Número 408 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 26 de setembro de 2018

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«O que esperais de um Deus? / Ele espera dos homens que O mantenham vivo.» (Hild Hilst) *

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Líria Porto
Líria Porto



Amigas e amigos,

Líria Porto, poeta a quem é dedicada a presente edição do boletim, já esteve aqui nesta página há cerca de dois anos e meio, no poesia.net n. 350. A escritora mineira (Araguari, 1945), retorna agora devido ao recente lançamento de seu novo livro, Olho Nu (Patuá, 2018).

Tudo aquilo que afirmei sobre a poesia de Líria Porto naquele primeiro boletim permanece válido sobre seu novo trabalho. A poeta continua de olhos bem abertos para as peripécias da vida humana, com especial atenção para os desassossegos do dia a dia. Para este boletim selecionei oito poemas de sua coletânea recém-lançada.

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Dificilmente um poema da autora ultrapassa a extensão de uma página. Em geral, são textos curtos que, como uma pequena agulha, estouram o balão de opressões, mentiras, disfarces e ocultações. O tom dominante é de crítica, sempre com uma pitada de humor melancólico.

Veja-se, por exemplo, o poema “Desperdício”. Nele aparece uma prima chamada Dirce que, pudica e beata, “vê a vida / pela fresta”. Ou seja, não se arrisca com o que acontece lá fora. O tom de “Sentinela” é mais sério, embora não se furte a certa ironia. O pai não comparece à festa dos 74 anos da mãe. Morre exatamente na data do aniversário.

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O poema “Verídico” é quase uma piada. Baseia-se naquela situação em que alguém (normalmente um homem) sai de casa para executar uma tarefa trivial (no caso, “comprar açúcar”), desaparece, e retorna depois de muitos anos como se nada de estranho tivesse acontecido.

“Quando o amor se esfuma” brinca com o fim de um relacionamento amoroso. “Amélia” — uma referência à submissa “mulher de verdade” da canção popular — parece ser a amante que aceita tudo e nada pede em troca. Objeto de uso e abuso.

A mulher que fala em “Intocável” constrói armas e escudos, com os quais se transforma numa anti-Amélia. Pena que não seja uma figura para tratar os outros (os homens?) de igual para igual, mas uma criatura encouraçada e, pelo jeito, insensível. Não sofre (será?), mas também não ama.

Vem, por fim, o poema “Descobrimento”. Aqui, sempre sem deixar de lado o humor, Líria Porto reflete sobre a infância, a juventude e a velhice.


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CONVITE

Amigas e amigos: meu novo livro de poesia, A Mulher de Ló, foi lançado no último dia 30/8 em São Paulo. Vamos apresentá-lo também na 11ª Feira do Livro de Feira de Santana-BA, evento promovido pela UEFS. Será no próximo dia 26/9, na Praça Padre Ovídio - Centro, em Feira de Santana. Mais na seção Lançamentos, logo abaixo.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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LANÇAMENTOS

A Mulher de Ló
• Carlos Machado

Carlos Machado - A Mulher de LóCarlos Machado, editor deste boletim, lança o livro A Mulher de Ló, uma série de poemas que refletem sobre a condição feminina, partindo do episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. O livro é produzido pela Editora Patuá/Selo Donizete Galvão.


Quando:
Quarta-feira, 26/09/2018, às 18h

Onde:
11ª Feira do Livro
Praça Padre Ovídio - Centro
Feira de Santana, BA


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CRÔNICA SOBRE POESIA

Leia “O poeta que roubava livros e outras histórias imperfeitas”.

Humor e melancolia

• Líria Porto


              



Bruce Wolfe - Girl at piano - Diva - 1998
Bruce Wolfe, pintor americano, Moça ao piano - Diva (1998)


DESPERDÍCIO

prima dirce vê a vida
pela fresta

ela adora futebol
e vai à missa

seu pecado foi cheirar
lança-perfume

prima dirce borda borda
mas não pinta


SENTINELA

meu pai (não) compareceu
ao septuagésimo quarto aniversário
de minha mãe

à beira do corpo coberto com flores
entre amigos parentes e filhos
mamãe lamentava-se
:
logo hoje meu velho
           logo hoje?



Bruce Wolfe - Clothesline - detail
Bruce Wolfe, Varal de roupa (detalhe)


VERÍDICO

foi comprar açúcar
levou mais de vinte anos

um dia voltou
pôs o pacote sobre a mesa
sentou-se
acendeu o cigarro
e perguntou — o café
vai demorar?



QUANDO O AMOR SE ESFUMA

de tanto tecer possibilidades
tive l.e.r. (lesões por esforços repetitivos)
e quase fiquei triste
ainda não desisti
         embora a dor persista



Bruce Wolfe - Girl in the water
Bruce Wolfe, Moça na água


AMÉLIA

ficava lá disponível
limpa macia perfumada
igual blusa no cabide

ele vinha usava-a
voltava-se para a parede
dormia
partia pela manhã

(foi visto no shopping
de roupa nova)



INTOCÁVEL

fiz da pele uma couraça
um escudo uma armadura
um casco de tartaruga

agora ninguém me pega
se pegar não me belisca
se beliscar eu nem sinto



Bruce Wolfe - Morning paper
Bruce Wolfe, Jornal da manhã


DESCOBRIMENTO

a infância é um barquinho
a transportar nossos sonhos
da enxurrada até o rio

a juventude um caiaque
a descer a correnteza
sem pensar em desembarque

a velhice é caravela
         terra à vista




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Líria Porto
   in Olho Nu
   Patuá, São Paulo, 2017
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* Hilda Hilst, "Passeio", in Exercícios, Ed. Globo (2002)
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* Imagens: obras de Bruce Wolfe (1941-), pintor, escultor, desenhista e ilustrador
  americano.