Número 406 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 29 de agosto de 2018

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«Poetas e escritores. / É assim que se diz. / Logo, poetas não são escritores, então o quê —» (Wislawa Szymborska) *

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Seis Poetas
Marcelo Sandmann; Manuel Bandeira; Hilda Hilst; Myriam Fraga; Mario Quintana; Dalila Teles Veras; Cassiano Ricardo; Adélia Prado; Eunice Arruda



Amigas e amigos,

Nesta edição, trago a vocês um boletim focado num tema estranho: “poemas de tirar o fôlego”. Roubei esta expressão, meses atrás, de um e-mail da poeta mineira Adriane Garcia. Mas o que seriam esses poemas? Vou defini-los, tal como os entendo, usando um poema. Para isso, peço a ajuda do poeta curitibano Marcelo Sandmann, que escreveu “Poesia Versus Prosa”, o primeiro texto da seleção ao lado.

Sandmann dá a pista: de tirar o fôlego é o poema “feito tiro de misericórdia”, que liquida a fatura sem torturar o leitor ao longo de páginas e mais páginas. “É pá-buf!”. Mas não basta atirar: é preciso acertar na testa da vítima, garantindo-lhe espanto e satisfação com o que acabou de ler.

Há casos em que um trecho de poema poderia funcionar como um poema isolado desse gênero. Cito um exemplo, de João Cabral de Melo Neto:

Dançar flamenco é cada vez;
é fazer; é um faz; nunca um fez.

Estes são os versos finais do poema “Uma bailadora sevilhana”, do livro Agrestes (1985). É a própria fala dessa dançarina, a quem Cabral atribui a ideia de sua arte como invenção do momento, sem repetição de passos nem evoluções ensaiadas.

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Como se faz um poema de tirar o fôlego? Não acredito que algum poeta se recolha ao seu escritório e diga: agora vou escrever um texto assim. Creio que tais poemas acontecem, sem planejamento, como aliás sugere a bailadora cabralina.

Dos poetas brasileiros, o mais inclinado à feitura desses minipoemas talvez tenha sido o gaúcho Mario Quintana. Em sua obra, há centenas de poemetos condensados. Decerto, nem todos têm a força do pá-buf preconizado por Marcelo Sandmann. Mas Quintana, em minha opinião, é o que mais acerta o alvo. Suponho que isso se deva à sua aberta propensão ao aforismo.

O poema de tirar o fôlego é uma sacada genial, assim como, no futebol, um raro gol de bicicleta. Uma proeza de que o poeta é capaz, mas que depende de contextos específicos — não pode ser executada a qualquer momento.

Observo também que há muitos poetas excelentes, autoras e autores de obras admiráveis, mas que nunca produzem um só poema de tirar o fôlego. Ou seja, seus poemas podem ser monumentais, ponderados, filosóficos, construídos com profundo rigor, mas não têm essa, digamos, eletricidade repentina, esse relâmpago — o pá-buf.

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Atrevo-me a levantar algumas hipóteses sobre quais sejam as características-chave dos poemas de tirar o fôlego. A primeira delas é a pequena extensão. Poemas longos, conforme está dito no texto de Marcelo Sandmann, podem comunicar-se muito bem com o leitor de vários outros modos, mas não produzem o efeito da instantaneidade, o curto-circuito repentino.

Para atingir esse efeito, o poema também não deve ser hermético, nem muito vago. Isso não significa que, para acertar o alvo, o poema pá-buf tenha de se contentar com a indigência de ideias a fim de ser facilmente absorvido. Se a primeira quadra do célebre “Autopsicografia” de Fernando Pessoa fosse um poema independente, seria, sem dúvida, um texto de tirar o fôlego.

Nesse caso, o forte do poemeto não estaria na clareza do que diz o poeta, e sim no próprio contorcionismo lógico do enunciado. É estonteante encontrar um fingidor que finge até a dor verdadeira. Aí está o projétil que atinge a cabeça do leitor e o deixa atônito, extasiado.

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Uma distinção importante. Duas edições atrás, juntei num boletim o que chamei de “poemas de alta simplicidade”. Seria esta edição uma repetição daquela? Com certeza, não. A ideia da “alta simplicidade” coloca o poeta quase como uma testemunha do poema que se desenrola diante de seus olhos. A ele cabe apenas a tarefa de contar o que viu, praticamente sem usar recursos de seu arsenal poético.

A caracterização dos poemas de tirar o fôlego, feita até aqui, mostra que os dois objetos são bem diferentes. E acrescento: é muito mais fácil encontrar poemas para uma edição como a atual do que para a dos poemas ultrassimples.

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Mas passemos a alguns exemplos que consegui juntar, pesquisando apenas no já alentado acervo do poesia.net.

Sugeri, mais acima, que o poema de tirar o fôlego não pode ser hermético. Contudo, nada impede que ele seja irônico, sarcástico, e até mesmo lírico. Exemplo de lirismo é o caso de “Andorinha”, de Manuel Bandeira. A comparação entre o dia da ave e a vida da pessoa que fala remete o leitor sensível a um inevitável estado de desamparo e melancolia.

Confesso que, ao pensar em Bandeira, fiquei algum tempo na dúvida entre “Andorinha” e “Poema Tirado de Uma Notícia de Jornal” (“João Gostoso era carregador de feira livre...”). Optei pelo passarinho por ser um poema menos comentado e para dar um exemplo lírico.

Reflexão ainda mais pungente que a de Bandeira em “Andorinha” é a de Hilda Hilst (1930-2004) no poema “Do Desejo”. Afinal, o que é essa ânsia arrebatadora? A poeta Hilda pergunta e o próprio desejo responde, com uma completa autobiografia, que vai do vulcão ao nada.

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O próximo poemeto, “Ressaca”, da poeta baiana Myriam Fraga (1937-2016), é um parente próximo de “Do Desejo”, de Hilda Hilst. Os dois oferecem definições surpreendentes sobre sentimentos arrebatadores — o desejo e a paixão —, com finais igualmente sombrios.

Vem a seguir o poema “Haikai”, do já citado Mario Quintana (1906-1994). Aqui, a surpresa é completa. Somente no último verso o leitor vem a saber com clareza do que trata o poema, e descobre que a noite é um galinha poedeira.

Em seu poema “As Faxineiras do Edifício”, a luso-brasileira Dalila Teles Veras (1946-) inclui o título como parte essencial do texto. Na verdade, o poema contém uma única frase, que começa com o título, passa ao primeiro verso e salta para o último. Contudo, o efeito pá-buf é produzido pelo longo parêntese intermediário, dentro do qual são listados os estafantes trabalhos que as faxineiras têm de enfrentar. Fecha-se o parêntese e abre-se a emoção — centelha desencadeada pela última palavra do poema.

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Suprassumo da compactação, o poema “Serenata Sintética”, do modernista paulista Cassiano Ricardo (1895-1974), contém síntese até no nome. Tem jeito de poesia concreta, mas é anterior ao movimento dos irmãos Campos, pois foi publicado pela primeira vez no livro Um Dia Depois do Outro, de 1947. Felicíssima em sua fatura, essa seresta não tem verbos nem, a rigor, frases. O poeta compõe a cena com apenas seis palavras, divididas em três dísticos monossilábicos.

Comparados os dísticos, cada um difere do outro apenas nas letras iniciais dos versos (Lua, Rua, Tua) e (morta, torta, porta). Portanto, com variações mínimas nos signos, o poema consegue dizer (ou sugerir) muito. O leitor sabe que, além dessas palavras, há uma história de amor. Há um homem (sim, só homens saíam à rua em serenatas) entoando canções apaixonadas para cortejar uma mulher. Vale notar ainda o deslocamento espacial da segunda dupla de versos — procedimento que reforça visualmente a ideia de “rua torta”.

É importante observar que Cassiano não escreveu este poema de uma só vez. Em suas Poesias Completas (José Olympio, 1957), a “Serenata” apresenta duas diferenças. Ali, o primeiro dístico era “Rua / torta”. Portanto, a sequência original ficava assim: rua, lua, porta. Depois, em algum momento, o poeta reordenou as estrofes de cima para baixo, ou do mais amplo para o mais específico: lua, rua, porta.

A outra diferença: na primeira publicação, as três estrofes eram alinhadas à esquerda. Essas duas mudanças introduzidas por Cassiano Ricardo mostram que, embora o poema já fosse genial desde o início, o autor foi refinando-o pouco a pouco.

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Vem agora mais um haikai, o “Artefato Nipônico” da mineira Adélia Prado (1935-). Neste objeto poético, publicado originalmente em A Faca no Peito (1988), a poeta expressa seu maravilhamento religioso diante da exuberância colorida de uma borboleta.

Temos, por fim, o poema “Observando”, da paulista Eunice Arruda (1939-2017). Com duas frases muito breves, a poeta faz uma confirmação taciturna. Nos três primeiros versos, afirma que existem as tréguas (referindo-se, com certeza, aos embates da vida). Até aqui, uma afirmação positiva e confiante. Mas na última estrofe vem a verdade: a suspensão das hostilidades só persiste enquanto se afiam as facas. Pá-buf!

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CONVITE

Amigas e amigos: renovo o convite para o lançamento de meu novo livro de poesia, A Mulher de Ló, que sai pela Editora Patuá. Trata-se, na verdade, de um lançamento duplo: no mesmo local e hora, e pela mesma editora, a poeta Vera Lúcia de Oliveira apresenta seu livro Minha Língua Roça o Mundo. Será no dia 30/08, quinta-feira, às 19 horas, na Livraria, Bar e Café Patuscada. Rua Luís Murat, 40 - Vila Madalena - São Paulo, SP. Vejam mais sobre os livros abaixo, na seção Lançamentos.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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LANÇAMENTOS

Dois livros de poesia entram em circulação nesta semana.

Minha Língua Roça o Mundo
• Vera Lúcia de Oliveira

Vera Lúcia de Oliveira - Minha Língua Roça o MundoPaulista radicada na Itália, a multipremiada poeta Vera Lúcia de Oliveira lança nova coletânea de poemas, Minha Língua Roça o Mundo. O volume sai pela Editora Patuá.


Quando:
Quinta-feira, 30/08/2018, às 19h

Onde:
Patuscada Livraria, Bar & Café
Rua Luís Murat, 40
Vila Madalena
São Paulo, SP




A Mulher de Ló
• Carlos Machado

Carlos Machado - A Mulher de LóCarlos Machado, editor deste boletim, lança o livro A Mulher de Ló, uma série de poemas que refletem sobre a condição feminina, partindo do episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. O livro é produzido pela Editora Patuá/Selo Donizete Galvão.


Quando:
Quinta-feira, 30/08/2018, às 19h

Onde:
Patuscada Livraria, Bar & Café
Rua Luís Murat, 40
Vila Madalena
São Paulo, SP


Poemas de tirar o fôlego

• Marcelo Sandmann  • Manuel Bandeira
• Hilda Hilst  • Myriam Fraga  • Mario Quintana
• Dalila Teles Veras  • Cassiano Ricardo
• Adélia Prado  • Eunice Arruda


              



Scott Burdick - After Hours
Scott Burdick, pintor americano, Morgan em amarelo (2007)



• Marcelo Sandmann

POESIA VERSUS PROSA

    para Cristóvão Tezza

Um bom poema é feito
tiro de misericórdia.

O poeta não tortura seu leitor
como faz o prosador,
linhas
e dias a fio.

É pá-buf!

O corpo caído:
o pingo na testa.



Scott Burdick - After Hours
Scott Burdick, Coroa de plumas (2015)



• Manuel Bandeira

ANDORINHA

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...


• Hilda Hilst

DO DESEJO

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.



Scott Burdick - After Hours
Scott Burdick, Sienna (2016)



• Myriam Fraga

RESSACA

A paixão é como o vinho
Passada a embriaguez
Resta um co(r)po vazio.


• Mario Quintana

HAIKAI

Silenciosamente
sem um cacarejo
a noite põe o ovo da lua...



Scott Burdick - After Hours
Scott Burdick, Marge Lyon (2008)



• Dalila Teles Veras

AS FAXINEIRAS DO EDIFÍCIO

surpreendentemente
(não obstante os dez mil, quatrocentos e trinta e um degraus,
os oito mil, trezentos e vinte metros quadrados de piso, as
quatrocentas e quinze vidraças e as três toneladas de lixo à
espera de varrição, transporte e limpeza)
cantam...


• Cassiano Ricardo

SERENATA SINTÉTICA

Lua
morta

   Rua
   torta

Tua
porta



Scott Burdick - After Hours
Scott Burdick, O pequeno bode (2006)



• Adélia Prado

ARTEFATO NIPÔNICO

A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.


• Eunice Arruda

OBSERVANDO

sim

as horas de trégua

Quando se afiam
as facas






poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Marcelo Sandmann
   in Antologia Poética 1987-2017
   Kotter/Ateliê Editorial, Curitiba/São Paulo, 2017
• Manuel Bandeira
   (Livro original: Libertinagem, 1930)
   in Estrela da Vida Inteira
   José Olympio, 6a. ed., Rio de Janeiro, 1976
• Hilda Hilst
   in Da Poesia
   Cia. das Letras, São Paulo, 2017
• Myriam Fraga
   in Femina
   Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, Salvador, 1996
• Mario Quintana
   in Poesia Completa
   (Livro original: A Cor do Invisível, 1989)
   Nova Aguilar, 1a. ed., 1a. reimpr., Rio de Janeiro, 2006
• Dalila Teles Veras
   in Retratos Falhados
   Escrituras, São Paulo, 2013
• Cassiano Ricardo
   in Seleta em Prosa e Verso
   Organização, estudo e notas de Nelly Novaes Coelho
   José Olympio, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1975
• Adélia Prado
   in Poesia Reunida
   (Livro original: A Faca no Peito, 1988)
   Ed. Siciliano, 10a. ed., São Paulo, 2001
• Eunice Arruda
   in Os Momentos
   Nobel/Sec. Est. da Cultura, São Paulo, 1981
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* Wislawa Szymborska, "Medo do Palco" in Um Amor Feliz,
  trad. Regina Przybycien
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* Imagens: obras de Scott Burdick (1967-), pintor americano