Número 370 - Ano 15

São Paulo, quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

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«O tempo / é escritura de estilhaços. A paz é um pássaro sem asas.» (Myriam Fraga) *

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Luíza Mendes Furia
Luíza Mendes Furia



Amigas e amigos,


Talvez seja impossível obter uma estatística precisa, mas não é difícil aceitar que sufocante maioria (90%? 95%?) dos poemas e letras de canções populares tratem do fenômeno amoroso e suas manifestações: enamoramento, desejo, paixão, erotismo, ciúmes, traições.

Desde o bíblico Cântico dos Cânticos, ou Cantares, livro atribuído ao rei Salomão, amor e erotismo têm sido objeto de copiosíssimas páginas poéticas. Nos Cantares, esposo e esposa trocam juras de amor e elogios sensuais.

Diante dessa imensa e milenar produção de lirismo amoroso, é cada vez mais difícil escrever algo novo e criativo com esse tema. Isso não quer dizer que o amor e as formas de amar se mantiveram estáticos ao longo dos milênios. Naturalmente, muita água passou embaixo da ponte das relações amorosas, em especial no que tange à aceitação social de formas antes consideradas tabus.

A despeito de todas as mudanças, não é fácil hoje, nem era cem ou duzentos anos atrás, celebrar criativamente o amor e seus desdobramentos sensuais e eróticos.

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Essa dificuldade não serviu de desestímulo à poeta Luíza Mendes Furia, que escreveu um livro inteiro, Vênus em Escorpião, com 25 poemas afinados na corda do amor e do erotismo.

Alguns poemas de Vênus em Escorpião apareceram em público pela primeira vez aqui no poesia.net, na edição n. 168, mais de dez anos atrás. Naquele momento, o livro já estava escrito e impresso em edição pessoal e artesanal da autora. Somente agora veio à luz em formato comercial, uma pena para os leitores, que perderam a oportunidade de se envolver antes com os doces enleios de Vênus e os irresistíveis venenos de Escorpião.

Nesta edição, o poesia.net revisita Vênus em Escorpião. Em 2006, escrevi este trecho sobre o livro:

Escolhi alguns poemas entre os que formam o exuberante Vênus em Escorpião. Com um lirismo afiadíssimo, a poeta constrói textos eróticos em que ousadia e leveza se combinam em invejável harmonia.

Sempre pensei comigo que um grande poeta se revela de várias formas. Uma delas, sem dúvida, é na capacidade de escrever poemas de amor e, mais ainda, poemas eróticos. A explicação é simples: o tema é tão velho, tão batido, que só um talento especial consegue extrair dele alguma emoção nova e legítima. Luíza Mendes Furia realiza esse feito.

Não retiro nada desse velho texto. Ao contrário, confirmo-o com mais força, agora autorizado pelo teste do tempo.

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Escolhi para esta revisitação de Vênus em Escorpião outra amostra de poemas, diferente daquela primeira. Num livro assim, as escolhas são sempre complicadas, porque significam deixar de lado vários outros textos de nível similar.

O poema “I (2)” faz parte de uma espécie de preâmbulo à sequência de textos. Ao todo, são 25 poemas, numerados de I a XXV, sendo que o poema “I” desdobra-se em três partes, intituladas em números arábicos. Neste poema, a persona do poeta assume que, para produzir seus cantares eróticos, precisa desvencilhar-se de certas amarras para entregar-se à necessária liberdade criativa: “Abandonei o tempo dos limites. / É do infinito que a alma mais tem fome”.

Em “II”, o texto se inicia com uma declaração de plena doação. O ser amoroso — para usar uma expressão de Drummond — não pede nada, mas está disposto a tudo dar de si. E oferece a própria casa, o dia, a noite e o sol, além do próprio corpo — “feito poço e labirinto”.

O poemeto “IV” é um momento de transformações. Agora o/a amante se converte em água e se oferece, qual regato, para correr pelos vãos do corpo do/a outro/a.

O lirismo que funde corpo, sentimentos e sensações pessoais com fenômenos da natureza encontra no poema “XVII” alguns destacados pontos luminosos. Exemplo: “E aos poucos cada poro se transforma / da mais mínima estrela / em translúcida rosa”.

A fusão corpo-natureza também dá o tom no último poema da série, “XXV – Vésper”. Nele, a amante escolhe o verão (a estação do esbraseamento amoroso) e, mesmo em tom vespertino, promete “contemplar as tardes / como se fossem navios ancorados na surpresa / como se fossem alaúdes que o vento tangesse”.

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Como diz o professor e poeta Alexandre Bonafim, no prefácio do livro de Luíza Mendes Furia, “música e desejo, festa do tato, aberta incandescência do que não se sacia, iluminam os poemas de Vênus em Escorpião, livro raro para raros, pela altíssima qualidade lírica”.

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Nascida em Caçapava-SP (1961), Luíza Mendes Furia é jornalista, poeta e tradutora. Aos 16 anos publicou seu primeiro livro de poesia, Madrugada e Outros Poemas (1978). Participou de diversas antologias e também publicou poemas em jornais, revistas e sites literários. Seu livro  Inventário da Solidão saiu em 1998 e, três anos depois, a autora produziu Vênus em Escorpião, editado em tiragem limitada e só agora publicado em formato comercial. Sem muita pressa de publicar, a autora mantém considerável acervo de inéditos na gaveta.

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A vocês,  o primeiro abraço de 2017.

Até a próxima.

Carlos Machado



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Vênus e a fome de infinito

Luíza Mendes Furia 


 
 
Jane Peterson - Girl with fruit
Jane Peterson, americana, Moça com frutas



I (2)

Abandonei o tempo dos limites.
É do infinito que a alma mais tem fome.

A vida tece a urdidura do avesso
E é de loucura que o corpo se sacia.

Minha paixão não teme estes abismos.
O que se busca é nesta névoa que se oculta.



Jane Peterson - Self-portrait 2
Jane Peterson, Autorretrato 2



II

Nada te peço, porém
aqui tens o que desejas

Uma lâmina de luz sobre o espelho
a lua no parapeito
a argamassa da noite
a aquarela do dia:
desenhos do sol na parede
o fogo subindo na tarde
a música a fazer uma teia
no telhado do silêncio

Eis a minha casa.

Nada te peço, porém
aqui tens o que desejas

A moringa sobre a mesa
Maçãs na cesta de palha
Vinho no copo de prata
Este pão, este alimento

Minha boca feito fruta
delibando a tua fala
E meu corpo feito potro
feito moço, feito doce,
feito poço e labirinto.



Jane Peterson - Reading at a cafe
Jane Peterson, Lendo num café (c.1920)



IV

Para teu corpo
teu porto
ansioso por navios
me faço água

suave, me deito
em tua terra
e corro pelos vãos
das tuas pedras

Ágil, ardente
de vento me faço
e quero
inaugurar o fogo
em tuas trevas




Jane Peterson - Self-portrait 3
Jane Peterson, Autorretrato 3



XVII

Amanheço com o teu beijo de sol
Enquanto é a lua
que ainda esplende nos meus olhos
fechados
esbraseados pelo ardor da tua voz.
O amarelo-purpúreo-alaranjado
das palavras
aquece, súbito, meu ouvido
— poço de silêncio num profundo azul.

E aos poucos cada poro se transforma
da mais mínima estrela
em translúcida rosa.

Entardeço em saudades espraiadas
— pólen que o vento esparge na cidade
para semear pontos de luz por toda parte.



Jane Peterson - The answer -1929
Jane Peterson, A resposta (1929)



XXV – VÉSPER

Conservo o verão para que não me deixes
Este verão de folhas a se abrir nas mãos
E em ti farei habitar as correntezas
por que fluem as horas em cardumes de estrelas.

Conservo o verão para que não te percas
E a inocência das chuvas há de banhar teu rosto
E plantarei as palavras ainda úmidas e tersas
sobre os campos e os ninhos. E que floresçam.

Conservo o verão para que não me esqueças
sentada numa cadeira a contemplar as tardes
como se fossem navios ancorados na surpresa
como se fossem alaúdes que o vento tangesse.




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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2017


Luíza Mendes Furia
• In Vênus em Escorpião
  
Patuá, São Paulo, 2016
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* Myriam Fraga, "Olho de Vidro", em O Risco na Pele (1979)
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* Imagens: quadros de Jane Peterson (1876-1965), pintora americana