Número 412 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 14 de novembro de 2018

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«As leis não bastam. Os lírios não nascem / da lei.» (Carlos Drummond de Andrade) *

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Paulo Henriques Britto
Paulo Henriques Britto



Amigas e amigos,

O poeta e tradutor Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1951), cuja poesia já se encontra em circulação há pelo menos 36 anos, desenvolveu ao longo desse período uma obra marcadamente pessoal.

Estreante em 1982 com o livro Liturgia da Matéria, publicou até hoje mais seis títulos de poesia: Mínima Lírica (1989); Trovar Claro (1997); Macau (2003); Tarde (2007); Formas do Nada (2012) e Nenhum Mistério (2018).

Também tradutor de verso e prosa, Paulo Henriques Britto verteu para o português numerosos livros, entre os quais obras de William Faulkner, Elizabeth Bishop e Charles Dickens. Britto é ainda professor da PUC-Rio, nas áreas de tradução, criação literária e literatura brasileira.

O poeta já esteve aqui nesta página na edição n. 45, com poemas dos livros Macau e Trovar Claro. Retorna agora com textos de seus dois títulos mais recentes.

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Comecemos com dois poemas de Nenhum Mistério. O primeiro é a parte “IV” da série “Nenhuma Arte”. Atrelado a um ponto de vista que enxerga a vida sempre na perspectiva do fim, o poeta glosa em oitavas o mote “nada do que te pertence é teu”.

É inevitável observar os títulos deste poema e do livro: “Nenhuma Arte” e Nenhum Mistério. Ambos parecem fazer referência ao poema “Uma Arte”, da americana Elizabeth Bishop, de quem Paulo Henriques Britto traduziu parte substancial da obra.

Em seu famoso poema, Bishop afirma que “a arte de perder não é nenhum mistério”. Britto vai além e não encontra no exercício da vida “nenhuma arte”. Pelo que se pode deduzir dos versos de sua coletânea mais recente — e também de outros livros anteriores —, a lógica é simples: se viver é quase sinônimo de perder, então cadê a arte?

O segundo poema é também uma parte, a número “VII”, da suíte chamada “Nenhum Mistério”, que dá título ao livro. Neste texto, destacam-se sinais de velhice e da finitude do corpo: “Chega um momento em que as mãos / já não querem cumprir ordens”. Não só as mãos: também os olhos, os pés, o rosto. A conclusão, cruel mas verdadeira, é de que em breve “não será mais preciso / fingir-se de morto”.

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Os três próximos poemas vêm do livro Formas do Nada. Comecemos com a parte “III” do bloco “Seis Sonetos Soturnos”. Neste soneto, pode-se observar uma característica central da poética de Paulo Henriques Britto. Além de preferir as formas fixas (a exemplo de sonetos e versos medidos), o poeta trata de assuntos sérios — e às vezes filosoficamente intrincados — sem abrir mão da linguagem coloquial.

Neste soneto soturno n. “III”, todo o desenvolvimento se dá com expressões do dia a dia — “durma-se com um barulho desses”, “final feliz”, “noves fora”, “Inês é morta”, “mãos à obra”, “conforme o combinado”. Os leitores que apreciam situações idílicas e desfechos mais amenos certamente vão concluir que o poeta é um “pessimista”. Mas quem não olha a vida com lentes cor-de-rosa sabe que esses versos são apenas retratos da realidade. O poema “Madrigal” bate na mesma tecla: “As cartas estão marcadas: / vai dar desgraça na certa”.

Encerremos nossa seleção em altíssimo estilo como o poema “Pós”. Nele o poeta, brilhante, trabalha com antíteses estonteantes, que provocam no leitor uma cascata de epifanias. Prefiro não citar trechos do poema e deixar que vocês mesmos/as o degustem, por inteiro, com todos os ziguezagues e indecisões que todos conhecemos vida afora. Se eu tivesse de escolher um poema nos dois livros mais recentes de Paulo Henriques Britto, provavelmente apontaria este.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado


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Nem arte nem mistério

• Paulo Henriques Britto 


              



Amedeo Modigliani - girl in a green blouse
Amedeo Modigliani, pintor italiano, Moça com blusa verde (1917)



NENHUMA ARTE - IV

Uma vida inteira passada
dentro dos confins de um corpo
junto ao qual vem atrelada
a consciência, peso morto
que acusa o golpe sofrido
e cochicha ao pé do ouvido
depois que o fato se deu:
nada que te pertence é teu.

Único antídoto do nada
entre as peçonhas da vida,
coisa por sorte encontrada
e por desgraça perdida,
amor lega, em sua ausência,
um lembrete à consciência
(se ela por acaso esqueceu):
nada que te pertence é teu.

Princípio? Tudo é contingente.
Fim? Toda luz termina em breu.
Sentido? Quem quiser que invente,
quem não quiser se contente
com este presente besta
que, quando acabou a festa,
a vida avara lhe deu:
nada que te pertence é teu.



Amedeo Modigliani - Jeanne Hébuterne-1919
Amedeo Modigliani, Jeanne Hébuterne (1919)



NENHUM MISTÉRIO - VII

Chega um momento em que as mãos
já não querem cumprir ordens.
Não pegam mais, não apertam,
e sim mordem.

Os olhos se cansam da luz,
os pés desprezam os pisos,
a mente rejeita todo e
qualquer juízo.

E o rosto — este velho disfarce
velhaco, por trás do qual
não há outra coisa senão
uma máscara igual,

o rosto nem mesmo se esforça
pra parecer que não é outro.
(Já, já não será mais preciso
fingir-se de morto.)

   De Nenhum Mistério (2018)



Amedeo Modigliani - o menino campesino-1918
Amedeo Modigliani, O menino campesino (1918)



SEIS SONETOS SOTURNOS - III

E durma-se com um barulho desses,
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,

nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,

ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos

à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.



Amedeo Modigliani - Retrato de uma jovem-1918
Amedeo Modigliani, Retrato de uma jovem (1918)



MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.



Amedeo Modigliani - Boy in short pants-1918
Amedeo Modigliani, Garoto de calças curtas (1918)



PÓS

Antes era mais fácil — sim, porque era
mais difícil, havia mais em jogo,
e o tempo todo se jogava à vera.
Precisamente: mais difícil, logo

mais fácil. Porque sempre se sabia
de que lado se estava — havia lados,
então. E a certeza de que algum dia
tudo teria um significado.

E nós seríamos os responsáveis
por dar nomes aos bois. Havia bois
a nomear, então. Coisas palpáveis.
Tudo teria solução depois.

Chegou o tempo de depois? Digamos
que sim. E no entanto os nomes dados
não foram, nem um só, os que sonhamos.
Talvez porque sonhássemos errado,

talvez porque, enquanto alguns se davam
ao luxo de sonhar, outros, insones,
imunes, implacáveis, se entregavam
à tarefa prosaica de dar nomes

sem antes os sonhar. E, dia feito,
agora tudo é fácil. E por isso
difícil. Não, a coisa não tem jeito.
Nem nunca teve, aliás. Desde o início.

   De Formas do Nada (2012)




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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



Paulo Henriques Britto
• “Nenhuma Arte - IV”, “Nenhum Mistério - VII”
   in Nenhum Mistério
   Cia. das Letras, São Paulo, 2018
• “Seis Sonetos Soturnos - III”, “Madrigal”, “Pós”
   in Formas do Nada
   Cia. das Letras, São Paulo, 2012
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* Carlos Drummond de Andrade, “Nosso Tempo”, in A Rosa do Povo (1945)
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* Imagens: obras do pintor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920)