Amigas e amigos,
Como já ocorreu várias vezes na história do poesia.net, cheguei às vésperas de publicar esta edição e ainda não havia
decidido o que fazer. Então, mais uma vez, recorri a uns truques matemáticos (já falei deles aqui) e montei esta página com
quatro poetas já destacados em boletins anteriores.
Os poetas selecionados foram o carioca Vinicius de Moraes (1913-1980); o cearense Francisco Carvalho (1927-2013),
a paulista-italiana Vera Lúcia de Oliveira (1958-); e, por fim, outra paulista, Eunice Arruda (1939-2017).
•o•
Vamos aos poemas. Começamos com Vinicius de Moraes, que apareceu aqui pela primeira vez na
edição n. 12 (março de 2003),
com o poema “A Rosa de Hiroxima”. Escolhi este poema porque a bomba de Hiroxima, detonada pelos
Estados Unidos em 6 de agosto de 1945, fez agora exatos 80 anos.
Na época, como o Japão estava alinhado com os nazistas, entendeu-se a bomba como algo a favor da democracia e até
da paz. Não. Foi um exercício da superpotência que hoje, em decadência, intimida o mundo inteiro.
Segundo estimativa dos americanos, a bomba destruiu 12 quilômetros quadrados da cidade e, segundo as autoridades
japonesas, inutilizou 69% das construções de Hiroxima. Em 2005, a cidade informou que o total de mortos em
decorrência do bombardeio foi 242.437. Este número inclui pessoas vitimadas no momento da explosão e as que
morreram mais tarde em consequência da exposição à cinza nuclear.
Com refinada sensibilidade, o poeta Vinicius de Moraes escreveu o poema “A Rosa de Hiroxima” em 1946. Mais tarde, em 1973, os versos
foram musicados e tornados popularíssimos pela gravação da banda Secos & Molhados, na qual se destacava a voz de Ney Matogrosso.
[Curiosidade: em 2003, ainda não estava em vigor a última reforma ortográfica. Assim, na transcrição
do poema de Vinicius, escrevi “anti-rosa”, com o hífen separando o prefixo. Hoje, a rigor, deveria
escrever “antirrosa”, da mesma forma que “antirracista” e “antirrábico”. Mas é esquisto. Precisa-se
fazer um bom esforço visual para aí enxergar a “rosa”. Então, desculpem: mantive a “anti-rosa”.]
•o•
O próximo poema é “Herói”, escrito pelo poeta Francisco Carvalho e publicado em seu livro Centauros Urbanos (2003).
Neste texto, o poeta traz para o rés do chão a figura do herói. Normalmente, somos instados a entender o herói como personagem
dos romances de capa e espada ou mesmo o personagem das histórias em quadrinhos. Esse, como se diz popularmente, faz coisas
“das quais até Deus duvida”.
O herói de Francisco Carvalho é
bem diferente. Ele é o cidadão “que vai todas as tardes à padaria / mais próxima buscar o pão ainda morno / para
testemunhar o mistério da vida”. Poderia ser você ou seu vizinho da casa em frente.
•o•
Vem a seguir o poema “O osso”, extraído originalmente do livro A Poesia É um Estado de Transe (2010), de
Vera Lúcia de Oliveira. Poeta que se destaca na habilidade de retratar figuras à margem da sociedade letrada e bem
nutrida, Vera Lúcia, neste poema, traça o perfil de uma pessoa despossuída de tudo.
O personagem “tinha uma delicadeza feminina” e, ao mesmo tempo, “amava com seu jeito silencioso / de cão que fica aguardando
um osso”. A descrição, que compara um ser humano a um animal domesticado, já mostra bem o nível de degradação a que essa pessoa
está sujeita. Não é de espantar, portanto, ler mais adiante que o indivíduo “desandou / a rosnar para o mundo”.
O poema “O osso” apareceu aqui, pela primeira vez, no
boletim n. 341,
de outubro, 2015.
•o•
O último poema desta página, “As Poetisas”, foi escrito pela poeta Eunice Arruda e publicado originalmente no livro
A Beira (1999). Neste poema, autora fala das poetas — que “dão poemas / filhos / sombra / e outras possibilidades de abrir /
clareiras na floresta”. Mas os homens devem prestar atenção: elas não podem ser confundidas com “mulher”.
“As Poetisas” apareceu aqui no boletim n. 435,
em novembro de 2019.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
•o•
Visite o poesia.net no Facebook e no Instagram.