Número 389 - Ano 15

São Paulo, quarta-feira, 22 de novembro de 2017

poesia.net header

«O beijo ainda é um sinal, perdido embora, / da ausência de comércio, / boiando em tempos sujos.» (Carlos Drummond de Andrade)

facebook 
Adriane Garcia
Adriane Garcia



Amigas e amigos,

A poeta mineira Adriane Garcia (Belo Horizonte, 1973) já esteve aqui no poesia.net, na edição n. 334, em junho de 2015. Artista de múltiplas artes — além de poesia, escreve ficção, textos teatrais, e é atriz —, ela tem um talento especial para descobrir novas minas de exploração poética.

Sua coletânea mais recente, Fábulas para Adulto Perder o Sono, é um exemplo disso. Lançado em 2013, esse livro conquistou o Prêmio de Literatura do Paraná - Helena Kolody. Agora foi relançado pela editora carioca Confraria do Vento, em versão ampliada por um punhado de poemas inéditos.

Em suas histórias destinadas a assombrar adultos, Adriane Garcia recria fábulas de Esopo e La Fontaine e também o contexto de personagens conhecidos, como heróis de filmes e figuras da tradição oral. Contudo, em lugar de propor ensinamentos morais conforme a tradição fabulística, a autora ruma para o desvio, com maciças doses de ironia e desvelamento da realidade. Portanto, ao ler essas fábulas, o leitor não encontrará exemplos edificantes. Afinal, quem disse que o mundo real dá prêmios aos bonzinhos? Aqui, as histórias não têm moral nem piedade.

•o•

Para este boletim, selecionei algumas das dezenas de fábulas reinventadas pela poeta. No poemeto “Para a Enteada”, baseado na história da Cinderela, a heroína descobre, tardiamente: o espelho que a “má-drasta” lhe dera sempre mentira sobre sua beleza. O espelho, claro, era o porta-voz das ideias da mulher que a escravizava.

O poema “A princesa e o mentiroso”, por sua vez, parte do conto infantil O Gato de Botas. Mais uma vez, revela-se uma fraude, descoberta pela ludibriada consorte (ou sem sorte?) do Marquês de Carabás. Em “A Fera e a Fera”, o título já diz tudo: trata-se de uma história de amor na qual a mulher que deveria ser “a bela” também se converte em fera. Tudo por causa do “amor”.

“O Sapo e a Princesa” é outra fábula de Adriane Garcia em que o título já faz supor que algo está fora de lugar. Em vez de anunciar o príncipe encantado na forma de sapo, o título dá a entender que o batráquio é quem assume o primeiro plano da história. Mas há ainda outras esquisitices, que eu prefiro deixar que você mesmo(a) descubra.

•o•

O “Patinho Feio” é hilariante. A ave, pobrezinha, nasce toda fora do esquadro. Não resisto ao trocadilho: é um pato cheio de patologias. E seu destino entre as aves de sua convivência não pode ser dos mais gloriosos. Nesta fábula ele não encontra consolo nem ajuda. Aqui, o pato é quem paga o pato.

No poema “Os Três Porquinhos”, os protagonistas são os conhecidos personagens dos relatos infantis. Mas quem tira o sono dos porquinhos não é o Lobo Mau, mas os fazendeiros, seus donos. O trio suíno sabe muito bem que seu destino é o abatedouro. E trata de inventar outro caminho.

No último texto da seleção, “O Pesadelo”, a promessa de tirar o sono de adultos se cumpre integralmente. A pessoa que fala no poema é assombrada por um sonho angustiante, no qual está para ser executada num cadafalso. Adriane Garcia sabe cumprir o que promete.

Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




•o•

Curta o poesia.​net no Facebook:

facebook


•o•



POESIA.NET: 15 ANOS

Como se pode ver no cabeçalho do boletim, começamos aqui a comemoração dos 15 anos deste poesia.net, que serão cumpridos no próximo dia 12 de dezembro.  Já enviei a todos os assinantes uma mensagem pedindo sua opinião. A resposta foi vasta e emocionante.

Há surpresas a caminho até a data do aniversário.



Histórias sem moral nem piedade

• Adriane Garcia


              



Loui Jover - Flash (2017)
Loui Jover, artista australiano, Flash (2017)


PARA A ENTEADA

O espelho, espelho meu
Dizia que qualquer uma
Era mais bela do que eu

E eu acreditei anos a fio
Nesse presente
Que a Madrasta me deu.



Loui Jover - Vincent van Selfie (2015)
Loui Jover, Vincent van Selfie (2015)


A PRINCESA E O MENTIROSO

Enganou-me dizendo que tinha
Fazendas
Lavouras que administrava ele mesmo
Mas
Tudo que tinha
Era
Um gato
Em que calçava botas para não dar a entender que
Sua consciência era escrava

E cá estou eu
Dormindo com o
Nunca havido
Marquês de Carabás.



Loui Jover - Tunisia postcard (2017)
Loui Jover, Cartão postal da Tunísia (2017)


A FERA E A FERA

Bela não teve medo
Dos cabelos desgrenhados
Dos olhos arregalados
Do pelo escondendo o corpo
Dos dentes raivosos à mostra
Das mãos sujas de carne
Crua, de restos comidos
Dos dedos de unhas crescidas
Da barriga arredondada
Cheia de cobras e sapos
Do sexo esfaimado
Sem cortesia de homem
Das pernas tortas gigantes
Dos pés de bicho do mato
E amou-o de tal maneira
Que deixou minguar-se a beleza
E tornou-se fera com ele.



Loui Jover - Flash (2017)
Loui Jover, Alta-fidelidade (2016)


O SAPO E A PRINCESA

O sapinho Croac-Croac
Aparece na janela
Toda noite a mesma coisa
Faz serenata pra ela

Malabares, se contorce
Na esperança de um beijo
Ela nada, vira e dorme
Fica adiando o desejo

O sapinho Croac-Croac
Sofre, finge realeza
Nem sabe que ela é sapa
Disfarçada de princesa.



Loui Jover - The finest hour (2015)
Loui Jover, A melhor hora (2015)


O PATINHO FEIO

No primeiro quá-quá
Que disse
Já havia sido interrompido:
— É quém-quém, é quém-quem!

E foi informado que seu ovo
Nasceu quadrado
Quebrou do lado errado
E incomodava por ter quina

Todos os bichos do curral, da sala, do quintal
Eram-lhe muito diferentes
E tentou ser cada um deles, sem sucesso
Soluçava

Um dia sonhou com um cisne
Grannnnnnnnnnnnnnnnnnnde
Que sem nenhum soluço lhe dizia:
— Vai procurar a sua turma!



Loui Jover - I got the blues for you (2014)
Loui Jover, I got the blues for you - estudo (2014)


OS TRÊS PORQUINHOS

Decepcionados com
Um mundo onde
Ou você come
Ou é comido
Os três porquinhos
Deliberaram
Sair da pocilga

À noite
Entraram na casa
E assaram os donos:

As maçãs nas bocas.



Loui Jover - Flash (2014)
Loui Jover, Com um pássaro azul no ombro (2014)


O PESADELO

Foi um pesadelo
A forca no alto penhasco
Como um cruzeiro

O carrasco com o capuz
Pôs-me a corda e empurrou
Tudo rápido
O tempo de estalar a cervical

Depois o carrasco fez uma reverência
E tirou o capuz:
Era eu.

E o povo lá embaixo aplaudia.



poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2017



Adriane Garcia
•  in Fábulas para Adulto Perder o Sono
    Confraria do Vento, Rio de Janeiro, 2017
______________
* Carlos Drummond de Andrade, “Consideração do Poema”,
  in A Rosa do Povo (1945)
______________
* Imagens: quadros do pintor australiano nascido na Iugoslávia
  Loui Jover (1967-)