Número 394 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 7 de março de 2018

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«Vamos, todos, brincar de cacto / na areia da nossa tristeza.» (Cassiano Ricardo)

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Ana Santos
Ana Santos



Amigas e amigos,

O boletim desta quinzena traz, depois de largo tempo, uma poeta estreante. Independentemente de qualquer outra consideração, os novos poetas precisam ser saudados com vivas, hurras e boas-vindas. Afinal, em vez de “perder tempo com poesia”, há tantas atividades mais vantajosas e coerentes com as ideias dominantes...

Portanto, bem-vinda seja a jovem poeta gaúcha Ana Santos (Porto Alegre, 1984) e bem-vindo seu livro de estreia, Móbile, lançado em 2017 pela Patuá. Que seja o primeiro de uma longa série.

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A poesia de Ana Santos é como esses discretos ventos benfazejos, que chegam sem alarde e sem aviso. Apenas chegam e instalam uma sensação de sutil bem-estar. No livro dela não há poemas em voz alta, ninguém sofre de forma desabrida, não há prazeres celestes nem sofrimentos do inferno. Há, sim: sorrisos tímidos, dores pequeninas e principalmente momentos de poesia pura e singela.

Do livro Móbile selecionei oito poemas para este boletim. O primeiro deles é “Macieira”. Leve e breve, descreve uma transmutação vegetal ou uma “incorporação” de árvore frutífera. Com pouquíssimas palavras, a poeta convence o leitor da realidade desse inusitado fenômeno. A mulher do texto amanhece com os cabelos cheios de maçãs.

No texto “Medo”, a pessoa que fala assume uma sensibilidade extrema e revela séria preocupação com "a tesoura / que corta o fio da vida". Sutileza é talvez a palavra-chave de poemas como este. Que o leitor não espere frases de efeito ou flores de retórica. É tudo simples e discreto e, mesmo em voz baixa, dá o recado.

No próximo poema, “Os Cardumes”, Ana Santos trata do cotidiano das pessoas que passam boa parte da vida nos escritórios. “Secamos / em repartições”, diz ela. E conclui que falta água nos tórridos aquários da burocracia. “Todo um cardume / morre nas gavetas”. O que seriam esses peixes sufocados? Talvez os sonhos de toda aquela gente que navega em seco dia após dia nesse ambiente de gavetas estéreis.

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Ao ler o poema “Alvissareira”, lembrei-me de um velho clássico do cancioneiro norte-americano, “I’m gonna sit right down and write myself a letter”. Nessa canção, a desconsolada pessoa que fala decide escrever uma carta a si mesma fingindo tê-la recebido de alguém distante. O sentimento expresso no poema é similar. Nele, o eu poético confessa ter “fome de boas novas” e quer receber postais de lugares distantes. Por falta disso, lança aviões de papel de cima dos telhados. Um poema que dilui num copo de mágoa algumas gotas de fina ironia.

“Verde-relva” é um poema bonito. Pura tristeza. Pura constatação desses embustes que a vida e a morte nos aplicam: “Quando compraste essa blusa / verde-relva / (...) / como poderias supor / que ela seria teu traje último?”

Em “Poda”, três versos curtos exprimem mais uma intrigante contradição. Às vezes é necessário amputar o paciente para garantir-lhe vida mais forte e saudável.

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No último poema, “Tavessia”, um momento de delicadeza lírica. Dois casais, um de jovens (que observam) e o outro de velhinhos (que são observados), encontram-se em lados opostos da rua. Cria-se toda uma onda de simpatia e cumplicidade. Passado e futuro miram-se no espelho.

Neste poema observo um dos procedimentos poéticos desenvolvidos por Ana Santos, também encontráveis em outros textos. A poeta não se estende em expressar os sentimentos envolvidos na cena. Ela apenas fixa a fotografia. Os espectadores, depois, vão usar sua própria sensibilidade para sintonizar os sentimentos e outros detalhes.

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Nascida em Porto Alegre, onde mora e trabalha como revisora de textos, Ana Santos é graduada em jornalismo pela UFRGS. Também nessa entidade atualmente finaliza o mestrado em Estudos Literários Aplicados. É autora do livro de contos e prosa poética O que faltava ao peixe (Libretos, 2011), contemplado com a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Artística. Móbile (Patuá, 2017) é seu primeiro livro de poesia.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Os cabelos cheios de maçãs

• Ana Santos


              



Andrey Remnev - Apples of the Hesperides
Andrey Remnev, pintor russo, Maçãs das Hespérides


MACIEIRA

Amanheci arbórea,
raízes longas,
um ninho
novo
em cada braço.

(Janela aberta.
Um farfalhar de ramos.)

Eu agito
meu cabelo:
o quarto se enche de maçãs.



Andrey Remnev - Avers-revers - 2010
Andrey Remnev, Avers - Revers (2010)


MEDO

É mínima a tesoura
que corta o fio da vida.
Por isso meus olhos
abertos no escuro.
Visito os quartos
dos que amo
para ver se respiram.

O sol surpreende as faces
mudando
nos espelhos.

Eu ando como quem leva
flores ou um bolo:
medo
de pés que pisem
cerejas, pétalas,
de pedra que desfaça
meu retrato nas vitrines:
“Mulher tremendo na tarde”.



Andrey Remnev - Chiromancy - 2010
Andrey Remnev, Quiromancia (2010)


OS CARDUMES

Das oito às cinco,
quantos rios
não me conhecem?

Secamos
em repartições.

Há tanta sede
nos edifícios,
coisas aladas, úmidas,
lá fora.

Só falta água
a este aquário.
Todo um cardume
morre nas gavetas.



Andrey Remnev - Red-haired
Andrey Remnev, Ruiva (2004)


ALVISSAREIRA

Tenho fome de boas-novas,
cartas com letra floreada,
postais, quem sabe,
de faróis
no Mar Vermelho.

Mas raro batem
à minha porta.
Por isso invento
meus milagres
(e então os lanço
dos telhados
em aviões de papel).



Andrey Remnev - Swan lake 2008
Andrey Remnev, O lago dos cisnes (2008)


MIRAGEM

Às vezes, na rua, avisto meus mortos:
eles passeiam, furtivos,
atrapalham os carros,
afagam os cães,
sujam por gosto
os sapatos nas poças.
Um chega a subir em árvore.
Grito dois, três nomes
aos quatro ventos
(a voz bamba de esperança):
nem sequer há eco.



Andrey Remnev - Sense of touch - 2009
Andrey Remnev, Sensação de toque (2009)


VERDE-RELVA

Quando compraste essa blusa
verde-relva
com que elegantemente
te vestiram,
como poderias supor
que ela seria teu traje último?

Em manhãs como esta,
deste à luz gente que sofre.
Tua filha afaga teu cabelo.
Tua carne fere a nossa
para sempre.
Onde canta tua voz?

O cetim branco, a flor de plástico,
tudo conspira
pra que estejas morta.
Restamos
na odiosa subtração.

Vivemos.
Alguém ri.
Pedimos biscoitos, pastilhas,
um gole de café,
quase consolados.

Mas te fecham na gaveta,
a sem nome.
No sonho eras feliz ao sol,
o que significa
absolutamente nada.

Agora és verde-relva, vegetal.
Não sei qual será minha cor.



Andrey Remnev - Migration - 2009 - detail
Andrey Remnev, Migração (detalhe, 2009)


PODA

É com pesar
que corto os braços da avenca
para fazê-la mais forte.



Andrey Remnev - Chorus - Habitat -2013
Andrey Remnev, Habitat (2013)


TRAVESSIA

Ao ver os velhinhos
de mãos dadas
do outro lado da rua,
nós, também
de mãos dadas,
sorrimos, cúmplices.

Faz de conta
que atravessamos.



poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



Ana Santos
•  in Móbile
    Patuá, São Paulo, 2017
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* Cassiano Ricardo, "O Cacto", in João Torto e a Fábula (1954)
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* Imagens: obras de Andrey Remnev (1942-), pintor russo
  contemporâneo de estilo classificado como realismo mágico
  com traços medievais