Número 384 - Ano 15

São Paulo, quarta-feira, 6 de setembro de 2017

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«A que novos desastres determinas / De levar estes reinos e esta gente?» (Luís Vaz de Camões)

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Patrícia Claudine Hoffmann
Patrícia Claudine Hoffmann



Amigas e amigos,

A poeta Patrícia Claudine Hoffmann já apareceu aqui no poesia.​net dois anos atrás, no edição n. 340. Nascida na capital paulista em 1975, Patrícia Hoffmann mora em Santa Catarina desde os seis anos de idade. É formada em letras e trabalha como professora de língua portuguesa.

Na seara poética, quem observa a incessante produção dessa paulistana-catarinense tem a impressão de que ela escreve tanto quanto respira. De fato, há sempre novos poemas dela no Espólio do Sol, seu blog pessoal, no Facebook e também em livros.

Agora, a autora retorna ao poesia.​net, graças ao lançamento de dois títulos recentes: Matadouro Imperfeito, de 2016, e Feito Vértebras de Colibris, deste ano. No primeiro boletim, observei que Patrícia Hoffmann tende, quase sempre, a escrever uma poesia de traços abstratos, meio surrealistas, marcada por imagens desconcertantes.

Na ocasião, escrevi: “O que está em jogo é uma incessante busca existencial, a indagação de significados em meio ao espanto e às dissonâncias do mundo. Com suas metáforas que desnorteiam as expectativas do leitor, talvez a poeta queira mesmo apontar para essas dissonâncias”.

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Após a leitura dos dois livros novos, mantenho essas impressões e acrescento alguns aspectos que somente agora se tornaram aparentes para mim. Em ambos os volumes recentes, observa-se que a poeta desenvolveu uma forte conexão com o mar. Numerosos poemas ou se referem diretamente ao mar ou, tratando de outros temas, lançam mão de metáforas marítimas, com peixes, redes, anzóis, barcos, escamas, espumas, naufrágios.

Para o presente boletim, pincei três poemas de Matadouro Imperfeito e três de Feito Vértebras de Colibris. Vamos aos textos do primeiro livro. Comecemos com “[Nomenclatura Exausta]”. Lembro aos que não conhecem os procedimentos adotados aqui: quando o poema não tem título, usamos seu primeiro verso ou algumas palavras iniciais entre colchetes, à guisa de título, para facilitar as referências.

Nessa “nomenclatura exausta”, aparece outro tema que é repetidamente explorado nos dois livros recentes da autora. Trata-se da infância perdida, ou da infância como raiz das incompletudes e angústias existenciais do adulto. É como se objetos ou desejos perdidos no passado infantil fossem peças faltantes num quebra-cabeça que precisa ser montado agora. O tom é de perda: “A criança e suas escavações na praia: / castelos e costelas, / e uns peixes já sem guelras”. E a perspectiva é sombria: as coisas perdidas na guerra —qual guerra? talvez os solavancos da vida — “convocam cemitérios”.

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No poema “[E Esses Cães no Vento]”, surgem, mais uma vez, a infância, e a paisagem marinha. Os cães que vêm no vento reconstroem “as patas da infância”. Trazem assim o sal que “treina” nos olhos do personagem. O sal da lágrima, o sal do mar. E me vem à lembrança a velha canção do italiano Gino Paoli: Sapore di sale / Sapore di mare / Un gusto un po’ amaro / Di cose perdute...

Em “[Para as Navegações]”, o sujeito lírico invoca alguma entidade poderosa não nomeada para que restaure seu nascimento, talvez como uma forma de começar tudo outra vez, e de forma correta, já que seus “inícios” foram quebrados. E então vem o pedido patético de reconstrução dos objetos da infância: “meus animais de plástico / com rodinhas nas patas”.

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Passemos aos poemas de Feito Vértebras de Colibris. Em “De Onde me Aguardo”, a pessoa que fala parece ser a mesma do outro livro. Ou, se não a mesma, tem preocupações e buscas similares. Neste poema, ela apanha conchas na praia para fazer um colar. Mais uma vez, o mar.

Em “Paisagem na Lagoa”, o ambiente é também marinho e o clima psicológico já se sabe: não é de festa. As redes de pesca têm a forma de grades e o pescador solitário envolve-se com seus mantras de vento.

No último poema, “Respirações Possíveis Sobre o Amor”, a paisagem ainda é marinha. As definições do sentimento amoroso são primorosas. Há várias. Ele é “um rumor de remos / lançados em mares / nunca pequenos”. É ainda “éter de atar vontades” e (ao que parece, depois que acaba) transforma-se num “avatar envolto na selva / da saudade”. O amor também  pode renascer. Mas, vivo ou morto, sempre se mostra contraditório, como já cantava Luís Vaz de Camões. É relento e alento. Mantimento e fome. E, para completar, também é perigoso "gume entreaberto". Belo poema.

Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Sapore di sale, sapore di mare

• Patrícia Claudine Hoffmann




sally swatland - a walk at the sea
Sally Swatland, pintora americana, Caminhada junto ao mar



[NOMENCLATURA EXAUSTA]

Nomenclatura exausta.
Colo desfeito aquém da misericórdia.

A criança e suas escavações na praia:
castelos e costelas,
e uns peixes já sem guelras.

Todos soterrados
nas vértebras da guerra.

Convocam cemitérios.



sally swatland - a may morning
Sally Swatland, Manhã de maio



[E ESSES CÃES NO VENTO]

E esses cães no vento, amortecidos,
vêm me acordar com o rosto em chuva.
Refazem as patas da infância.

Enquanto o sal treina em meus olhos,
devolvendo-me — aos poucos —
para o mar.



Sally Seatland - day at the beach
Sally Swatland, Um dia na praia



[PARA AS NAVEGAÇÕES]

Para as navegações
quebraste meus inícios.
Agora restaura meu nascimento:
este inviável corte,
feito para celebração alheia.

Costura o talho
como um desenho definitivo.

Desmonta minhas artificiais
cavernas.
Reconstrói meus quebra-cabeças,
meus animais de plástico
com rodinhas nas patas.

    De Matadouro Imperfeito (2016)



sally swatland - high tide
Sally Swatland, Maré alta



DE ONDE ME AGUARDO

De onde me aguardo,
uma calma de leopardo
lambe a parte contrária da tarde.

A praia extensa protege um tenso
florido de águas.

E eu garimpo conchas.

Às vezes faço um colar
sem lembranças.



sally swatland - looking towars catalina
Sally Swatland, Olhando para Catalina



PAISAGEM NA LAGOA

O pescador,
na epígrafe da tarde,
se perde sob a geografia
das redes
em forma de grades.

Agradece aos escombros ensinados
nas ilhas.

Recolhe gravuras de sol
para as bordas do barco.

Transfere o caminho ferido
para o centro do ventre

de uns cavalos-marinhos.

Adentra um mantra no vento.

Sozinho.


sally swatland - the shore of long island
Sally Swatland, A praia de Long Island



RESPIRAÇÕES POSSÍVEIS SOBRE O AMOR

O amor é um rumor de remos
lançados em mares
nunca pequenos.

Se para eles ainda não fomos,
nós iremos.

Arrumando rumos,
remoendo rimas, amoras
e arames de tecer as horas,

sobre os derrames
da eternidade
e mais um pouco de agora.

O amor é éter de atar vontades.

Avatar envolto na selva
da saudade.

Clichê, por vezes renascido
de novidades.

Longe. Porto.
Perto. Sonho.

Senha de Eros.
Urso.
Desenho incerto.

Insônia dos justos.
Surto em movimento
Relento.
Alento.

Mantimento e fome.

Indigência.
Nome.

Gume entreaberto.

Deserto em que me embarco.

Costume. Voo.
Ninho ao vento.

Vaga-lume-marinho
com barcos de pousar dentro.


    De Feito Vértebras de Colibris (2017)






poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2017



Patrícia Claudine Hoffmann

  • “[Nomenclatura Exausta]", “[E Esses Cães no Vento]”,
  “[Para as Navegações]”
  in Matadouro Imperfeito
  Editora Letradágua, Joinville-SC, 2016

  • “De Onde me Aguardo”, “Paisagem na Lagoa”,
   “Respirações Possíveis Sobre o Amor”
  in Feito Vértebras de Colibris
  Marianas Edições, Curitiba, 2017
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* Luís Vaz de Camões (1524?-1580), “O Velho do Restelo”, in Os Lusíadas
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* Imagens: Quadros da pintora americana Sally Swatland (1946-)