Número 386 - Ano 15

São Paulo, quarta-feira, 4 de outubro de 2017

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«Perdi o bonde e a esperança. / Volto pálido para casa.» (Carlos Drummond de Andrade)

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Rosana Chrispim
Rosana Chrispim



Amigas e amigos,

A poeta Rosana Chrispim (Carandaí-MG, 1958) é formada em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e trabalhou durante três décadas como produtora gráfica. Na literatura, integrou o Grupo Livrespaço de Poesia, de Santo André-SP, com o qual publicou as antologias Coletânea Livrespaço II (1984), III (1985), IV (1988) e V (1990).

No período 1992-93, Rosana Chrispim foi uma das editoras da Revista Livrespaço, publicação distinguida com o Prêmio APCA como melhor realização cultural de 1993. Seu primeiro livro solo, Semelhanças, veio à luz em 1986, seguido por Entretempo, de 2003. Agora, ela acaba de lançar nova coletânea poética, Caderno de Intermitências, publicada pela Editora Patuá.

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Neste boletim, transcrevo poemas de Entretempo e de Caderno de Intermitências. Li esses livros de Rosana Chrispim e fiquei com a impressão de que um fio lógico une os poemas dos dois volumes, embora um intervalo de catorze anos separe seus lançamentos.

Em ambas as coletâneas a autora constrói um clima de desamparo e desconfiança. O poema “Nau”, de Entretempo, diz que céu, mar e embarcação são desfavoráveis, mas ainda há portos onde é possível restaurar o casco do navio e consertar as máquinas. Ou seja, todo o contexto é de dúvida. E ao navegador restam “(in)certeza e travessia”.

Os poemas do Caderno de Intermitências também são coerentes com esse clima de “(in)certeza”. A própria ideia de “intermitências” já pressupõe falhas: sim e não, pelo caminho. A poeta, por sua vez, revela especial inclinação para selecionar palavras de valor ambíguo, afirmando mediante o uso de prefixos negativos.

Um exemplo é a própria palavra “(in)certeza”, na qual a partícula entre parênteses nega a palavra principal, mas não o faz de modo incisivo. Cabe ao leitor a tarefa de aceitar ou não a negação (ou dúvida) proposta, ou mesmo tentar equilibrar o sim e o não embutidos na palavra.

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Essa necessidade de manter um pé-atrás em relação às coisas do mundo leva a poeta a criar muitos neologismos baseados em prefixos de negação. É o caso de “desdorme”, no poema “Transposição”: “na calada do dia / a dor desdorme / em sobressalto / em silêncio convulso”. Suponho que, durante o dia, quando o indivíduo está envolvido com os trabalhos, a dor faz de conta que não está ativa. Mas não dorme: “desdorme”.

No poema “Sobre Voo”, o sujeito lírico apresenta queixas contra pessoas indeterminadas (“eles”), seres desprovidos de asas (quer dizer: tiveram-nas um dia) que se dedicam a cortar esses membros voadores do sujeito lírico. Por isso, conclui: “sendo ave nunca / fui pássaro”.

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É talvez para fugir às armadilhas de um contexto sempre hostil que a poesia de Rosana Chrispim tende a apostar na eloquência do silêncio. Na dúvida, melhor é dizer pouco, com extrema economia de palavras. O poema “Eloquência” avisa: “o silêncio fala / às vezes / fala demais”. Contudo, mais adiante, vem a afirmação aparentemente contrária: “o silêncio por vezes cala”.

São poemas concisos que demandam leitura cuidadosa. Não acredite na primeira palavra. Nem na segunda. Leia, releia, e no íntimo invente a prova dos nove. Ou a prova de quanto o silêncio é capaz de dizer.

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Veja-se o caso do poema “Quirera”. Aqui, a autora, mineira, refere-se ao milho quebrado, esfarinhado. Paixão, desejo, lembranças e suspiros (amorosos) são comparados a esse bagaço de cereal. Mas fiz questão de citar esse texto por outro detalhe: observem que não há nele um só verbo ativo. Há, decerto, “a paixão admitida / o desejo sublimado” (os destaques são meus). Sim, dois particípios: verbos já “passados”, sem ação presente, sem promessa.

“Quirera” nos faz retornar à eloquência do silêncio. Praticamente, o que a poeta diz está ali, está vivo, mas quase sem dizer, sem escancaramentos.

No poema “(In)disposição” vêm, mais uma vez, três negações deixadas em suspenso: a partícula (in) do título e, mais adiante, “(des)ordenando” e “(des)arrumando”. Há ainda outros termos marcados pelo negativo, como “desnecessidades”, “desolação”, “inação” e “dessaberes”. E o sujeito lírico, cansado ou covarde, cala-se.

É uma poesia na qual o silêncio é que(m) diz.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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A eloquência do silêncio

• Rosana Chrispim




Ruud van Empel - Mood n. 5 - 2016
Ruud van Empel, fotógrafo holandês, Mood n. 5 (2016)



NAU

confia ainda
que há portos
nas cartas dessa ímpar navegação

céu mar embarcação
desfavoráveis
mas há portos

prontos
a receber as passageiras amarras
para restauro do casco
cuidado da máquina
retomada do leme

ao navegador
(in)certeza e travessia

aos portos
o quinhão da espera

    De Entretempo (2003)



Ruud van Empel - Irmãos e irmãs - 2010
Ruud van Empel, Irmãos e irmãs n. 3 (2010)



TRANSPOSIÇÃO

na calada do dia
a dor desdorme
em sobressalto
em silêncio convulso

se
  desse para ver
  com os olhos alheios
  pudesse crer
  com a fé dos outros
calmaria

as horas só
contradizem toda
ilusão

    De Caderno de Intermitências (2017)



Ruud van Empel - Sophisticated 2 - 2011
Ruud van Empel, Sofisticado 2 (2011)



SOBRE VOO

eles que já não
tinham asas
quando nasciam as minhas
aparavam
para que ao usá-las mantivesse
os pés no chão

entendi o ar
e o caminho
por esse axioma

assim
que sendo ave nunca
fui pássaro

    De Caderno de Intermitências (2017)



Ruud van Empel - Brothers and Sisters 1 - 2009
Ruud van Empel, Irmãos e irmãs 1 (2009)



ELOQUÊNCIA

o silêncio fala
às vezes
fala demais
e até fala
o indizível
o que não há
o que não deve

o silêncio por vezes cala

    De Caderno de Intermitências (2017)



Ruud van Empel - Sunday 2 - 2012
Ruud van Empel, Domingo 2 (2012)



QUIRERA

a palavra
a paixão admitida
o desejo sublimado

tudo tão pouco
e tanto

a lembrança
a falta
a espera

tudo tanto e
tão pouco

delicadezas
transgressão
suor frio

a alma em estado de poesia

    De Caderno de Intermitências (2017)



Ruud van Empel - Domingo 4 - 2012
Ruud van Empel, Domingo 4 (2012)



(IN)DISPOSIÇÃO

e o verbo
trará dor e condição
resgate e apropriação
  janelas de desnecessidades
  debruçadas sobre o dentro
  (des)ordenando pensares

mas o verbo dará
libertação e angústia
desolação e luz
ânsia e inação
  espelhos de dessaberes
  dependurados entre quereres e espantos
  (des)arrumando

covardia ou cansaço
calo-me

    De Caderno de Intermitências (2017)






poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2017



Rosana Chrispim
• "Nau"
  in Entretempo
  Alpharrabio, Santo André-SP, 2003
• "Transposição", "Sobre Voo", "Eloquência", "Quirera", "(In)disposição"
  in Caderno de Intermitências
  Patuá, São Paulo, 2017
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* Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), "Soneto da Perdida Esperança",
  in Brejo das Almas (1934)
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* Imagens: Quadros do fotógrafo holandês Ruud van Empel (1958-). Van Empel
  faz montagens fotográficas e trabalha com técnicas especiais de impressão.