Número 409 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 17 de outubro de 2018

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«Só na morte não somos estrangeiros.» (Eugénio de Andrade) *

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Ronaldo Monte
Ronaldo Monte



Amigas e amigos,

Antes de tudo, uma observação. Este boletim está circulando com uma semana de atraso. E o motivo foi simplesmente uma atrapalhação calendárica do editor, que confundiu as semanas “sim” e “não” do boletim. Antecipo, portanto, que — para manter o passo — haverá outro boletim na próxima semana.

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O poeta desta edição já esteve aqui no boletim n. 167, em junho de 2006. Trata-se do professor de psicologia na UFPB, psicanalista, ficcionista, cronista e poeta Ronaldo Monte. Lamentavelmente, esta edição, pensada para registrar o lançamento recente de seu livro Manual Prático de Desaparecimento (Patuá, 2018), tornou-se uma homenagem póstuma ao autor. Ronaldo Monte de Almeida faleceu em agosto passado.

Nascido em Maceió (1947), tornou-se, como dizia, “paraibano por opção e por tempo de serviço”. De fato, vivia na Paraíba há 40 anos, desde quando se mudou para João Pessoa, a fim de ensinar na UFPB. Na poesia, seu primeiro livro publicado foi Pelo Canto dos Olhos, em 1983. Em 2000, saiu a coletânea Tecelagem Noturna, volume que também inclui o título de estreia.

Mas o escritor, inquieto, não trafegou somente nos domínios da poesia. Ele também produziu contos, crônicas e publicou o romance Memória do Fogo (Ed. Objetiva, 2006). Este boletim homenageia o poeta Ronaldo Monte com a transcrição de poemas de seu Manual Prático de Desaparecimento.

Esse livro divide-se em três blocos de poemas: O primeiro tem o mesmo título do volume. Em seguida vêm “Poemas Maternos” e, por fim, “Passatempo”. Para quem acompanha o trabalho poético de Ronaldo Monte, não é difícil perceber que, no bloco inicial, ele revisita e aprofunda temas associados à decadência física e à extinção da vida, já abordados em livros anteriores.

Assim, os poemas da divisão “Manual Prático de Desaparecimento” especulam sobre algum modo de “Preparação para a morte”, como escreveu, de maneira mais crua, o pernambucano Manuel Bandeira. Não posso afirmar que o poeta teve essa intenção ao reunir os textos desse “manual”. De todo modo, é o que parece.

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Para esta edição, selecionei seis poemas do livro. O primeiro, “Manual Prático de Desaparecimento”, dá título à  seção inicial da coletânea e ao próprio livro. O texto aconselha o leitor a experimentar situações estranhas: visitar lugares onde ninguém lhe entenda a língua; passear pelo deserto com o sol a pino, a fim de não deixar nenhum rastro, nem sombra; e, ainda, ficar sozinho ao anoitecer até se diluir em sombras. Trata-se, sem dúvida, de treinamentos suaves para encarar a mais estranha de todas as situações — o definitivo desaparecimento.

O poema “Nudez” permanece no mesmo campo temático. Nele o poeta recorre à mitologia grega e atribui a Caronte — o barqueiro da morte — a tarefa de apagar todos os vestígios deixados na terra por quem partiu.

O texto seguinte, “Mãos Dadas”, pertence a outro capítulo, “Passatempo”. Trata-se de algo mais leve, afinado no diapasão lírico-amoroso. Do mesmo capítulo e tonalidade lírica é o poema “Fonte”, que trabalha com os mistérios do sono e dos sonhos.

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Em “Segunda Chance”, o poeta se volta para a realidade atual do Oriente Médio. Usa a tradição cristã do Natal, do nascimento de Cristo, e compara o mortandade praticada por Herodes com os bombardeios israelenses sobre a Faixa de Gaza, na Palestina.

O último poema da seleção, “Herança”, também pertence ao bloco “Passatempo”. Mas, curiosamente, nele o tema retorna ao contexto de “Manual de Desaparecimento”. O texto se organiza como um metapoema, no qual o autor declara cuidar com carinho das palavras herdadas. Elas são a prova fundamental de sua “breve passagem pelo mundo”, seu testamento. Palavra do poeta.

Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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LANÇAMENTOS

Dois livros de poemas e um de contos entram em circulação nos próximos dias.

Como Aquela Montanha Sossegada
• Antonio Brasileiro

Tudo no Mínimo - Antologia do Miniconto na Bahia
• Roberval Pereyr e Aleilton Fonseca (orgs.)

A. Brasileiro + MinicontosA Editora Mondrongo lança dois livros de literatura. O primeiro é Como Aquela Montanha Sossegada, poemas de Antonio Brasileiro; o outro, Tudo no Mínimo - Antologia do Miniconto na Bahia, organizado pelos poetas Roberval Pereyr e Aleilton Fonseca.


Quando:
Quinta-feira, 18/10/2018, às 20h30

Onde:
Academia de Letras da Bahia
Av. Joana Angélica, 198 - Nazaré
Salvador, BA



A Casa & Outros Poemas
• Ecléa Bosi

Eclea Bosi - A casa“Se mora alguém nessa pequena casa / e vê o jardim atrás dessa janela / terá sentido o palpitar da asa / do sonho que esquecemos dentro dela?!” Estes são versos do livro A Casa & Outros Poemas, de Ecléa Bosi (1936-2017), lançado agora pela Editora Com-Arte e a Lis Gráfica.


Quando:
Quarta-feira, 24/10/2018, das 18 às 20h

Onde:
Livraria João Alexandre Barbosa
Av. Prof. Luciano Gualberto, 78 - Espaço Brasiliana
Cidade Universitária - USP
São Paulo, SP

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TRECHO DE LIVRO

Trecho delicioso do livro O desatino da rapaziada (1992), de Humberto Werneck, que conta as peripécias de jornalistas e escritores mineiros no período de 1920 a 1970. Entre as figuras que aparecem no livro, lá estão a turma belo-horizontina de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Pedro Nava (1903-1984) e também um grupo mais novo, conhecido como Os Quatro Mineiros: Hélio Pellegrino (1924-1988), Otto Lara Resende (1922-1992), Paulo Mendes Campos (1922-1991) e Fernando Sabino (1923-2004).

Aí vai o trecho:

No que às vezes tem de doentio, a burocracia deu origem, também, nas Minas Gerais, a episódios entre o cômico e o trágico. Nenhum deles, provavelmente, mais expressivo que a morte de João Luís Alves, deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal, membro da Academia Brasileira de Letras, falecido em Paris em 1925. Quando dele só se aguardava o suspiro final, eis que Alves emerge da agonia e murmura: “Já despachei todos os papéis. Chamem o contínuo”.

E exonerou-se deste mundo.

Humberto Werneck, in O desatino da rapaziada (Cia. das Letras, 2ª ed., 2012), pág. 146.


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Lição de desaparecimento

• Ronaldo Monte


              



Scott Harding - A quick cooldown
Scott Harding, pintor americano, Refresco rápido


MANUAL PRÁTICO DE DESAPARECIMENTO

    Aprende a cruzar las manos,
    y gusta los aires fríos

      - Lorca

Visita cidades distantes
onde ninguém te conheça
nem entenda tua língua

Passeia pelos desertos
ao sol do meio-dia
onde não deixes sombra
nem rastro

Aguarda o cair da tarde
na solidão do teu quarto
até que te diluas em sombras

Anoitece
aprende a desamanhecer



Scott Harding - Practice with a friend
Scott Harding, Ensaiando com um amigo


NUDEZ

Um dia cairá de teus ombros
o manto da memória.

Despida de ti,
entrará tua alma na mansão dos mortos
ao derradeiro som do remo de Caronte
que volta para apagar
os teus vestígios pelo mundo.



Scott Harding - Flip flops
Scott Harding, Sandálias


MÃOS DADAS

    Para Glória

Deram-se as mãos.
E achando pouco, os dois deram-se as bocas.

Queriam mais.
Então, deram-se os corpos.

E muito mais tiveram para dar
assim presenteados um ao outro.

06.07.2009



Scott Harding - Waiting for friends
Scott Harding, Esperando amigos


FONTE

    Para Glória

Teus sonhos não são enigmas.
Olha-os com calma:
eles são a fonte dos enigmas.
Tua fonte.

Não busques, portanto,
o sentido dos teus sonhos.

Dorme, apenas.

E deixa que desfilem
teu mistério
no chão do sono.

18.07.2007



Scott Harding - Silvia's chair
Scott Harding, A cadeira de Silvia


SEGUNDA CHANCE

Se for achado em Gaza
um menino em uma manjedoura,
rodeado pelos pais,
três magos
e alguns bichos,
por favor, protejam-no.
Pois a matança dos inocentes
já começou
e a rota de fuga para o Egito
está interditada.

16.01.2009



Scott Harding - Silvia num quimono laranja
Scott Harding, Silvia num quimono laranja


HERANÇA

Cuido com carinho
das palavras que herdei.
Das antigas e das novas.

As antigas,
gordas de sentido,
deixo-as descansar em minhas mãos
antes de lançá-las
de volta ao carrossel dos signos.
Relíquias
impregnadas de hálitos ancestrais.

As novas,
verdes de memória,
guardo no berço das mãos
até que estejam prontas
para a ciranda dos verbos.
Pontos luminosos
no discurso opaco do cotidiano.

Novas antigas palavras.
Herança e testamento
de minha breve passagem pelo mundo.

05.12.04




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Ronaldo Monte
   in Manual Prático de Desaparecimento
   Patuá, São Paulo, 2018
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* Eugénio de Andrade, "XLIX", in Branco no Branco (1984)
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* Imagens: obras de Scott Harding (1965-), pintor, escultor, desenhista e ilustrador
  americano.