Número 425 - Ano 17

São Paulo, quarta-feira, 26 de junho de 2019

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«A coisa mais solitária que existe é um solo de flauta.» (Mario Quintana) *

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Donizete Galvão
Donizete Galvão



Amigas e amigos,

O poeta em destaque neste boletim é o mineiro Donizete Galvão (1955-2014), que já esteve aqui em quatro ocasiões anteriores: na edição n. 400 (em parceria com o poeta cearense Francisco Carvalho); n. 302 (boletim em que se noticia a morte do poeta); n. 236; e n. 19.

Agora, Donizete Galvão retorna, trazido por seu livro póstumo O Antipássaro, lançado no final de 2018 pela editora Martelo, de Goiânia. O poeta, falecido em janeiro de 2014, deixou em seu computador uma pasta de arquivos com indicação do título, a epígrafe de Orides Fontela (“O pássaro / pesa / e caça / entre lixo / e tédio”) e os poemas, cada um escrito num arquivo Word. Seus herdeiros — viúva e filhos — confiaram à dupla de amigos e poetas Paulo Ferraz e Tarso de Melo a tarefa de organizar o livro.

Os organizadores incumbiram-se do difícil exercício de intuir quais estratégias o autor usaria para montar O Antipássaro. Vale ressaltar que Donizete Galvão deixou os poemas (alguns inacabados), mas não havia um sumário que indicasse a ordem em que os textos apareceriam. Ferraz e Melo lograram um resultado que honra e ressalta o trabalho do poeta Donizete Galvão. Para dar o arremate final no mesmo padrão, convidaram o poeta e ensaísta carioca Antonio Carlos Secchin, que escreveu o posfácio do livro.

Falta, ainda, falar do livro em si. O volume, enquanto objeto de ver e folhear, representa um trabalho primoroso, com projeto gráfico, capa e ilustrações da designer pernambucana Hallina Beltrão.

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O Antipássaro é uma pequena coletânea (31 poemas) em que se pode reconhecer a poesia de Donizete Galvão. Conhecedor da obra do poeta, o posfaciador Antonio Carlos Secchin ressalta exatamente esse ponto. Ele identifica nos títulos dos livros de Galvão uma sequência de símbolos indicativos de falha (exemplos: Mundo Mudo; Homem Inacabado), na qual também se insere esse antipássaro, um pássaro negativo. Conclui Secchin: “É desse universo de perdas & danos que a poesia de Donizete sempre se abeira".

De fato, não há n’O Antipássaro nenhum desvio do eixo fundamental da poesia de Donizete Galvão. Acredito que os seis poemas ao lado, extraídos do livro, mostram bem isso. O primeiro deles é “Pássaros Urbanos”. Neste poema o autor considera a estranheza dos antipássaros que são as gruas das construções. Nelas, diz, “ave / nenhuma / faz seu / ninho”. Mesmo assim, essas espécies mecânicas “têm as / plumas / mais / vistosas / da cidade”.

As gruas (guindastes), homônimas das fêmeas do grou, destacam-se na paisagem urbana e são um símbolo dos negócios, “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como canta Caetano Veloso. Outras aves, sem voz (“incanoras”) e menos afortunadas, pertencentes à espécie Homo sapiens, “habitam / as junções / dos viadutos / entre trapos / de papelão”.

Neste poema, assim como em vários outros d’O Antipássaro, Donizete dá provas de sua extrema habilidade ao tratar de temas difíceis como esse da injustiça e da desigualdade social sem nunca resvalar para o lugar-comum ou o recado panfletário.

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O próximo poema é “Carta”. Aqui ele revisita o tema da dificuldade de adaptação na cidade grande. Alguém, já residente na metrópole, tenta dissuadir amigos ou parentes que manifestam a intenção de também ir para lá. E mais: esperam do amigo alguma ajuda ou incentivo. O final é patético: “São Paulo é muito grande. / Eu sou muito pequeno.”

No texto “Maio”, o poeta se apresenta em diapasão mais lírico, encantado com as flores de outono dos ipês encontradiços em muitos bairros paulistanos. Mas, para lembrar a constatação de Antonio Carlos Secchin, a beleza dos ipês não cancela o “universo de perdas & danos” no qual se move a poesia de Galvão. As árvores floridas apenas abrigam, por um breve instante, o homem que as aprecia, aliviando-o de sobressaltos. Entende-se, portanto, que a moeda comum não é o idílio dos ipês, mas o desassossego.

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Vem a seguir o poema “Invisíveis”. Conforme está indicado na epígrafe, trata-se de um poema inspirado no livro Homens Invisíveis - Relatos de uma Humilhação Social (Globo, 2004). Seu autor, o psicólogo Fernando Braga da Costa, fez um estudo no qual acompanhou, durante mais de dez anos, o trabalho dos garis da Cidade Universitária da USP, em São Paulo. Braga da Costa constatou que esses trabalhadores são relegados à condição de pessoas “invisíveis”.

O poema de Donizete Galvão retoma esse caso de humilhação social, estendendo-o a outras categorias de trabalhadores humilhados, como os “arrebenta-pedras” (operadores de britadeiras), os recolhedores de lixo, faxineiros, pedreiros e boias-frias.

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No poema “Aquele Mês”, o poeta parece rememorar um momento de extremo sofrimento pessoal, quando passou dias angustiantes num hospital, “em contenda / com a insistente visitante”. Não foi dessa vez que a indesejada visitante conseguiu levá-lo, mas o poema sugere o terror de enfrentar essa sinistra senhora.

Em “Língua-mãe”, o último poema de nossa seleção, o autor mostra um pouco de sua visão sobre a criação poética. Para ele, a poesia representa “uma solidão que vem desde o cordão umbilical”. É também, ao mesmo tempo, uma entidade que nem se revela nem permite que alguém se acerque dela e consiga revelá-la.

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Há ainda uma nota auspiciosa a respeito do livro O Antipássaro: conforme adianta o editor goianense Miguel Jubé, da Martelo, esse volume encerra a publicação de poemas inéditos de Donizete Galvão e dá o primeiro passo no sentido da publicação, pela mesma editora, da poesia completa do autor. Alvíssaras!


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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ERRATA

No boletim anterior, n. 424, ao listar os 16 poetas citados, dei como datas de nascimento e morte do pré-camoniano Sá de Miranda (1481-1558) as mesmas datas de Luís Vaz de Camões (1524?-1580), também presente na lista. Corrijamos: aí estão os dados corretos. No site, o boletim já foi ajustado. Agradeço à poeta Angélica de Carvalho, conterrânea dos dois autores quinhentistas, a identificação do equívoco.

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INÍCIOS ARREBATADORES

Ainda sobre o poesia.net n. 424. Essa edição sobre inícios envolventes de poemas tornou-se uma das mais populares do boletim. Muita gente me enviou comentários, aprovando minha seleção ou apontando a ausência de poemas. Alguns leitores, mais diligentes, chegaram a enviar listas com outros inícios. Isso enseja a possibilidade de um novo boletim — um “Inícios Poderosos 2” —, somente com aberturas de poemas apontadas por leitores. Agradeço a entusiasmada participação.

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LANÇAMENTO

Canções Meninas
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli - Canções meninas A poeta e crítica literária paulistana Mariana Ianelli lança o livro Canções Meninas (Ardotempo, 60 págs.). Volume de arte e poesia, traz poemas de Mariana ilustrados por desenhos e pinturas de sua filha Yolanda, de 2 anos.

Quando:
Sábado, 29/06/2019, às 15h

Onde:
Casa Contemporânea
Rua Capitão Macedo, 370
Vila Mariana
São Paulo, SP


Pássaros falhados


• Donizete Galvão


              



Wlad Safronov - Angel of time
Wlad Safronow, pintor ucraniano, Anjo do tempo


PÁSSAROS URBANOS

ave
nenhuma
faz seu
ninho
nas gruas
das construções

elas próprias
— aves
pernaltas —
erguem
moradas
de pedra

as gruas
têm as
plumas
mais
vistosas
da cidade

outras,
incanoras,
habitam
as junções
dos viadutos
entre trapos
e papelão

muitos
pedem
pela extinção
dessa espécie
tão pouco afeita
às gaiolas




Wlad Safronow - Dreaming
Wlad Safronow, Sonhando


CARTA

Soube que vocês pensam em vender tudo aí e vir de mudança para São Paulo. Pensem bem. São Paulo tem muitas coisas belas, mas que a gente não pode aproveitar. Aqui tudo é muito longe, muito dividido. Não vai dar para ajudar vocês. São Paulo é muito grande.

Eu sou muito pequeno.




Wlad Safronow - Frau mit Korallenfisch
Wlad Safronow, Mulher com peixe coral


MAIO

o ipê
entregou
   suas folhas
ao vento

despido
   explodiu
   em cachos
      púrpura

sob a larga
     copa
     ― abóbada de cores e galhos ―
um homem
encontra abrigo
   nesse manto de roxo e azul

por um instante
      ― olhos voltados para o alto ―
estar vivo
   não lhe traz nenhum sobressalto




Wlad Safronow - Tandem
Wlad Safronow, Tandem


INVISÍVEIS

    Sobre um livro de Fernando Braga da Costa

Homens como
arrebenta-pedra
que insiste
em existir
no estreito
espaço das
frestas
das calçadas

Uns teimosos
que vestem
macacões
cor de laranja
e andam pela
rua correndo
atrás do
caminhão.

Uns com
uniformes
gastos
que dormem
nas calçadas,
na folga do almoço,
em frente ao prédio
em construção.

Outros
que carregam
baldes,
vassouras,
limpam banheiros,
lavam calçadas
e mesas
de escritório.

Aqueles que
se enrolam
em roupas,
saem de casa
pela madrugada
nas carrocerias
e trazem a pele
lapeada.

        Onde estão?
        Que poema habitam?




Wlad Safronow - Peche 2
Wlad Safronow, Anjo do sol nascente


AQUELE MÊS

Corpo. Nudez
exposta
além do limite
da humilhação.

Corpo. Posto
em máscaras.
Entubado. Campo
de agulhas.

Corpo. Sujo
de urina e fezes.
Lavado, manipulado
sobre lençóis.

Corpo. Definhando
nos braços de anjos
em contenda
com a insistente visitante.




Wlad Safronow - Peche 2
Wlad Safronow, Pescaria 2


LÍNGUA-MÃE

palavra
   oca
   eviscerada
   agônica

língua
   usada
   máscara da morte
   vazia

uma solidão que vem desde o cordão umbilical

por mais que se tente
nunca chega a revelar-se
por mais que tente
ninguém chega perto de ti
             poesia





poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2019


• Donizete Galvão
     in O Antipássaro
     organização: Paulo Ferraz e Tarso de Melo
     posfácio: Antonio Carlos Secchin
     Martelo, Goiânia, 2018
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* Mario Quintana, "Só",
  in Caderno H (1973)
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* Imagens: obras de Wlad Safronow (1965), pintor ucraniano