Número 397 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 18 de abril de 2018

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«Calo-me, espero, decifro. / As coisas talvez melhorem. / São tão fortes as coisas! // Mas eu não sou as coisas e me revolto.» (Drummond) *

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Edimilson de Almeida Pereira
Edimilson de Almeida Pereira



Amigas e amigos,

Nesta edição, nosso bate-papo quinzenal sobre poesia põe em primeiro plano o poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira (Juiz de Fora, 1963). Poeta, antropólogo e professor de literatura, ele já esteve aqui no poesia.net número 114, que circulou em abril de 2005 — lá se vão nada menos que treze anos.

Escritor prolífico e multifacético, Edimilson de Almeida Pereira já publicou dezenas de livros nas áreas de antropologia, poesia e análise literária com eixo na produção afro-brasileira. Incansável, ele também tem uma série de livros dedicados a leitores infantis.

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Especificamente em poesia, a obra de Edimilson já acumula por volta de duas dezenas e meia de títulos. Somente em 2017 ele lançou dois novos livros: E (Editora Patuá) e Qvasi - Segundo Caderno (Editora 34). Lançou também a segunda edição de Caderno de Retorno, que saiu pela Ogum's Toques Editora, de Salvador-BA. A primeira edição desse último título fazia parte de As Coisas Arcas - Obra Poética 4, o último volume da reunião da obra poética do autor feita em 2002/2003.

Esta edição do poesia.net baseia-se em poemas contidos nos dois livros inéditos de Edimilson publicados em 2017. Antes de passarmos à leitura dos textos, vale a pena fazer uma tentativa de situar esses livros no conjunto da obra do escritor juiz-forano.

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Embora em sua trajetória Edimilson de Almeida Pereira venha experimentando múltiplas faces do dizer poético, um eixo bem marcado se mantém firme em toda a sua trajetória. Tanto nos poemas em que ele — cidadão, antropólogo e poeta — se põe a enxergar o mundo como nos outros em que cede a voz aos personagens populares mais variados, arma-se o mesmo vetor estruturante que aponta, em ética e estética, para um sentido e um sentimento de justiça e redenção do ser humano, especialmente os pobres da terra.

Passemos à leitura. Para este boletim escolhi cinco poemas de E e um poema de Qvasi - Segundo Caderno. A propósito, vale explicar o porquê desse “Segundo Caderno”. Na obra reunida até 2002/2003, havia no volume 4 (As Coisas Arcas) um livro chamado “Caderno Qvase”, com e final. Portanto, esse Qvasi de 2017 seria uma espécie de continuação daquele.

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O poema “Rondó” constitui uma proclamação de vida em meio ao sofrimento cotidiano do corpo e da alma. Em meio a “tanta razia”, lâminas e palavras que ferem, a dor se transforma em “casulo”: o envoltório que vai gerar mais vida e mais esperança — ao contrário do que se poderia esperar.

Aliás, o poema seguinte, “Oráculo”, representa mais uma confirmação do que está dito no texto anterior: “Esse o roteiro, // a promessa. / Colocar-se vivo // onde nos imaginam / a ferros”. Viver e resistir, verbos que estão incrustados no dia a dia dos que na prática são menos iguais.

No próximo poema, “Oriki. Camões”, o poeta lança mão de uma forma poética da tradição afro. Originariamente em língua iorubá, os orikis são composições que no candomblé exaltam um orixá. Aqui, o poema saúda o imenso Luís Vaz de Camões, poeta maior da língua portuguesa. É curioso notar como a linguagem se ajusta ao contexto afro e à louvação ao bardo lusíada. Afinal, ele deve ser o “senhor das quatorze flechas” (do soneto?) e também o “senhor dos dez cantos” (d’Os Lusíadas?).

O poema “Estranha Fruta” faz referência direta à canção norte-americana “Strange Fruit”, composta por Abel Meeropol e interpretada magistralmente pela diva Billie Holiday. A letra evoca os linchamentos de negros ocorridos no sul dos Estados Unidos, e os frutos estranhos são exatamente os corpos pendurados nas árvores. Escreve Edimilson: “A fruta estranha queda / alheia às estações — medra / entre a gente de bem. / — Quem a cultiva? Quem?”

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O poema seguinte, “A mãe de Benjamin Moloise”, traz à tona outra memória trágica. O ambiente, agora, é a África do Sul do apartheid. Benjamin Moloise (1955-1985) era um operário negro, poeta e militante do clandestino Congresso Nacional Africano, o partido de Nelson Mandela. Foi injustamente condenado à morte pelo assassinato de um policial em 1982. Apesar dos pedidos de clemência vindos de todas as partes do mundo, Moloise terminou enforcado em 1985. No dia da execução, ele reafirmou à mãe, Pauline Moloise, sua inocência.

Curiosamente, no poema, Edimilson lança mão de outras referências não situadas na África do Sul, porém plantadas em contexto idêntico de violência e injustiça. Veja-se, por exemplo, o trecho: “Ser trezentos e cincoenta: utopia. Não-ser depois /  de cento e onze disparos: há um desafio aos / decentes”. O número trezentos e “cincoenta” (ainda mais escrito assim) remete ao modernista Mário de Andrade numa declaração poética de força e multiplicidade. O outro número parece referir-se ao massacre dos cento e onze presos do Carandiru, em São Paulo, 1992.

Vem, por fim, o poema “Se Conde Fosse”, extraído do livro Qvasi - Segundo Caderno. O personagem, um nobre imaginário, é uma das inúmeras figuras do interior mineiro retratadas por Edimilson de Almeida Pereira em sua poesia. O que encanta o poeta nesse “senhor de pouca monta” é sua altivez e a independência de quem não se vende nem dobra a cerviz — traços aparentemente incompatíveis com quem “não mora, se refugia sob as pontes”.

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Após reler o texto acima, observei um detalhe. Minha seleção de poemas privilegiou temas e personagens trágicos. Corro o risco, portanto, de sugerir que a poesia de Edimilson de Almeida Pereira é algo essencialmente sombrio. Não é verdade. Talvez eu esteja marcado pelo clima que estamos vivendo há dois anos. Para dissipar essa injusta sugestão, recomendo uma visita ao primeiro boletim dedicado ao trabalho poético de Edimilson.

Além disso, peço licença a vocês para repetir aqui o fecho daquele boletim: “É uma poesia em que pulsa a vida das ruas, nas cidades grandes ou em comunidades do interior. A vida profunda, de gente que ri e chora, dança e tem medo. Vida que não se aprende nos livros".


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Casulo de esperança

• Edimilson de Almeida Pereira


              



Bela de Kristo - Le gitan-1967
Bela de Kristo, pintor húngaro, O cigano (1967)


RONDÓ

Quem é morto
toda manhã,
em definitivo,
não morre: é tanta

razia no corpo,
— lâmina
verbo —
e não morre, irmã,

nem o futuro e o
sonho.
Quem é morto
toda manhã

faz de si um casulo.
A vida é tanta
lá dentro
que plange, irmã.





Bela de Kristo - La belle et le marin
Bela de Kristo, A bela e o marujo


ORÁCULO

O que é
do meu entendimento

se enerva, pulsa,
rompe

a saliva.
Fora de si se atreve:

expulsá-lo
é colocá-lo dentro

da vida.
Esse o roteiro,

a promessa.
Colocar-se vivo

onde nos imaginam
a ferros.





Bela de Kristo - Florence lendo-1965
Bela de Kristo, Florence lendo (1965)


ORIKI. CAMÕES

Senhor das quatorze
flechas — perde
um olho, não
a guerra.

Senhor dos dez
cantos — ganha a pena
do destino.
Seu ânimo.

Eis o
que leva
a ira ao dicionário.

Sujeito
veraz
de sua língua.





Bela de Kristo - Les musiciens
Bela de Kristo, Os músicos


ESTRANHA FRUTA

Ao sul do sul, a amarga colheita
ocupa as mãos direitas.
Não se cansam de erguer-se
para cumprir sua messe.

A fruta estranha queda
alheia às estações — medra
entre a gente de bem.
— Quem a cultiva? Quem?

Ao sul do sul, a amarga colheita
ainda gera receita.
Mas, de tanto exaurir o fruto
as mãos queimam-se junto.





Bela de Kristo - Pierrot.et.columbine-1958
Bela de Kristo, Pierrô e Colombina (1958)


A MÃE DE BENJAMIN MOLOISE

No azul dessa tarde a consciência de estarmos
 vivos, embora o gesto conciliador ainda não
 se erga.

A cabeça separada não deveria ser esta, nem as
 vísceras, nem o corpo adiado.

Nessa tarde — as gerações que em mim e em ti
 reclamam: há números para tirar o sono ao
 inimigo.

 E cálculos que se transformaram em exílio.

Sob o céu dessa tarde — a fossa, a peregrinação,
 a consciência de estarmos vivos. E para
 sempre mortos.

*

Ser trezentos e cincoenta: utopia. Não-ser depois
 de cento e onze disparos: há um desafio aos
 decentes

— como explicar a preferência da morte por esse
 mesmo corpo?

 ou o preparo dessa ordem para ferir o ponto
 humano da noite?

Ser trezentos — um segundo antes da afronta. Sei
 um
 quando os farejadores rosnam sobre a própria
 bílis.

*

No escuro dessa manhã a urgência de pedir ao
 músico “não toque por alegria o que vem de
 nossa dor”.

Não dorme em paz a alma de Benjamin — não
 dorme.

O som de cento e onze disparos tensiona a corda
 em nosso pescoço, mas não faz o mesmo
 com tua alegria

 à porta de um solar que festeja o capital.

Meu filho não pode adormecer, nenhum de nós
 poderá — enquanto o sino for esse corpo ao
 vento.





Bela de Kristo - La serveuse
Bela de Kristo, A garçonete


SE CONDE FOSSE

Não tiraria dos ombros
a miséria que o assiste.

Estando assim, bem
vestido, não se despe.

Não troca por cetim
a rude mostra de roupa.

Peça por peça fez-se
senhor de pouca

monta. Não mora,
se refugia sob as pontes.

Não paga a tiranos
a sua sorte.

Se conde fosse,
com a cerviz dobrada,

morreria.
Muito teria e nada

que merecesse nota.
Da miséria que o assiste

extrai, sem vender-se,
o que lhe basta.





poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



Edimilson de Almeida Pereira
• Todos os poemas, exceto o último acima
   in E
   Editora Patuá, São Paulo, 2017
• “Se Conde Fosse”
   in Qvasi
   Editora 34, São Paulo, 2017
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* Carlos Drummond de Andrade, “Nosso Tempo” in A Rosa do Povo (1945)
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* Imagens: obras de Bela de Kristo (1920-2006), pintor húngaro