Número 429 - Ano 17

São Paulo, quarta-feira, 21 de agosto de 2019

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«O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...» (Fernando Pessoa) *

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Ruy Espinheira Filho
Ruy Espinheira Filho



Amigas e amigos,

Recém-saído do prelo, chegou-me às mãos o livro Uma História do Paraíso & Outros Poemas (Patuá, 2019), do poeta baiano Ruy Espinheira Filho. Autor de alentada obra, Espinheira Filho reúne nesta coletânea poemas escritos no triênio 2017-2019, conforme indicado na folha de rosto do volume.

No poema que dá título ao livro, o autor constrói, conforme sua imaginação, uma nova visão do paraíso, com direito à presença de Deus, do Cristo e de — pasmem! — Pôncio Pilatos, o romano governador da Judeia, aquele que lavou as mãos. Mais não conto, porque o poema se desenvolve ao correr de nove páginas, e não haveria mesmo como acomodá-lo aqui neste boletim. Ficaremos então somente com os Outros Poemas.

Nesta parte, que compõe o corpo principal do volume, Ruy Espinheira Filho apresenta aos leitores criações fiéis ao seu consagrado estilo, sempre marcado pelo lirismo. Delas, selecionei cinco poemas, transcritos ao lado.

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O primeiro texto da lista é o “Soneto da Biblioteca”, no qual o poeta — certamente um apaixonado pelos livros e pela literatura — promove uma emocionada imbricação da vida do leitor com a vida pulsante que habita os volumes de uma biblioteca. Uma “sala nunca anoitecida” onde, conforme o poema, “Nada adormece. Tudo freme e gera/ luzes e trevas do santo e da fera/ que é o homem, sempre, de alma dolorida.”

O texto seguinte é “Mão”. Nele, o autor — que já ficou conhecido como “o poeta da memória” — relembra o amaríssimo instante em que pôs a palma da não na testa do pai, morto. Vem depois a “Canção da Vida Inteira”, um poemeto de reflexão sobre a vida que passou. Faço aqui duas observações. A primeira é sobre os dias e noites que passaram “levando, para bem longe,/ os sonhos que nos sonharam.”

É interessante essa ideia de que somos, todos, objetos diretos de nossos sonhos, e não o contrário. Eles é que nos empurram, nos conduzem aos acertos e erros, e alimentam nossas expectativas e desesperanças. É assim, numa cançoneta em tom menor, que o poeta descreve nossos passos.

A outra observação vem a propósito do título “Canção da Vida Inteira”. Para quem conhece a poesia de Ruy Espinheira Filho, não é difícil perceber como ele, já faz tempo, cultiva com cuidados de jardineiro os poemas que respiram música. Não é por acaso que ele já publicou uma coletânea chamada A Canção de Beatriz (1990) e outra, bem a calhar, Livro de Canções (2011). Nesse aspecto, o poeta segue a trilha da carioca Cecília Meireles.

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É exatamente de Cecília que trata o próximo texto, o “Soneto Junto a um Livro de Poemas”. Tem-se aí uma aberta e merecida homenagem à autora de Vaga Música e do Romanceiro da Inconfidência. No soneto, o autor invoca o nome da musicalíssima poeta chamando-a de “grande”, depois “bela” e, afinal, “Santa Cecília Meireles”.

Vem agora o último poema da seleção, que é o mais longo dos cinco. Chama-se “O Intruso” e traz um instigante aviso: foi escrito “em parceria com Machado de Assis”. Descobre-se então que o narrador assume a pessoa de Bento Santiago — na intimidade, Bentinho, o marido de Capitu, do romance Dom Casmurro, e revisita a casa materna — a casa de dona Glória.

Bem ao ritmo das rememorações poéticas espinheirianas, o filho de dona Glória descobre que aquela casa não o reconhece mais. Não há essa fidelidade nas coisas. E tudo porque ele mesmo, o inseguro garoto dos namoricos entre as árvores do quintal, também não existe mais. Terá existido algum dia?

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Ruy Espinheira Filho nasceu em Salvador (1942-), mas passou boa parte da infância e da adolescência em cidades do interior da Bahia. É professor aposentado da UFBA, onde atuou nas áreas de comunicação e letras. Estreou em 1973 com o livro Poemas, publicado em parceria com outro destacado poeta baiano, Antonio Brasileiro. De lá para cá, já lançou dezenas de títulos, entre poesia, ficção em prosa, crônicas e textos para crianças.

Entre as reuniões e antologias de sua poesia destacam-se Poesia Reunida e Inéditos (Record, 2ª ed., 1998); Melhores Poemas (Global, 2011); Estação Infinita e Outras Estações (Bertrand Brasil, 2012); e Nova Antologia Poética (Patuá, 2018). O poeta Ruy Espinheira Filho já esteve aqui no poesia.​net em outras edições: número 378 (2017); número 284 (2017); e número 18 (2003).


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado


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À luz da biblioteca


• Ruy Espinheira Filho


              



Oswaldo Guayasamín - Ternura
Oswaldo Guayasamín, equatoriano, Ternura (1989)


SONETO DA BIBLIOTECA

São todos estes livros. Vasta vida
pulsando forte aqui, era após era
de pensamento nítido, quimera,
certezas, corvos de ilusão perdida.

Sim, esta é a sala nunca anoitecida.
Nada adormece. Tudo freme e gera
luzes e trevas do santo e da fera
que é o homem, sempre, de alma dolorida.

São todos estes livros que se falam,
singrando o tempo, em alegria ou pranto,
de tudo o que se criou ou se perdeu.

E em seu silêncio eles jamais se calam
de Beleza e Verdade. E ornam de espanto
o sonho de uma sombra que sou eu.



Oswaldo Guayasamín - Cabeza y mano XX
Oswaldo Guayasamín, Cabeça e mão XX


MÃO

Quando pus a palma da mão
na testa de meu pai
ele não disse nada.

Nem no instante nem
nos últimos 33 anos.

Nada sobre isso
quando nos vemos
em sonhos ou vigília.

Mas um dia, quem sabe,
talvez ele pergunte
por que eu chorava e era tão fria
a minha mão.



Oswaldo Guayasamín - Mercedes Sosa
Oswaldo Guayasamín, Mercedes Sosa


CANÇÃO DA VIDA INTEIRA

... E tantas noites vieram,
que, como os dias, passaram
levando, para bem longe,
os sonhos que nos sonharam.

Depois... Apagou-se a luz,
porque os contos de fadas
já dormem com os meninos
entre páginas fechadas...



Oswaldo Guayasamín - Esperanza
Oswaldo Guayasamín, Esperanza


SONETO JUNTO A UM LIVRO DE POEMAS

Poesia muito acima
do tanto que é pobre, reles.
Linda canção de viver,
grande Cecília Meireles!

Linda canção, linda foto
no livro. Se a visse, Apeles
teria sido maior,
bela Cecília Meireles!

Alta poeta. Agora, aqui,
com humildade te peço
que pela Poesia veles,

o que é velar pelo Mundo,
o que é velar pela Vida,
Santa Cecília Meireles!



Oswaldo Guayasamín - Portrait of Toty Rodriguez
Oswaldo Guayasamín, Retrato de Toty Rodriguez (1967)


O INTRUSO

(Em parceria com Machado de Assis)


I
Logo que sua mãe morreu,
Dom Casmurro foi visitar a casa
da infância e juventude,
porém ela, a casa,
a casa toda,
o desconheceu.

II
No quintal, nada sabiam dele
a aroeira, a pitangueira, o poço,
a caçamba velha e o lavadouro.
O tronco da casuarina,
que ficava ao fundo,
em vez de reto,
como outrora,
tinha agora um ar de ponto de
interrogação,
como se pasmasse diante
do intruso.

III
Correu, então, o Dom, os olhos
pelo ar,
buscando algum pensamento que ali pudesse
ter deixado
e não achou nenhum.

IV
Também não entendeu
o sussurro da ramagem,
que sugeria ser a cantiga
das manhãs novas.
E o grunhido dos porcos lhe pareceu
uma espécie de troça concentrada
e filosófica.

V
Sim, tudo estranho, estranho.
E então deixou,
o Dom,
que demolissem a casa.

VI
Bem, fico pensando nesse homem
do Capítulo CXLIV
e encontro a mim mesmo em casas e cidades
idas e vividas. O intruso,
o estranho
que elas jamais viram antes.
Porque, na verdade, não sou
quem ali esteve e viveu. Sou
outro,
outro ser e outra
vida.

VII
Não pode, pois, haver reconhecimento.
Nem de mim nem de qualquer
na mesma condição. A menos
que tenhamos deixado Argos
à nossa espera,
pois, mesmo quase cego e coberto
de sarna e pulgas,
nos receberá com seu último alento
e nossa última lágrima.
Argos, apenas ele, que,
na verdade,
não reconhece o intruso e sim
o que nele, cão, nunca partiu...

VIII
Mas, afinal, quantos de nós merecem
essa fidelidade de milênios?

IX
Não pode haver diversa conclusão:
acabamos sendo,
todos,
aquele do Capítulo CXLIV,
que se retira como desconhecido porque
nunca realmente esteve ali.

X
Foi outro quem ali esteve,
outro.
E o que vem, o intruso,
não consegue enganar a casa,
a aroeira, a pitangueira, o poço,
a caçamba velha, o lavadouro,
a casuarina,
a cantiga da ramagem e a sabedoria irônica
dos porcos,
que não acreditam em fantasmas.




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2019


Foto: Mário Espinheira


Ruy Espinheira Filho
•   in Uma História do Paraíso & Outros Poemas
     Patuá, São Paulo, 2019
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* Fernando Pessoa, "Hora Absurda", in Obra Poética
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* Imagens: obras de Oswaldo Guayasamín (1919-1999), pintor equatoriano