Número 405 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 15 de agosto de 2018

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«Esta cidade: minha cela. / Habita em mim / sem que eu habite nela.» (Donizete Galvão) *

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Fabrício Marques
Fabrício Marques



Amigas e amigos,

O poeta, jornalista e professor Fabrício Marques (Manhuaçu-MG, 1965-) estreou em poesia com o livro Samplers (Relume Dumará, 2000), ao qual se seguiu A Fera Incompletude (Dobra Editorial, 2011). Recentemente, ele lançou A Máquina de Existir (Pedra Papel Tesoura, 2018), enfocado neste boletim.

Além dos livros solo, Fabrício participou das antologias Na Virada do Século: Poesia de Invenção no Brasil (orgs. Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, Landy, 2002), Poesia em Movimento (org. Jorge Sanglard, Editora da UFJF, 2002), Oiro de Minas (org. Prisca Agustoni, Ardósia, 2007) e Prévia Poesia (org. André Dick, Risco Editorial, 2010).

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A Máquina de Existir é um livro no qual o poeta se situa como parte de uma humanidade reconhecidamente problemática. É, com certeza, seu livro mais maduro e refinado. Para este boletim, selecionei meia dúzia de poemas que constituem uma amostra do trabalho mais recente de Fabrício Marques.

Comecemos com “Minha Humanidade”, um poema longo que abre o volume. Nele, o poeta, de certo modo, tenta afinar seu diapasão pessoal com o andamento da humanidade de todos os outros semelhantes. Para dar espaço a outros poemas, transcrevo aqui somente o trecho inicial do poema.

Na opinião do poeta Tarso de Melo, o poema “Minha Humanidade” é um dos destaques do livro. Para ele, o título “parece apontar algo singelo e, ao mesmo tempo, grandioso, o que confere um tom irônico ao poema”.

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Vem depois “Máquina de Existir”, o texto que batiza o livro. Com ironia, o poeta alerta quem chegou até esse poema (pág. 20), dizendo que a leitura poderá apresentar percalços: “vai doer / vai arder (...) vai ter seu dia / no deserto / no vale de ossos”. Afinal, a existência é isso: exige firmeza para seguir em frente.

No próximo texto, “Mais-Valia”, Fabrício Marques engata uma crítica social. Despreza os homens que se colocam de pé nas “geleiras indestrutíveis” e, com suas certezas, decretam que “O carro vale mais que a sinfonia / A face vale mais que a poesia”.

O poema “A Música do Acaso” começa com uma conhecida citação do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955): “Eu sou eu / e minha circunstância”. Evolui, depois, para considerar a perspectiva da morte e a incorporação, nas instâncias do eu, de todos os eus da vizinhança. Ao sair de si, a pessoa, agora multidão, inventa uma dança.

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CONVITE

Amigas e amigos: quero convidá-los para o lançamento de meu novo livro de poesia, A Mulher de Ló, que sai pela Editora Patuá. Trata-se, na verdade, de um lançamento duplo: no mesmo local e hora, e pela mesma editora, a poeta Vera Lúcia de Oliveira apresenta seu livro Minha Língua Roça o Mundo. Será no dia 30/08, quinta-feira, às 19 horas, na Livraria, Bar e Café Patuscada. Rua Luís Murat, 40 - Vila Madalena - São Paulo, SP. Vejam mais sobre os livros abaixo, na seção Lançamentos.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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LANÇAMENTOS

Um romance, um ensaio histórico e dois livros de poesia entram em circulação nos próximos dias.

Paralisia
• André Nigri

André Nigri - ParalisiaJornalista experiente na área cultural, o mineiro André Nigri lança seu primeiro romance, Paralisia — o autor prefere classificá-lo como uma novela. O livro sai pela Editora Reformatório, de São Paulo.


Quando:
Terça-feira, 21/08/2018, às 19h

Onde:
Livraria Zaccara
Rua Cardoso de Almeida, 1356
Perdizes
São Paulo, SP




A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates
• Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos - Revolta dos AlfaiatesO professor, jornalista e poeta baiano Florisvaldo Mattos lança a 2ª edição do ensaio A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, quando essa insurreição, também conhecida como Revolta dos Búzios, completa 220 anos. O livro mostra que os boletins dos revoltosos independentistas formavam o embrião do jornal impresso na Bahia de 1798. Edição do programa ALBA Cultural, da Asssembleia Legislativa da Bahia.


Quando:
Sexta-feira, 24/08/2018, às 18h

Onde:
Instituto Histórico e Geográfico da Bahia
Av. Joana Angélica, 43
Piedade
Salvador, BA




Minha Língua Roça o Mundo
• Vera Lúcia de Oliveira

Vera Lúcia de Oliveira - Minha Língua Roça o MundoPaulista radicada na Itália, a multipremiada poeta Vera Lúcia de Oliveira lança nova coletânea de poemas, Minha Língua Roça o Mundo. O volume sai pela Editora Patuá.


Quando:
Quinta-feira, 30/08/2018, às 19h

Onde:
Patuscada Livraria, Bar & Café
Rua Luís Murat, 40
Vila Madalena
São Paulo, SP




A Mulher de Ló
• Carlos Machado

Carlos Machado - A Mulher de LóCarlos Machado, editor deste boletim, lança o livro A Mulher de Ló, uma série de poemas que refletem sobre a condição feminina, partindo do episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. O livro é produzido pela Editora Patuá/Selo Donizete Galvão.


Quando:
Quinta-feira, 30/08/2018, às 19h

Onde:
Patuscada Livraria, Bar & Café
Rua Luís Murat, 40
Vila Madalena
São Paulo, SP



A máquina de existir

• Fabrício Marques


              



Ron Hicks - Just say it - 2015
Ron Hicks, pintor americano, Diga alguma coisa (2015)


MINHA HUMANIDADE

Minha humanidade sai para passear
e cumprimenta os passantes.

Eles ferem minha humanidade.
Ela nunca esquece.
Uma ferida aberta.

Minha humanidade
às vezes não coincide
com o que eu penso ou sinto.
Está sempre tão longe.

Minha humanidade precisa escolher
entre a natureza e a graça,
entre o nada e a dor,
minha humanidade diz:
entrem.

Nada do que é humano
é minha humanidade.

Minha humanidade cresce.
Minha humanidade é o pior de mim.

*

Minha humanidade,
meu fracasso:
aquele abraço.

(...)





Ron Hicks - Me time
Ron Hicks, Tempo só para mim


A MÁQUINA DE EXISTIR

Se você chegou até aqui
e quer continuar
às próprias custas,
cuidado: contém spoilers

A luz vai apagar
vai doer
vai arder

nas retas,
vai amar as curvas

nas curvas,
desejar as retas

vai ter seu dia
no deserto
no vale de ossos

Vai sentir
o calor do pai e
o calor da mãe

mesmo quando não há
calor de pai
e calor de mâe

vai pensar
que tudo é só ilusão

mas em algum momento
no começo,
meio
ou fim

a luz vai brilhar
como um vagalume
que só acende
e iluminar

a família
os amigos
nós dois
os meus e os seus desconhecidos

soltos no mundo
brincando nos campos do Real





Ron Hicks - Look who just walked in
Ron Hicks, Olha só quem acabou de entrar


MAIS-VALIA

Esses homens de pé,
ao longo de geleiras indestrutíveis,
repetem sem cessar suas certezas
também indestrutíveis.

O carro vale mais que a sinfonia
A faca vale mais que a poesia
As ações na bolsa valem mais que as nuvens
O míssil vale mais que o cacho de uva.

E se o compositor diz que
a coisa mais certa de todas as coisas
não vale um caminho sob o sol,
eles não têm a menor ideia
do que o compositor está falando.

E seguem solenes, solenes sob a luz severa,
escolhendo o carro, a faca, a bolsa e o míssil.

Mas eu escolho ser a chuva
que lentamente dissolve,
fibra por fibra,
as geleiras seculares.





Ron Hicks - Love letter
Ron Hicks, Carta de amor


A MÚSICA DO ACASO

Eu sou eu
e minha circunstância.
Mas não só.

Eu e as mil dissonâncias
entre o voltar a ser pó
e a que fui criança

Eu sou eu
e as pessoas todas
dos longes
e das vizinhanças

Eu sou eu
e a verdade
envolta
em verossimilhança

Eu sou eu
e meus próximos
passos à distância

Toca a música do acaso
(sapatos confortáveis
escondem cicatrizes)

tudo em volta dança.



poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Fabrício Marques
   in A Máquina de Existir
   Pedra Papel Tesoura, São Paulo, 2018
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* Donizete Galvão, “A Cidade no Corpo”, in Pelo Corpo (2002)
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* Imagens: obras do pintor norte-americano Ron Hicks (1965-)