poesia.net 403 - Libério Neves

Número 403 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 18 de julho de 2018

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«O relógio de parede numa velha fotografia — está parado?» (Mario Quintana) *

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Libério Neves
Libério Neves



Amigas e amigos,

O poeta Antonio Libério Neves (1934-) nasceu em Buriti Alegre-GO, mas estudou no Triângulo Mineiro e fixou-se em Belo Horizonte desde 1952. Lá, formou-se em direito pela UFMG em 1960. Assim, para todos os efeitos, passou a ser mineiro — ou “goianeiro”, como o classificou o poeta Bueno de Rivera.

Nos anos 60, influenciado pela poesia concreta, ajudou a fundar a revista Vereda, em parceria com outros jovens poetas, e também trabalhou na redação do “Suplemento Literário” do Minas Gerais. Nessa época, conheceu o poeta Emílio Moura.

Libério Neves publicou dezenas de livros de poesia e prosa. Em poesia, estreou com a coletânea Pedra Solidão, em 1965, aos quais se seguiram títulos como O Ermo (1969), Força de Gravidade em Terra de Vegetação Rasteira (1978), Circulação de Sangue (1983), Litanias de Cão (2003) e Santa Tereza (2011). O autor publicou também 19 livros de literatura juvenil.

Os poemas transcritos na miniantologia ao lado foram todos extraídos do volume Papel Passado: Antologia Poética (2013), publicado pela Editora UFMG. Contudo, ao pé de cada poema está indicado seu livro de origem.

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Comecemos com “Papel Passado”, poema inédito até o lançamento dessa antologia, à qual fornece o título. Preocupado com a idade senil, o poeta dirige-se às pessoas de quem porventura venha a depender para “lavar meus panos de matéria” e “limpar os meus resíduos deste mundo”. Agradecido, o poeta beija por antecipação as mãos dessas criaturas. Um gesto, conforme diz, de “humilhação final do corpo, essencial talvez à filtração da alma”.

Vem a seguir “Impactos”, texto que também aparece pela primeira vez na antologia Papel Passado. Nesse poema, traça-se a trajetória de todo ser humano, com amores, convivências e súplicas. Crescemos, vamos, vemos. E “súbito, nós fomos”.

O poema “Pássaro em vertical”, publicado em 1965 no livro de estreia de Libério Neves, é talvez sua criação mais conhecida e citada. Descreve a execução de uma ave canora com um tiro. Com sua visualidade, põe em prática a influência da poesia concreta. Libério Neves é considerado o primeiro poeta de Minas Gerais a aderir às propostas estéticas dos irmãos Campos e Décio Pignatari.

•o•

Outro texto sobre pássaros: “Arara I”. Com uma dicção sucinta e colorida, esse poema  foi colhido no livro Voa, Palavra, um dos títulos do poeta voltados especialmente para leitores jovens. “Arara / ararA // indo ou voltando // cores em coral / no céu voando”. O leitor “vê” o bando de aves em algazarra.

O poema “Grafita”, publicado originalmente no livro Mineragem, também se destina ao leitor juvenil. Trata-se de um diálogo entre a mão e o lápis, ou entre o pensamento (a consciência de quem escreve) e o que foi escrito, sem deixar de pôr em conta os riscos de ofensa que a palavra traz.

O último poema da seleção é “Isopor”, outro texto juvenil. Aqui, o poeta parte das utilidades práticas desse material sintético e sugere: por que não usá-lo para conservar o amor?


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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De papel passado

• Libério Neves


              



Kazimir Malevich - Girl with a red staff - 1932-33
Kazimir Malevich, pintor russo, Moça com bastão vermelho (1932-33)


PAPEL PASSADO

Se, por acidente, moléstia ou velhice, algum dia eu
vier a ver-me (resto) imóvel no lençol, a depender, por
caridade ou pelo amor, do vosso gesto difícil, esse
gesto de lavar meus panos de matéria e de limpar os
meus resíduos deste mundo, assim constantemente
no cotidiano de uma lenta espera do expirar de tudo,
isto será profundo para vós e doloroso para mim.

E certamente é certo que não terei palavras, nem
gestos, para vos agradar; é certo que os meus olhos
lá serão de piedade, olhando as vossas fisionomias
desanimadas olhando-me nos panos, e sofrereis
demais e eu bem mais desesperadamente.

Antes que isto porventura ou positivamente ocorra,
lavro a declaração presente, antecipada, de que
no quando (eu) assim restar, imovelmente mudo,
contudo ainda vivo, estarei a todo instante, em
mente, beijando as vossas mãos em mim santifi-
cadas, nessa final humilhação do corpo, essencial
talvez à filtração da alma.

    De Papel Passado (2013)





Kazimir Malevich - Peasants - 1928-30
Kazimir Malevich, Camponeses (c.1928-30)


IMPACTOS

Súbito, crescemos

nesse estremecimento
do beijo mais profundo
que nos enseja o mundo
com seus úmidos amores.

Súbito, nós vamos

na comunhão dos frutos
do nosso clã marchando
no chão que nos escuta
e oculta nossos clamores.

Súbito, nos vemos

na solidão dos gestos
que nos assopram fumos
no rosto quase em resto
desses bolores que somos.

Súbito, nós fomos.


    De Lira Madura (inédito)





Kazimir Malevich - Floor polishers - 1911-12
Kazimir Malevich, Polidores de piso (1911-12)


PÁSSARO EM VERTICAL

Cantava o pássaro e voava
     cantava para lá
voava para cá
voava o pássaro e cantava

de
   repente
        um
        tiro
          seco

    penas fofas
     leves plumas
     mole espuma

      e um risco
      surdo
       n
       o
       r
       t
       e
       -
       s
       u
       l.


    De Pedra Solidão (1965)





Kazimir Malevich - Reapers - 1929-32
Kazimir Malevich, Ceifeiras (1929-32)


ARARA I

Araras nos ares
asas no azul

araras nas claras
luzes do sol

aéreas araras
em carrossel

sombras das araras
em vertical

araras aos pares
alegres em bando

Arara
ararA

indo ou voltando

cores em coral
no céu voando.

    De Voa, Palavra (2012)





Kazimir Malevich - Flower girl- 1932-33
Kazimir Malevich, Florista (1932-33)


GRAFITA

Pura flor do carbono,
a mão humana
envolve o lápis.

Diz o lápis à mão:

Você comanda,
eu vou e relato.
Escreva dor,
assim eu acato.
Escreva amor,
então eu abono.
Você decide,
não sou o dono.

Diz a mão ao lápis:

Cometi um lapso
em minha cabeça;
apague a dor
e o mal esqueça.

    De Mineragem (2006)





Kazimir Malevich - Auto-portrait - 1908-09
Kazimir Malevich, Autorretrato (1908-09)


ISOPOR

Sólido e espuma
o isopor
preserva o frio
e o calor.

A água fria
dentro do isopor
assim fica fria
o tempo que for

(quentinha fica
a mamadeira
dentro do isopor).

O isopor
isola o tempo
em seu vazio
interior.

Pra conservar
a alegria
é só pôr o amor
num coração
de isopor.

    De Mineragem (2006)



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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Libério Neves
   in Papel Passado: Antologia Poética
   Editora UFMG, Belo Horizonte, 2013
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* Mario Quintana, "O Relógio", in Caderno H (1973)
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* Imagens: obras do pintor russo Kazimir Malevich (1878-1935)