Número 487 - Ano 20

Salvador, quarta-feira, 25 de maio de 2022

poesia.net header

«Esta cidade: minha cela. / Habita em mim / sem que eu habite nela.» (Donizete Galvão) *

Compartilhe pelo WhatsApp

facebook 
Florisvaldo Mattos
Florisvaldo Mattos



Amigas e amigos,

O autor baiano Florisvaldo Mattos já esteve três outras vezes nesta página: nas edições n. 396 (2018); n. 281 (2012); e n. 85 (2004). Agora ele retorna, graças a um motivo muito especial: acaba de completar 90 anos (em abril).

Nascido em 1932 em Uruçuca (então Água Preta, distrito de Ilhéus), Florisvaldo é poeta, jornalista, ensaísta e professor universitário. Membro da Academia Baiana de Letras desde 1995, estreou na poesia em 1965, com o livro Reverdor. A partir daí, publicou várias coletâneas, entre as quais Poesia Reunida e Inéditos (Escrituras, 2011); e os dois títulos que servem de base a esta edição: Antologia Poética e Inéditos (Assembleia Legislativa-BA, 2017) e Estuário dos Dias e Outros Poemas (EPP/Caramurê, 2016).

•o•

Uma característica marcante na poesia de Florisvaldo Mattos é sua adesão quase exclusiva ao verso medido. De fato, são poucos os poemas em que ele pratica o verso livre. Aliás, pratica-o muito bem. Exemplo disso é o poema “A Edição Matutina”, uma homenagem post mortem ao cineasta Glauber Rocha, que foi colega do autor no jornalismo baiano. Trechos desse poema estão no boletim n. 396.

Dado o predomínio do metro na poesia florisvaldiana, todos os poemas da minisseleta ao lado obdedecem a formas fixas. Na verdade, são todos sonetos, nos quais prevalece o verso decassílabo. Somente um deles, “Amanheceres”, constitui um sonetilho, no caso uma composição com versos de quatro sílabas.

•o•

Passemos aos poemas. O primeiro é “Água Preta”, antigo nome de Uruçuca. No texto, o poeta parece recordar o momento em que teve de abandonar o ninho para ir estudar em cidade maior. “Na Rua do Apertucho, com tristeza, / me despeço de mim, dos meus amigos”. A nota mais profundamente doída vem no fim: “do telhado / desce o gado manso do tempo, rumo / ao fundo do rio chifrando ausências”. Adeus, Água Preta.

Vem a seguir o sonetilho “Amanheceres”. Trata-se de um exercício em que o poeta, com destreza verbal, condensa em pílula poética o sentimento do ser urbano que “se perde / (...)// nas alegrias / do asfalto mudo”. A conclusão é forte: “Sonhar é tudo”.

•o•

Nos três sonetos à frente, retornamos às recordações de infância e juventude do autor. Em “Velhas Estações de Trem”, o poeta — que viu as ferrovias ainda em plena atividade — descreve com emoção a convivência com as gares de outrora. “Ó trilhos despertados na saudade, / curvas que a mão dos anos enferruja!”. Um soneto de feição inglesa (com dois últimos versos rimando entre si) que traz toda a poesia das velhas estradas de ferro que o Brasil, com os olhos tapados por interesses automobilísticos, simplesmente entregou à ferrugem do tempo.

O soneto “Vozes da Mercadoria” funciona como uma espécie de continuação de “Água Preta”. Naquele, o jovem se despede da vida bucólica. Neste, ele anuncia: “Agita-se o comércio; estou na vila”. E mais: “Na calçada de paralelepípedos / abre-se o sol risonho do dinheiro / (...) / o sacro império da mercadoria”.

No último poema da seleta, “O Menino, o Padre e o Sermão”, o garoto, aspirante a sacristão, conta suas reações na igreja, diante das novenas, das moças em flor e do olhar reprovador do sacerdote.

Que o poeta Florisvaldo Mattos permaneça por muito tempo contando essas deliciosas histórias de um Brasil que a maioria de nós, chegados depois, não tivemos a oportunidade de conhecer. Viva o poeta e viva a poesia.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


•o•

Curta o poesia.​net no Facebook:

facebook


•o•

Compartilhe o poesia.​net

facebook

Compartilhe o boletim nas redes Facebook, Twitter e WhatsApp. Basta clicar nos botões logo acima da foto do poeta.


Velhas estações de trem


• Florisvaldo Mattos


              

Marcos Beccari- aquarela
Marcos Beccari, pintor paulista, Aquarela


ÁGUA PRETA

Água Preta: debruço-me na ponte,
olho o rio que sangra minha infância;
me despeço de mim — lá, do que fui,
do que somente fui, não mais serei.

Na Rua do Apertucho, com tristeza,
me despeço de mim, dos meus amigos.
Imperceptível traço do destino,
com palavras escritas nas paredes,

resiste na água quieta (minha tia
Dasdores, debruçada na janela,
olha a chuva batendo nos gramados).

Do necessário roxo dos telhados
desce o gado manso do tempo, rumo
ao fundo do rio chifrando ausências.


AMANHECERES

Dias virão
sob um céu pálido
e seguirão
sobre chão cálido

e voltarão
num sonho válido.
Palmas de mão
para um inválido

ser que se perde
por tantos dias
por tanto verde

nas alegrias
do asfalto mudo.
Sonhar é tudo.


Marcos Beccari- Aquarela
Marcos Beccari, Aquarela


VELHAS ESTAÇÕES DE TREM

Quando as vejo, assim, ao chão, perdidas
no abandono, quase sonhadoras,
lembro de almas, de vozes, outras vidas,
que contavam no pulso lentas horas.
Ó trilhos dispersados na saudade,
curvas que a mão dos anos enferruja!
Miro paredes gastas; já me invade
a doçura de um tempo sem mão suja.
Ainda vejo passar o maquinista,
o guarda-freios, lépido, o foguista,
a me acender a lenha da memória.
Elas contam um tanto desta história,
a que junta cacau com coronéis,
da passagem custando dois mil réis.


VOZES DA MERCADORIA

Agora adeus às sensações bucólicas.
Agita-se o comércio; estou na vila.
Avisto ruas, becos, uma praça.
Na calçada de paralelepípedos,
abre-se o sol risonho do dinheiro.
Aqui, o recanto da veneração,
que se reserva às tropas de cacau,
ao som das estaladas dos tropeiros;
lá, o sacro império da mercadoria:
tabuletas retumbam seda e mescla,
calças de brim, o luxo dos sapatos;
ali fregueses para casimiras.
Caixeiros de camisa-manga-curta
cantam as novidades dos estoques.


Marcos Beccari- Aquarela
Marcos Beccari, Aquarela


O MENINO, O PADRE E O SERMÃO

Ao pé do padre, visto-me de rei,
pouco menos talvez que sacristão.
O padre olha-me. Sou um rude, sei,
incapaz de encantar-me com o sermão.
Muito mais me embevecem as ladainhas
das novenas de maio, a voz das moças.
Eu queria que todas fossem minhas
(o macaco que é bom não quebra louças).
Padre Luís Sanjuan do alto me olhava,
sem saber de que era que mais eu ria.
O moderado tom com que falava
ao coração, sem vã filosofia?
Era o som das palavras, cristalino,
que fascinava os olhos do menino.




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2022



Florisvaldo Mattos
      • “Água Preta”:
      in Antologia Poética e Inéditos
      Organização do Autor
      Assembleia Legislativa-BA/ALBA, Salvador, 2017

      • “Todos os demais poemas”:
      in Estuário dos Dias e Outros Poemas
      Organização e ilustração Fernando Oberlaender
      EPP (Caramurê), Salvador, 2016
_____________
* Donizete Galvão, "A Cidade no Corpo", in Pelo Corpo (2002)
______________
* Imagens: aquarelas do pintor paulista Marcos Beccari (1987-)