e até pode fazer pouco
fingir que não a vê.

Leva tempo
mas lá um dia
a velhice
começa a ganhar força de sujeito.

E então é ela que nos olha
sem reservas
com agudeza que desnuda.

E não há como fingir que não a vemos
se até ao espelho nos espreita
antropófaga
(é ironia o seu ar de complacência).

A velhice nos despoja
se apodera.

Ela nos olha
— com o nosso próprio olhar.




Berthe Morisot - Leitura -187e
Berthe Morisot, Leitura (1873)




DICIONÁRIO

Fui ao Houaiss atrás da sinonímia de morte.
Fiquei alarmada
eu que já não gosto de pensar nisso.
A morte no dicionário
é merovíngia:
exício decesso decedura
traspasse libitina
limoctônia.

Senhor dos Passos
livrai-nos de todo mal
sobretudo do peso das palavras.
Dai-nos a hora da nossa morte
sem meandros —
morte simples morte pura
rio manso
pôr de sol.




Berthe Morisot - Menina com um passarinho
Berthe Morisot, Menina com um passarinho (1891)




TRÍPTICO

O enfermeiro
canta
em acalanto
embala a doença em seus braços
espanta a mudez da sala
modula, solfeja — espalha
a semente.
Planta.

O enfermeiro
chora
— espelho umedecido
gesto brando —
partilha o lenho pesado
ressuda sangue no horto.
Rega.

O enfermeiro
tem riso claro
puro
dá risada iluminada
— um risco de giz no escuro —
alvorada
ressurgência.
Colhe.




Berthe Morisot - Retrato de Julie
Berthe Morisot, Retrato de Julie (1889)




OUTONO

A poesia está rondando.
Vem como o outono e as folhas púrpura.
Vem como um sopro, um som de flauta
transversa.
Vem qual memória
a rolar de encosta pedregosa.
Como uma fala antiga, um flébil veio de água
que não estanca.
Vem e é uma estrela, a estrela-guia,
a estrela da tarde.




Berthe Morisot - Moça com blusa azul
Berthe Morisot, Moça com blusa azul




ACALANTO

— Minha mãe, não vás ainda.
— Filho, é noite, tenho que ir.

— Quem me canta o acalanto?
— Canta o silêncio por mim.

— Vais embora tão sozinha...
— Há quem me espere na margem.

— Minha mãe, vais sentir frio.
— Levo lírios e lilases.




Berthe Morisot - Esconde-esconde
Berthe Morisot, Esconde-esconde (1873)




MIRAGENS

A noite — travessia de um deserto
emparedado
deserto de betume
A memória se enreda em miragens
e interroga
o vazio
— Onde estão meus meninos aonde levaram
aonde levaram

O ar oprime
Imóvel a noite é como lápide
silente e dolorosa

Vivos e mortos despovoaram a casa
a rua e as janelas
As portas não abrem
as vozes são a ausência

— E os meninos os meninos —
as sombras ainda clamam
à noite sem palavras

Tristes miragens no deserto sem resposta




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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2015


Foto Alex Nucci
Quinita Ribeiro Sampaio
    * "Retrato", "No Princípio" e "Dicionário"
    — poemas inéditos em livro
    * "Tríptico", "Outono", "Acalanto" e "Miragens"
    In Aprendizagem Pelo Avesso
    Pontes Editores, Campinas, 2012
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* Ricardo Reis/Fernando Pessoa, "Ode 358", das Odes de Ricardo Reis,
  in Fernando Pessoa, Obra Poética
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- Imagens: pinturas da impressionista francesa Berthe Morisot (1841-1895). Modelo de Édouard Manet e amiga da família dele, Berthe representa um olhar feminino entre os impressionistas. Boa parte de seus quadros retrata mulheres no cotidiano do século XIX.