Número 419 - Ano 17

São Paulo, quarta-feira, 27 de março de 2019

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«A poesia está em tudo — tanto nos amores como nos chinelos.» (Manuel Bandeira) *

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Antonio Brasileiro
Antonio Brasileiro



Amigas e amigos,

Para quem se debruçar sobre a obra do baiano Antonio Brasileiro (Ruy Barbosa-BA,1944-) não será difícil perceber que se trata de um poeta permanentemente dedicado à reflexão filosófica. Em toda a sua trajetória, desde a estreia nos anos 60, Brasileiro confirma-se como praticante de um lirismo eminentemente pensador.

Não é diferente agora com o lançamento de Como Aquela Montanha Sossegada (Mondrongo, 2018). Desde o título, o poeta já sinaliza a disposição de contemplar e refletir sobre as coisas do mundo e os caminhos do ser humano.

 Antonio Brasileiro já esteve nesta página em várias edições: n. 26, em 2003; n. 293, em 2013; e n. 351, em 2016 — isso sem contar sua inclusão em boletins coletivos, como o recente n. 416, a primeira edição deste ano.

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Na nova coletânea de Antonio Brasileiro a disposição reflexiva do poeta perpassa praticamente todos os poemas. Selecionei para este boletim seis dos mais de cem textos do livro. No primeiro deles, “Canção”, o poeta trabalha com uma série de sutilezas. Uma delas aparece logo na estrofe inicial: “Pus minha vida num barco / e pus o barco no mar”.

São versos que, de propósito, ecoam aqueles do poema também chamado “Canção” da musical Cecília Meireles: “Pus o meu sonho num navio / e o navio em cima do mar; / — depois, abri o mar com as mãos / para o meu sonho naufragar.” Brasileiro começa de forma similar. Contudo, em vez do sonho, ele põe a vida num barco e lança o barco no mar. Em seguida, aplica um segundo golpe: para quem espera uma saborosa rima ceciliana, vem o desconforto de dois versos desajustados: “cometi erro e façanha / e estou ficando velho.”

A música se quebra, o leitor perde o embalo do ritmo e é  praticamente forçado a pensar. Na segunda estrofe, o mal-estar continua: “vejo as pessoas que passam: / algumas parecem tristes / outras carregam embrulhos”. Não passa despercebido o zigue-zague dos versos entre coisas que estão na esfera da subjetividade (tristeza, sentimento de estar velho) e gestos completamente pedestres e banais, como carregar embrulhos.

No final, o poema oferece a rima esperada, mas só depois de dizer que não sabemos quem somos nem para onde vamos. Portanto, nosso barco vai à deriva. O último verso, mais curto, traz a rima, mas impõe nova quebra de expectativa: muda-se o ritmo, encerrando o poema.

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No poema seguinte, “A Festa”, o poeta retoma a metáfora da viagem marítima. Mas agora a dúvida é de outra natureza: estamos todos no mesmo barco? Vamos ao mesmo destino, percorrendo as mesmas rotas e derrotas, caminhos e descaminhos? O poeta diz que não: “O mesmo barco não há”. Não há, nem mesmo do ponto de vista de como entendemos e sentimos a embarcação. O poema revela uma das possíveis diferenças de percepção: “Há os caminhos dos poetas / e os das pessoas que passam”.

Se em “Canção” Brasileiro entabulava um diálogo dissonante com Cecília Meireles, em “Olha, Daisy” a homenagem se dirige a Fernando Pessoa — na pessoa de Álvaro de Campos. O engenheiro naval Álvaro de Campos também se dirige em termos bem parecidos a uma certa Daisy londrina.

E aqui também ressurge a metáfora da navegação. O sujeito que se dirige a essa Daisy sente-se velho e cansado, “o homem em sua solitária barca”. Este verso final reverbera o que está dito em “A Festa”: “Não estamos no mesmo barco”. Também não é demais lembrar que Álvaro de Campos é engenheiro naval, o que reforça todo o contexto marítimo.

Não resisto, porém, à tentação de divagar: se o mineiro Drummond — outro deus nos altares pagãos de Brasileiro — se autointitulava “fazendeiro do ar”, não há dúvida de que Álvaro de Campos, criatura volátil, só pode ser um engenheiro naval de mares inventados e navios sonhados. No poema “Opiário”, o próprio Campos abre o jogo: “Eu fingi que estudei engenharia. / Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda”.

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“Poema”, o próximo texto pinçado em Como Aquela Montanha Sossegada, oferece ao leitor um belo exercício de concisão e sutileza. A vida, breve e frágil, não passa de um pingo sobre a letra i. Em achados assim, que parecem meras brincadeiras, revela-se toda a força de observação do poeta que põe o poema para pensar.

Passemos ao último texto de nossa pequena seleção. Neste “Os Passarinhos”, a reflexão, mais uma vez, assume ares de brincadeira despretensiosa. Mas é puro fingimento. Quem conhece a poesia de Antonio Brasileiro sabe que ele de fato tem os passarinhos na mais alta conta. Outros poemas deste mesmo livro provam isso.

Conceda-se, portanto, o maior peso poético a estes versos finais: “É bom sempre estar quites / com os passarinhos”.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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LANÇAMENTO

Quase Toda Poesia
• Maria Maia

Maria Maia - Quase Toda PoesiaA poeta e cineasta acreano-brasiliense Maria Maia lança o livro Quase Toda Poesia em São Paulo. O volume reúne seus poemas publicados de 1975 até agora..


Quando:
Quinta-feira, 28/03/2019, às 19h

Onde:
União Brasileira de Escritores (UBE)
Rua Rego Freitas, 454 - 6º andar - cj. 61
São Paulo, SP


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O poema para, repara, pensa

• Antonio Brasileiro


              



Camille Corot - The greek girl-1870-71
Camille Corot, pintor francês, Moça grega (1870-71)


CANÇÃO

Pus minha vida num barco
e pus o barco no mar —
cometi erro e façanha
e estou ficando velho.

À mesa deste Café,
vejo as pessoas que passam:
algumas parecem tristes,
outras carregam embrulhos.

Nunca sabemos quem somos
e aonde vamos chegar.
A vida num barco pomos
   — e o barco no mar.



Camille Corot - Femme avec mandoline-1850
Camille Corot, Mulher com chapéu e bandolim (c.1850)


A FESTA

Não estamos no mesmo barco.
Os destinos são diversos.
Há os caminhos dos poetas
e os das pessoas que passam.

Só passam. E estão com pressa
— a festa vai acabar.
(Não há nenhum acabar:
vai sempre haver uma festa.)

Não estamos no mesmo barco.
O mesmo barco não há.
Há os destinos diversos.

   E a festa vai acabar.



Camille Corot - Jewish argelian woman - 1870
Camille Corot, Mulher judia argelina (1870)


OLHA, DAISY

Olha, Daisy, estou muito cansado.
Acho que não vou vê-la mais à noite.
Vou ler uns livros sobre alguns fantasmas
e rabiscar uns certos desconfortos.
Também quero arrumar uns papéis velhos
deixados nas gavetas da memória —
um homem nunca é mais que amargo espelho
a rebuscá-lo: farpa, sanha, horda
de animais medonhos. Olha, Daisy,
estou muito cansado, como disse,
e mesmo o amor da carne agora fez-se,
dentro de mim, sobejo à longa festa.
Meu espírito, vês, já açambarca
a matéria que sou. Já o que resta
é o homem em sua solitária barca.



Camille Corot - Portrait of a young girl 1850 or 59
Camille Corot, Retrato de uma jovem (1859)


POEMA

A vida,
tênue fio

— um til
sobre um não.

(A vida,
esta aí:

um ponto
sobre um i.)



Camille Corot - Reaper with a sickle-1838
Camille Corot, Ceifeira com uma foice (1838)


ILHAS

Todas as coisas são ilhas.
O mundo é para passar.

E eu vou indo, vou indo
— simples, devagar.

Um dia, sei, passarei.
Assim como o mundo passa.

Ó meus amigos, bebamos
mais uma taça!



Camille Corot - Young woman in a pink skirt-1845-50
Camille Corot, Moça com saia cor-de-rosa (1845-50)


OS PASSARINHOS

Um passarinho acaba de pousar
  perto de mim.
Digo: Olá, passarinho! Não responde.
Até me dá as costas.
Talvez descanse um pouco de seu longo dia.
Também lhe dou as costas.
Volto ao meu caderno de poemas
 e estamos quites.

É bom sempre estar quites
  com os passarinhos.




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2019



• Antonio Brasileiro
   in Como Aquela Montanha Sossegada
   Mondrongo, Itabuna-BA, 2018
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* Manuel Bandeira, in Itinerário de Pasárgada (1957)
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* Imagens: obras de Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875), pintor francês