Número 401 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 20 de junho de 2018

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«Flor é a palavra / flor, verso inscrito / no verso, como as / manhãs no tempo.» (João Cabral de Melo Neto) *

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Antonio Carlos Secchin
Antonio Carlos Secchin



Amigas e amigos,

Não há dúvida de que todo poeta, de alguma forma, é também um crítico, tácito ou explícito, de poesia. Afinal, ao escrever, ele faz escolhas — e desde aí, em certa medida, já está cumprindo o papel de crítico. Mas o caso do poeta, crítico, ensaísta, professor e acadêmico Antonio Carlos Secchin (Rio de Janeiro, 1952) é diferente.

Crítico brilhante, Secchin conquistou largo respeito com o livro João Cabral: A Poesia do Menos (1985), que acumulou prêmios e tornou-se leitura obrigatória para quem deseje estudar a sério a poesia cabralina. A Poesia do Menos foi, depois, em 2014, revista e ampliada com novos ensaios sobre a obra do poeta pernambucano, sob o título João Cabral: Uma Faca Só Lâmina.

Para o ensaísta, no entanto, melhor que os prêmios foi a declaração do próprio João Cabral de Melo Neto, dada numa entrevista em 1991: “Entre todos os professores, pesquisadores e críticos que já se debruçaram sobre minha obra, destaco Antonio Carlos Secchin. Foi quem melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta”.

À parte os estudos sobre João Cabral, Secchin publicou uma bom punhado de livros de ensaios. Em seu trabalho mais recente nessa área, Memórias de um Leitor de Poesia (2010), ele reúne ensaios sobre prosadores e poetas brasileiros, desde Tomás Antônio Gonzaga até Chico Buarque, passando por Machado de Assis, José de Alencar, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes.

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E o Secchin poeta? Este já esteve aqui no boletim n. 89, de 2004, após o lançamento de Todos os Ventos, reunião de poemas de toda a sua trajetória até então, varrendo o período de 1973 a 2002. Antonio Carlos Secchin retorna ao poesia.net em razão do livro Desdizer e Antes (2017), nova reunião poética, agora incluindo poemas de safra mais atual, escritos entre 2003 e 2017.

De Desdizer extraí quatro novos poemas, que vão transcritos ao lado. O primeiro deles, "Na Antessala", é também o que abre o volume. Nos quatro quartetos desse poema, Secchin tece uma rede de autoironia. Avisa ao leitor que, no livro, não vai encontrar nada ao nível de Pessoa, Drummond ou Cecília Meireles. “O máximo, que mal consigo, / é chegar a Antonio Secchin”, conclui o poeta, em aberta zombaria.

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Os novos textos de Secchin não escondem o tom hilariante. Em “Poema Promíscuo”, o poeta organiza uma paródia da letra de “Disseram Que Eu Voltei Americanizada”, canção de Vicente Paiva gravada originalmente por Carmen Miranda. Mas aqui o contexto é o da poesia. Como em Desdizer boa parte dos versos tem métrica e rima, o texto começa com o aviso: “Disseram que voltei muito mecanizado, / com ritmo correto, muita rima rica, / que não tolero nada que não seja aquilo / que seja exatamente o que Bilac dita”.

A “promiscuidade” do poema é explícita. “Nada que não seja aquilo que seja.” E segue, alegremente, até concluir, com mais galhofa, que enquanto muitos insistem nos vetos estéticos, o que se acha impossível acontece de modo trivial: “passa um poema concreto ao lado de um soneto”. Como cantava Carmen Miranda: “Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?”.

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No “Soneto da Boa Vizinhança”, o tom é semelhante. Aqui, parece uma conversa cotidiana entre cariocas moradores de um mesmo prédio. O papo envolve chacotas machistas, falar mal dos vizinhos, futebol, violência nas ruas. Tudo, como no Brasil atual, aparentemente sem pé nem cabeça. Aliás, este poema, assim como o anterior, encontra-se numa parte de Desdizer chamada “Dez sonetos desconcertados”.

Vem, por último, outro exemplar do desconcerto, o “Quase Soneto Aposentado”. Trata-se de um poema daqueles em que o autor comenta o que está fazendo enquanto constrói o texto. Mais uma vez, o clima é de sarcasmo. O poeta relata que, já faz 30 anos, tenta escrever uma obra-prima, que é este soneto. Contudo, apesar do “tempo de depuração”, algo não dá certo nesta obra magistral.

O que acontece? O próprio soneto, já cansado (30 anos de tentativas!), não quer mais seguir em frente, e pede aposentadoria. Aproveitando a falta de uma rima para “lâmpada”, o poema se apaga e deixa o soneto no “quase”, com apenas treze versos. Confesso que ri sozinho ao considerar as peripécias desse texto.

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Num artigo incluído em Desdizer à guisa de posfácio, Antonio Carlos Secchin diz ter escrito, num poema antigo, a expressão “operário do precário” e que a recupera agora como uma definição do ofício do poeta: “um operário da linguagem, um experimentador de formas, cuja eficácia é posta à prova a cada verso ou estrofe que acaba de erguer”. Como se vê, é — mais uma vez — o crítico de mãos dadas com o poeta.

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Antonio Carlos Secchin (Rio de Janeiro, 1952) é poeta, ensaísta e crítico literário. Doutor em letras, é professor titular da UFRJ desde 1993. Em 2004 tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Operário do precário

• Antonio Carlos Secchin


              



Moise Kisling - La femme au pullover rouge-1917
Moïse Kisling, pintor polonês, Mulher com pulôver vermelho (1917)


NA ANTESSALA

Espalhei dezoito heterônimos
em ruas do Rio e Lisboa.
Todos eles, se reunidos,
não valem um só de Pessoa.

Trancafiei-me num mosteiro,
esperando de Deus um dom.
O que Ele me deu foi pastiche
da poesia de Drummond.

Ressoa na minha gaveta
um comício de versos reles.
Em coro parecem dizer:
Não somos Cecília Meireles.

O desavisado leitor
não espere muito de mim.
O máximo, que mal consigo,
é chegar a Antonio Secchin.



Moise Kisling - Frere and soeur
Moïse Kisling, Irmão e irmã


POEMA PROMÍSCUO

Disseram que voltei muito mecanizado,
com ritmo correto, muita rima rica,
que não tolero nada que não seja aquilo
que seja exatamente o que o Bilac dita.

Disseram que com a forma estou bem preocupado,
e corre por aí, com a maior certeza,
que muito pouco vale tanta velharia
de alguém que ainda pensa em produzir beleza.

Não sei o que o futuro guarda de armadilha,
porém não vou ficar parado e prisioneiro
de quem, pajé pujante em sua antiga taba,
dali pretende governar o mundo inteiro.

Pra cima da poesia não vale esse veneno,
que já destila seu sabor de cianureto.
Enquanto a tribo grita “Por aí não passa”,
passa um poema concreto ao lado de um soneto.



Moise Kisling - Young breton-1931
Moïse Kisling, Jovem bretão (1931)


SONETO DA BOA VIZINHANÇA II

Se quiser, vai lá em casa pra assistir o jogo.
A Claudete eu não pego de jeito nenhum.
Esse rapaz, não boto minha mão no fogo.
A coisa rola solta lá no 101.
Perdi dois quilos com a dieta do elefante.
Ah, se o Mengão ganhar, aí é que eu me acabo.
O flagra aconteceu na esquina da Constante.
Farofa? Sim, mas não dispenso orelha e rabo.
Tacaram pedra na Brasília da Janete,
me disseram que foi vingança do Batista.
Sabia que a Suely vendeu a quitinete
e a Marinês fugiu com a filha do dentista?
Eu não invejo o morador da cobertura,
o sol da tarde deve ser uma tortura.



Moise Kisling - Dutch woman -1930
Moïse Kisling, Mulher holandesa (1930)


QUASE SONETO APOSENTADO

Há trinta anos eu intento em vão
compor o que será uma obra-prima.
Exausta do exercício, minha mão
não avança e tampouco sai de cima.

Sentindo-se de todo mal formado
nos alquebrados pés por onde ia,
meu poema, num gesto desvairado,
solicitou aposentadoria.

Cambaleante nesta ladainha,
não quer chegar à derradeira linha.
Corpo trôpego, nada mais o anima.

Aproveita que um verso acaba em “lâmpada”
e se apaga, na falta de uma rima.




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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Antonio Carlos Secchin
   in Desdizer
   Topbooks, Rio de Janeiro, 2017
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* João Cabral de Melo Neto, “Psicologia da Composição”, in Psicologia da
  Composição
(1947)
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* Imagens: obras de Moïse Kisling (1891-1953), pintor polonês naturalizado
  francês