Número 557 - Ano 23

Salvador, quarta-feira, 13 de agosto de 2025

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«Quando me visto de pôr do sol, / Os anjos ficam loucos.» (Affonso Manta) *

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nove poetas
Vinicius de Moraes, Francisco Carvalho, Vera Lúcia de Oliveira, Eunice Arruda


Amigas e amigos,

Como já ocorreu várias vezes na história do poesia.​net, cheguei às vésperas de publicar esta edição e ainda não havia decidido o que fazer. Então, mais uma vez, recorri a uns truques matemáticos (já falei deles aqui) e montei esta página com quatro poetas já destacados em boletins anteriores.

Os poetas selecionados foram o carioca Vinicius de Moraes (1913-1980); o cearense Francisco Carvalho (1927-2013), a paulista-italiana Vera Lúcia de Oliveira (1958-); e, por fim, outra paulista, Eunice Arruda (1939-2017).

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Vamos aos poemas. Começamos com Vinicius de Moraes, que apareceu aqui pela primeira vez na edição n. 12 (março de 2003), com o poema “A Rosa de Hiroxima”. Escolhi este poema porque a bomba de Hiroxima, detonada pelos Estados Unidos em 6 de agosto de 1945, fez agora exatos 80 anos.

Na época, como o Japão estava alinhado com os nazistas, entendeu-se a bomba como algo a favor da democracia e até da paz. Não. Foi um exercício da superpotência que hoje, em decadência, intimida o mundo inteiro.

Segundo estimativa dos americanos, a bomba destruiu 12 quilômetros quadrados da cidade e, segundo as autoridades japonesas, inutilizou 69% das construções de Hiroxima. Em 2005, a cidade informou que o total de mortos em decorrência do bombardeio foi 242.437. Este número inclui pessoas vitimadas no momento da explosão e as que morreram mais tarde em consequência da exposição à cinza nuclear.

Com refinada sensibilidade, o poeta Vinicius de Moraes escreveu o poema “A Rosa de Hiroxima” em 1946. Mais tarde, em 1973, os versos foram musicados e tornados popularíssimos pela gravação da banda Secos & Molhados, na qual se destacava a voz de Ney Matogrosso.

[Curiosidade: em 2003, ainda não estava em vigor a última reforma ortográfica. Assim, na transcrição do poema de Vinicius, escrevi “anti-rosa”, com o hífen separando o prefixo. Hoje, a rigor, deveria escrever “antirrosa”, da mesma forma que “antirracista” e “antirrábico”. Mas é esquisto. Precisa-se fazer um bom esforço visual para aí enxergar a “rosa”. Então, desculpem: mantive a “anti-rosa”.]

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O próximo poema é “Herói”, escrito pelo poeta Francisco Carvalho e publicado em seu livro Centauros Urbanos (2003). Neste texto, o poeta traz para o rés do chão a figura do herói. Normalmente, somos instados a entender o herói como personagem dos romances de capa e espada ou mesmo o personagem das histórias em quadrinhos. Esse, como se diz popularmente, faz coisas “das quais até Deus duvida”.

O herói de Francisco Carvalho é bem diferente. Ele é o cidadão “que vai todas as tardes à padaria / mais próxima buscar o pão ainda morno / para testemunhar o mistério da vida”. Poderia ser você ou seu vizinho da casa em frente.

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Vem a seguir o poema “O osso”, extraído originalmente do livro A Poesia É um Estado de Transe (2010), de Vera Lúcia de Oliveira. Poeta que se destaca na habilidade de retratar figuras à margem da sociedade letrada e bem nutrida, Vera Lúcia, neste poema, traça o perfil de uma pessoa despossuída de tudo.

O personagem “tinha uma delicadeza feminina” e, ao mesmo tempo, “amava com seu jeito silencioso / de cão que fica aguardando um osso”. A descrição, que compara um ser humano a um animal domesticado, já mostra bem o nível de degradação a que essa pessoa está sujeita. Não é de espantar, portanto, ler mais adiante que o indivíduo “desandou / a rosnar para o mundo”.

O poema “O osso” apareceu aqui, pela primeira vez, no boletim n. 341, de outubro, 2015.

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O último poema desta página, “As Poetisas”, foi escrito pela poeta Eunice Arruda e publicado originalmente no livro A Beira (1999). Neste poema, autora fala das poetas — que “dão poemas / filhos / sombra / e outras possibilidades de abrir / clareiras na floresta”. Mas os homens devem prestar atenção: elas não podem ser confundidas com “mulher”.

“As Poetisas” apareceu aqui no boletim n. 435, em novembro de 2019.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Quatro poemas revisitados


• Vinicius de Moraes  • Francisco Carvalho
• Vera Lúcia de Oliveira  • Eunice Arruda

              



Kazimir Malevich - Hope-2016
Cornelia Hernes, pintora norueguesa, Hope (2016)


• Vinicius de Moraes

A ROSA DE HIROXIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada



Kazimir Malevich - Self.portrait.with.red.and.black-2018
Cornelia Hernes, Autorretrato com vermelho e preto (2018)


• Francisco Carvalho

HERÓI

Herói não é o que vai irrigar as lavouras
da morte nos campos de batalha.
Não é o que volta das trincheiras minadas
de explosivos com medalhas no peito
mutilações no corpo e na alma.

Herói não semeia tulipas de sangue
ramalhetes de napalm e rosas de átomo.
— Não é o aventureiro que fez xixi na lua.

— Herói é o que vai todas as tardes à padaria
mais próxima buscar o pão ainda morno
para testemunhar o mistério da vida.



Kazimir Malevich - Pierrot-2016
Cornelia Hernes, Pierrô (2016)


• Vera Lúcia de Oliveira

O OSSO

tinha uma delicadeza feminina
amava com seu jeito silencioso
de cão que fica aguardando um osso
depois deu para morder a sombra
da memória, deu para sofrer
por alguma coisa que lhe faltava
não sabia bem quando a perdera
mas foi por isso que desandou
a rosnar para o mundo



Kazimir Malevich - Portrait.of.liv-2019
Cornelia Hernes, Retrato de Liv (2019)


• Eunice Arruda

AS POETISAS

Elas se amparam

Em papéis
palavras
no brilho
Faca cortando as águas

Os homens
tentam entendê-las
com abraços mágicos
colares
Elas dão poemas
filhos
sombra
e outras possibilidades de abrir
clareiras na floresta

Os homens riscam suas peles
com carinhos beijos
profundos

Mas
elas se amparam
estão
sempre atentas
à bifurcação dos caminhos
à mudança de lua

Os homens as confundem, às
vezes
com mulher



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Carlos Machado, 2025



 • Vinicius de Moraes
    in Antologia Poética
    José Olympio, 20a. ed., Rio de Janeiro, 1981
 • Francisco Carvalho
    in Centauros Urbanos
    Imprece, Fortaleza, 2003
 • Vera Lúcia de Oliveira
    in A Poesia É um Estado de Transe
    Portal, São Paulo, 2010
 • Eunice Arruda
    in Visível ao Destino - Obra Completa e Inéditos
    Organização: André Arruda M Cesar [arrudA]
    Patuá, São Paulo, 2019
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* Affonso Manta, "O Cavalheiro sem Anéis" in Antologia Poética (2013)
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* Imagens: quadros da pintora norueguesa Cornelia Hernes (1979-)