Número 472 - Ano 19

Salvador, quarta-feira, 1 de setembro de 2021

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«Calo-me, espero, decifro. / As coisas talvez melhorem. / São tão fortes as coisas! // Mas eu não sou as coisas e me revolto.» (Drummond) *

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Autor Atual
Manuel Bandeira, Solano Trindade, João Cabral de Melo Neto


Amigas e amigos,

“Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”, proclama Caetano Veloso em sua canção “Gente”, gravada originalmente no disco Bicho, de 1977. Caetano diz e, naturalmente, todos nós concordamos. Porque a fome, afinal, é algo injusto e eticamente inaceitável. Contudo, a realidade no Brasil, hoje, nega flagrantemente a declaração do compositor baiano. Basta dar alguns passos na rua para constatar a quantidade de gente faminta, sem teto, desempregada, desesperada, pedindo um pedaço de pão.

De acordo com o IBGE, 84,9 milhões de brasileiros (41% da população) são hoje vítimas de fome ou de algum grau de insegurança alimentar. Parte disso se deve à pandemia, mas na verdade já era alto e crescente o número de pessoas lançadas à rua desde pelo menos 2016, portanto bem antes dos estragos do coronavírus. Aliás, a soma de fome com uma pandemia negada e mal enfrentada produz um espetáculo macabro, dantesco.

Diante desse quadro, resolvi organizar uma edição cujo tema é a fome. Reuni então três poemas de três poetas que escreveram sobre esse desagradável assunto — coincidentemente, três autores pernambucanos: Manuel Bandeira (1886-1968), Solano Trindade (1908-1974) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

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Manuel Bandeira
“O Bicho”

Datado de 27 de dezembro de 1947, o poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira, saiu originalmente no livro Belo Belo, publicado no ano seguinte. Nele o poeta expressa seu espanto ao ver na rua um homem esfomeado comendo lixo.

Ao descrever esse espetáculo indecoroso e deprimente, Bandeira mostra a redução do indivíduo humano à condição da animalidade. Na verdade, o bicho anunciado no início do poema (“Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos”) era um homem degradado à sua mais rasa condição de ser vivo. “O bicho, meu Deus, era um homem” — espanta-se o poeta.

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Solano Trindade
“Tem Gente com Fome”

“Gente é pra brilhar”, retorno à letra de Caetano Veloso. Infelizmente, há uma frase bem mais afinado à nossa realidade atual. É o verso que serve como título e refrão ao poema “Tem Gente com Fome”, do escritor e ativista negro Solano Trindade. Publicado pela primeira vez em 1944 no volume Poemas de uma Vida Simples, o texto dá voz ao trem da Estrada de Ferro Leopoldina, que vai pelo caminho denunciando as precárias condições de vida dos subúrbios cariocas.

Solano Trindade foi feliz ao associar a marcha do trem de ferro ao refrão “Tem gente com fome”. Nascido em Recife, Solano foi poeta, pintor, ator, autor teatral e militante do movimento negro e do Partido Comunista. Nos anos 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro e logo depois para São Paulo, onde passou a maior parte da vida. Publicou dois livros de poesia: o citado Poemas de uma Vida Simples (1944) e Cantares ao Meu Povo (1963).

O poema “Tem Gente com Fome” foi musicado por João Ricardo, compositor do grupo Secos & Molhados, e gravado pelo cantor Ney Matogrosso em 1979. Trinta e cinco anos depois de publicado em livro, o grito do trem ainda fazia sentido. Pior é constatar que, deploravelmente, faz ainda muito mais sentido agora, quando o poema já se aproxima dos 80 anos.

Um detalhe: ao musicar o texto de Solano Trindade, João Ricardo não incluiu uma estrofe. Trata-se daquela que, no texto ao lado, corresponde à sequência de estações suburbanas: “Vigário Geral/ Lucas/ Cordovil” etc. Acredito que isso não determinou nenhuma perda para a canção. De todo modo, registro essa sutil diferença entre o poema e a parte dele que se transformou em letra de música.

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João Cabral de Melo Neto
“Morte e Vida Severina”

O último texto desta pequena antologia lírica da fome é um trecho da parte inicial do livro Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Selecionei exatamente os versos no qual o retirante e narrador Severino fala no plural: “Somos muitos Severinos / iguais em tudo na vida”.

Mais adiante, esse homem, que abandona sua terra fugindo da seca e da miséria, discorre (com profundo conhecimento) sobre a fome e a “morte severina” — “que é a morte de que se morre / de velhice antes dos trinta, / de emboscada antes dos vinte, / de fome um pouco por dia”.

Morte e Vida Severina é o poema mais conhecido de João Cabral. Publicado em 1955, foi musicado em 1965 pelo jovem compositor Chico Buarque e encenado em 1966 pelo Teatro da Universidade Católica (TUCA), da PUC de São Paulo, em Nancy, na França. No mesmo ano, o TUCA registrou em disco o áudio da peça. Depois disso, a obra já foi adaptada para o cinema, para a TV e até para desenho animado (veja ao lado).

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Ao longo do texto acima, fiz referências às canções “Gente”, de Caetano Veloso, e “Tem Gente com Fome”, de João Ricardo e Solano Trindade. Achei justo, portanto, adicionar ao lado, após os poemas, videoclipes dessas músicas. Como chave de ouro, incluí também o poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral, apresentado com animações do cartunista pernambucano Miguel Falcão.

Os três poetas aqui citados são todos personagens do século XX. Bandeira nasceu antes de 1900, mas toda a sua vida adulta desenrolou-se no mesmo século em que os outros dois nasceram e morreram. Solano Trindade e João Cabral vieram ao mundo nas primeiras décadas dos 1900, e Cabral, o que permaneceu mais longamente, morreu poucos meses antes do ano 2000. Triste é constatar que a fome, denunciada por eles, ainda assombra o país, avançando sinistramente pelo século XXI. Uma vergonha.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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DALILA TELES VERAS, DOUTORA HONORIS CAUSA

Este boletim já publicou, mais de uma vez, trabalhos da poeta luso-brasileira Dalila Teles Veras. Agora, o poesia.​net manifesta sua alegria ao receber a notícia de que a escritora será laureada este mês com o título de Doutora Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do ABC (UFABC). A honraria lhe é concedida pela sua obra literária e também pelo trabalho cultural desenvolvido no ABC Paulista, onde mora e labora. Parabéns a Dalila Teles Veras, à UFABC e ao povo dessa região paulista. A solenidade será no dia 21/09, às 16h00, transmitida ao vivo nas redes sociais da universidade.


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Tem gente com fome


• Manuel Bandeira  • Solano Trindade 
• João Cabral de Melo Neto


              

Viola Babol - geometric.muse02
Viola Babol, pintora polonesa, Musa Geométrica 02


• Manuel Bandeira

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

    Rio, 27 de dezembro de 1947

    Do livro Belo Belo (1948)



Viola Babol - twins
Viola Babol, Gêmeas


• Solano Trindade

TEM GENTE COM FOME

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

Estação de Caxias
de novo a correr
de novo a dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bonsucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Só nas estações
quando vai parando
começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu

    Do livro Poemas de uma Vida Simples (1944)



Viola Babol - Amaryllis
Viola Babol, Amaryllis


• João Cabral de Melo Neto

MORTE E VIDA SEVERINA

(excerto)


Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.


    Do livro Morte e Vida Severina (1955)



*** DESENHOS E CANÇÕES ***




Morte e Vida Severina: desenho animado de Miguel Falcão



Ney Matogrosso, Tem Gente com Fome (João Ricardo/Solano Trindade)



Caetano Veloso, Gente: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”



poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2021



Manuel Bandeira
      •  “O Bicho”
      in Estrela da Vida Inteira
      José Olympio, Rio de Janeiro, 6a. ed., 1976
Solano Trindade
      •  “Tem Gente com Fome”
      Cantares ao Meu Povo
      Prefácio e seleção: Álvaro Alves de Faria
      Brasiliense, São Paulo, 1981
João Cabral de Melo Neto
      •  “Morte e Vida Severina” (trecho inicial)
      in Poesias Completas (1940-1965)
      José Olympio, Rio de Janeiro, 3a. ed., 1979
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* Carlos Drummond de Andrade, "Nosso Tempo", in A Rosa do Povo (1945)
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* Imagens: obras da pintora polonesa contemporânea Viola Babol (1989-)