Número 398 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 2 de maio de 2018

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«As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.» (António Ramos Rosa) *

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Marcelo Sandmann
Marcelo Sandmann



Amigas e amigos,

Neste boletim n. 398, o poeta em destaque é o curitibano Marcelo Sandmann (1963-). Poeta, autor de canções e professor de literatura na UFPR, Sandmann publicou os livros de poesia Lírico Renitente (7Letras, 2000; 2a. ed. 2012), Criptógrafo Amador (Medusa, 2006), Na Franja dos Dias (7Letras, 2012), Sangue na Guelra (7Letras, 2016) e Antologia Poética 1987-2017 (Kotter e Ateliê Editorial, 2017).

Embora eu já conhecesse Marcelo Sandmann de nome e por alguns poemas esparsos na internet (cheguei a publicar dois de seus textos em cartões no Facebook), a Antologia Poética é o primeiro livro dele com que travei contato. Aliás, conheci pessoalmente o poeta exatamente num dos lançamentos dessa coletânea, neste ano.

Portanto, todos os poemas da seleção ao lado foram extraídos da Antologia, que oferece um apanhado da produção poética do autor em três décadas.

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Uma característica que salta aos olhos na poesia de Marcelo Sandmann é o humor, caracterizado por altas doses de ironia voltadas para as relações pessoais e mesmo apontadas para o próprio autor. Humor com reconhecíveis toques drummondianos.

Esse traço da poesia de Sandmann aparece logo em “7ª Edição, Revista e Encurtada”, o primeiro poema ao lado. Nele, a pessoa que fala, um homem do tipo machão clássico, lamenta uma desilusão amorosa e percebe que não é lá tão poderoso (“o superbambambã”) que julgava ser.

O segundo poema, “Mora na Filosofia?”, baseia-se no conhecido samba do cantor e compositor carioca Monsueto Menezes (1924-1973). Mas o poema trafega em sentido contrário ao da música. Enquanto o sambista pergunta, com desdém, “Pra que rimar amor e dor?”, o poeta declara a conveniência e a validade dessa rima: “Convém rimar /amor e dor, / pois dor e amor / dão belo par”. O resultado é um sonetilho vazado em versos de quatro sílabas nos quais o autor reconhece a cadência de Vinicius de Moraes.

Vem a seguir o texto “Marinhas (1)”. Trata-se de um exercício de pintura executado com a paleta da poesia. Em poucas frases, essa tela de palavras sugere cores, sons e movimentos de uma paisagem marinha. No trecho “A espádua áspera da pedra”, o leitor atento “vê” e “ouve” a onda chicoteando a pedra. No alto, o sol, com seu pálio de luz cor de mel. Os sons de “flautas aflitas” fazem supor a presença das aves, ainda não declaradas. Chegam, por fim, as gaivotas, que devoram a tarde e provocam mais outra sugestão sinestésica. A “mastigação” das aves ensanguenta as nuvens (do poente), deixando-as em carne viva. Brilhante. Coisa de “lírico renitente”.

O mesmo clima lírico se encontra em “Prestigitações”. Aqui, o poeta lança mão do ilusionismo dos mágicos para fazer saltar de entre os próprios dedos, antes vazios, um pássaro em chamas. Pode-se ler este texto como mais um metapoema. Afinal, a criação poética não é outra coisa senão esse toque de mágica. Onde antes não havia nada aparece um objeto flamejante, feito de ideias e palavras.

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O próximo poema é “Aurea mediocritas”, ou áurea mediania, expressão usada pelo poeta romano Horácio (65 a.C.-8 a.C.). No texto, o autor procura “um ponto médio” para garantir que o resultado da escrita seja, ao mesmo tempo, prazeroso para o autor e para o leitor.

Em meu ponto de vista pessoal, esse equilíbrio áureo proposto pelo poema é de fato algo importante a ser buscado por quem escreve. Talvez os vanguardistas radicais (ainda os há?) não gostem disso.

Vale frisar que, em latim, a palavra mediocritas (literalmente: “mediocridade”) não tem o valor pejorativo que adquiriu em português e em outras línguas neolatinas. É apenas a condição mediana. Em certo sentido, a áurea mediania de Horácio também está em outra frase que aconselha fugir dos extremos: “A virtude está no meio” (In medio virtus).

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No poema “Poesia Versus Prosa”, o autor, sempre com humor, apresenta uma concepção do que seria um bom poema, tomando a prosa como eixo de não-referência. O paralelo entre poema e tiro de misericórdia é bastante violento, mas liquida o assunto: “É pá-buf!”

O último texto da miniantologia, “Menos que Menos”, retorna ao tema da extensão do texto. Aí o poeta propõe-se a dizer “o mínimo, o ínfimo”. Se o texto for desse modo e ainda permitir o prazer de quem o lê, como proposto em “Aurea mediocritas”, assim seja.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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LANÇAMENTOS

Um novo romance chega ao mercado esta semana, em São Paulo.

Poesia Chinesa
• André Caramuru Aubert

O poeta e romancista André Caramuru Aubert lança seu novo romance, Poesia Chinesa.


Quando:
Quinta-feira, 03/04/2018 às 19h

Onde:
Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915 - Pinheiros
São Paulo, SP


Tiro de misericórdia

• Marcelo Sandmann


              



Roman Zakrzewski - 2014/01
Roman Zakrzewski, pintor polonês, 2014/1


7ª EDIÇÃO, REVISTA E ENCURTADA

Ai, diaba!
Ai, bandida!

E eu que me gabava
de ser assim “o cara”,

o rei da cocada preta,
o superbambambã,

nunca pensei
que o nosso amor

(que a minha vida!)

fosse terminar
feito conto

de Dalton Trevisan.





Roman Zakrzewski - 1999/04
Roman Zakrzewski, 1999/4


MORA NA FILOSOFIA?
(SONETILHO # 1) (Take 2)

    sobre samba de Monsueto
    na cadência de Vinicius


Convém rimar
amor e dor,
pois dor e amor
dão belo par.

Mas quem for dar,
ao seu amor,
apenas dor,
não deve amar.

O que se quer,
melhor saber
e decidir.

E então viver
com quem se quer
sem mais fingir.





Roman Zakrzewski - 1998/06
Roman Zakrzewski, 1998/6


MARINHAS (1)

O mar, sua língua de sal.
A espádua áspera da pedra.

O sol e seu dossel: mel
turvo, flautas aflitas.

Gaivotas mastigam a tarde.
Nuvens em carne viva.





Roman Zakrzewski - 1998/08
Roman Zakrzewski, 1998/8


PRESTIDIGITAÇÕES

1.

Nada nesta mão,
nada nesta outra.

Agora o gesto rápido
(movimento insidioso do braço).

E extraio, entre os dedos,
do espaço abstrato,

o pássaro, que se desata,
ascende e se desbarata:

magnífica elisão
de todo este cenário.


2.

EI-LO: O PÁSSARO EM CHAMAS





Roman Zakrzewski - 20114/09
Roman Zakrzewski, 2011/9


AUREA MEDIOCRITAS

1.

Um pouco mais
que simples brinquedo.

Um pouco menos
que alucinação.

Quem sabe apenas
singelo segredo.

Talvez um

    f ó s f o r o

na escuridão.


2.

Deve haver um ponto médio,

onde o prazer
de quem escreve

não custe a dor de quem o lê.

(Mas se for dor
o que ele escreve,

que nessa dor haja prazer.)



POESIA VERSUS PROSA

    para Cristóvão Tezza

Um bom poema é feito
tiro de misericórdia.

O poeta não tortura seu leitor
como faz o prosador,
linhas
e dias a fio.

É pá-buf!

O corpo caído:
o pingo na testa.





Roman Zakrzewski - 2012/04
Roman Zakrzewski, 2012/4


MENOS QUE MENOS

Menos.

Eu quero menos.

(Menos que menos.)

Das reticências,
um ponto
apenas.

Somente o mínimo, o ínfimo.

Talvez nem mesmo,
por exagero,
o pingo no

i.



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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Marcelo Sandmann
   in Antologia Poética 1987-2017
   Kotter/Ateliê Editorial, Curitiba/São Paulo, 2017
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* António Ramos Rosa, in Animal Olhar (2005)
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* Imagens: obras de Roman Zakrzewski (1955-), pintor polonês