Número 558 - Ano 23

Salvador, quarta-feira, 27 de agosto de 2025

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«Nenhuma presença é mais real que a falta.» (Myriam Fraga) *

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Nic Cardeal
Nic Cardeal


Amigas e amigos,

Esta edição começa com uma pequena história. Na semana passada, o Instagram me deu avisos de que alguém havia reproduzido poemas da palestina Heba Abu Nada (poesia​.net n. 543, dez-2024). Fui verificar. Fiquei muito bem impressionado: as transcrições eram perfeitas, citavam todas as fontes. Percebi também que a pessoa mostrava empatia com os palestinos massacrados em Gaza, como a poeta Heba Abu Nada.

A autora da página era Nic Cardeal (nome literário de Eunice Maria Cardeal), poeta, contista e cronista em destaque nesta edição. Nascida em Brusque-SC, em 1963, Nic reside em Curitiba desde 2006. Advogada, atuou durante 27 anos na Justiça Federal. É integrante do movimento Mulherio das Letras desde sua criação, em 2017. Livros publicados: Sede de céu (poemas, Penalux, 2019); Costurando ventanias (contos e crônicas, Penalux, 2021); e A menina que queria entender das águas (infantojuvenil, Caravana, 2023).

Uma característica impressionante da atividade literária de Nic Cardeal é que seus escritos, em boa parte, antes de se tornarem livros, foram apresentados na página Escrevo Porque Sou Rascunho, no Facebook. Assim, a seleção de poemas ao lado veio desse perfil na rede social. Mantive, inclusive, ao pé de cada poema, a data registrada pela autora.

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Passemos à leitura. O primeiro poema selecionado é “D(r)esistência”, palavra que combina ações contraditórias. O ponto de partida, como se pode ver desde o primeiro verso, é o clássico “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira. Mas aqui o eu poético logo anuncia sua desistência de ir para o lugar paradisíaco anunciado pelo poeta.

O motivo dessa renúncia se revela no decorrer da estrofe seguinte: “o trem anda fora dos trilhos”, “as mulheres sangrando” e “a dor de um desamor medonho / daqueles homens que vêm, vão, / e matam”. Aí está o motivo: o absurdo crescimento das estatísticas de feminicídio e violências de todo tipo contra mulheres.

Mas — pensaremos você e eu — fugir para Pasárgada não seria uma solução? Escolada em tantos sofrimentos, ela (sim, é uma mulher quem fala) sabe que Pasárgada é apenas uma utopia. Aliás, uma utopia que não parece prometer benesses para quem não é “amigo do rei” nem sonha ter a mulher que quiser na cama que bem escolher.

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No segundo poema ao lado, “Nuvem de agosto”, Nic Cardeal retorna à própria infância. A poeta fala da “menina que eu fui”, expressão que repete várias vezes no poema e também em outros textos rememorativos. Aqui ela relata uma de suas primeiras aventuras em torno das palavras e seus significados, reais ou figurativos.

Vem a seguir “Linguagem”, uma reflexão da mulher adulta que certamente tem tudo a ver com as observações da menina que aprendeu a se relacionar com as palavras: “depois de pronunciada, / uma palavra / vira abismo”.

O próximo poema, “Escombros”, é dedicado aos mortos na Faixa de Gaza. A autora lamenta a impotência da poesia, recurso incapaz de “deter projetos [projéteis] estúpidos”. E termina lamentando “essa condição humana / demasiadamente insana / capaz de massacrar inocentes / a troco / de nada / nada / NA - DA!”

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No poema “Medos”, ao ritmo de versos curtos e bem marcados, a poeta se dedica a pensar sobre seus temores. “Não sei dizer / por que existem / os meus medos / não me atrevo / a detê-los / são rebeldes / são peraltas / pulam muros / abrem asas / voam longe / voltam fortes / me devoram / bem aos goles”.

Para fechar a amostra, vem o poema “Viver verá”. Nele, a autora — que, como já vimos, adora escarafunchar por dentro das palavras — começa refletindo que “viver é verbo intransitivo / autossuficiente / não pede qualquer complemento”. Contudo, a análise sintática não contenta a poeta, uma vez que o verbo viver pede, sim, uma infinidade de coisas: “água, casa, comida”, poesia, primaveras etc.

Como solucionar essa flagrante contradição? Subvertendo a gramática, a poeta conclui: “Viver é verbo imperativo, / hiperativo, / de fazer profundidades na alma da gente”. E o verbo continua assim, até o fim de cada um de nós. “Quem viver / verá / — transitivamente”.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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LANÇAMENTO DUPLO

Nada nos resta senão cantar
• Luíza Mendes Furia

Abalando o centro de um dia azul
• Ruy Proença

LançamentoA Editora Cavalo Azul lança duas antologias poéticas em São Paulo: Nada nos resta senão cantar, de Luíza Mendes Furia; e Abalando o centro de um dia azul, de Ruy Proença. As duas coletâneas fazem parte da Coleção Albatroz e contêm poemas de todos os livros anteriores dos autores, mais uma seleção de inéditos. Cada volume traz ainda um longo estudo crítico assinado pelo poeta e ensaísta Alexandre Bonafim, que é também o organizador das antologias.

Quando: sexta-feira, 26/09/2025, a partir das 18h30.

Onde: Canto - Centro Cultural - Av. Dr. Arnaldo, 1638 - São Paulo-SP.

Atenção: a data do lançamento acima mudou, por alteração do evento feita pelos organizadores.


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Nuvem de agosto


• Nic Cardeal


              



Loui Jover - theres.a.place-2016.jpg
Loui Jover, pintor australiano, Há um lugar (2016)


D(R)ESISTÊNCIA

Desisti de ir pra Pasárgada

o trem anda fora dos trilhos, eu sei
as loucas somos nós aqui soltas
sem conseguir comer
nem o pão que o diabo amassou
quem dera beber o vinho
o sangue do cristo (destituído)
as mulheres sangrando
muito mais do que entre as pernas
— no esquerdo do peito —
a dor de um desamor medonho
daqueles homens que vêm, vão,
e matam

desisti de ir pra Pasárgada

a passarada ainda canta
na cortina de fumaça
a fogueira alheia das desgraças
outras desgraças tão nuas
não adianta a rosa vermelha num dia
n’outro a vermelhidão no rosto
o tapa esfolando até pingar no prato
o vermelho sangue
o vermelho batom
a bota o chute a arma o cuspe
quanto nos custará a culpa?
(tu cospes ou engoles tua culpa?)

se você é amigo do rei
pode ir

eu fico
insisto
e resisto
‘inda que seja vã
tão efêmera esperança’

		(08.03.2020)

NUVEM DE AGOSTO

quando a menina que eu fui 
viu no calendário o fim de agosto
perguntou ao pai o que era desgosto
o pai, sempre silente
nem se deu ao trabalho de mostrar os dentes
apenas olhou zangado
bem fundo 
nos olhos da menina que eu fui 

[não precisou mais nada:
a menina que eu fui 
pela primeira vez
sentiu o gosto de um desgosto]

a mãe, percebendo que a tristeza 
havia feito casa nos olhos da menina que eu fui 
tratou logo de mudar o rumo da prosa
e estendeu sua mão:
— quer provar um pedaço de ‘nuvem congelada’?

a menina que eu fui 
bem depressa respondeu:
— isso não é nuvem não, mãe! 
tanto faz, disse a mãe
— um suspiro assim docinho
vai a gosto, de bom gosto!

a menina que eu fui
finalmente voltou a rir 
olhou alegre
bem fundo
nos olhos do pai:
— pai, por que o senhor não prova
uma nuvem de dar gosto?

		(30.08.2024) 



Loui Jover - summer.rain.jpg
Loui Jover, Chuva de verão


LINGUAGEM

Se queres fazer alguma alteração 
na palavra dita,
canta-a,
faz dela uma fotografia
em sépia,
recorta-a com a tesoura da tua voz,
estende-a qual fio condutor
de saudades nunca esquecidas.

Porém, não te esqueças:
depois de pronunciada,
uma palavra
vira abismo
— de um lado, 
o que se disse,
do outro, 
talvez perto ou distante, 
quase longínquo,
um mundo inteiro traduzido
em olhos de espanto,
céu noturno esburacado de estrelas,
compreensões tão tardias.

		(24.01.2024)

ESCOMBROS

Um poema
é fraco:
linha fina
rompendo palavras
mal costuradas
em angústias 

Um poema
não é capaz
de 
acalmar homens em fúria 
acalentar o choro da solidão 
acender o sol
fazer brilhar a lua 

Um poema
não diminui a pobreza
nem estanca a ferida
não sacia a sede
nem cobre os buracos da fome
no olhar desesperado da criança 
entre escombros pressentidos

Um poema
tão inútil 
para deter projetos [projéteis] estúpidos 
de humanos
a dizimar humanos
em nome da soberania
                  [tirania]
Um poema
— punhado de palavras 
sem serventia —
só faz doer ainda mais fundo
                  tão profundo 
em mim
essa condição humana
demasiadamente insana
capaz de massacrar inocentes
a troco
de nada
      nada
      NA - DA!

		(2023 — pelos mortos nos conflitos da Faixa de Gaza)



Loui Jover - the.reader-2014.jpg
Loui Jover, A leitora (2014)


MEDOS

Não sei dizer 
por que tenho medos 
sei que os tenho 
sou dona de cada um
proprietária absoluta
escritura lavrada 
em purgatório
fiel depositária 
de um por um
quando me esqueço 
eles saem a passeio
vão ao largo 
vão ao fundo
bem ao leito
rio seco
enxurradas
em segundos.

Não sei dizer 
por que existem
os meus medos
não me atrevo
a detê-los
são rebeldes
são peraltas 
pulam muros
abrem asas
voam longe
voltam fortes
me devoram 
bem aos goles.

Não sei dizer 
porque persistem
os meus medos
são altivos
são vorazes
andam sozinhos
pelos ares
fazem festa
ou alarde
destemidos 
são meus medos.

Não sei dizer
porque tenho medos
só sei dizer
que os temo 
um por um
em segredo
bem por isso 
são meus medos. 

		(08.06.2017)

VIVER VERÁ

Dizem que viver é verbo intransitivo,
autossuficiente,
não pede qualquer complemento,
mas em mim se esvazia
— sozinho não sobrevive —
pede água, casa, comida,
amor, amigos, poesia, 
loucura, sonhos, contrastes,
primaveras acesas,
réstias de outonos,
chuvas passageiras,
algumas lágrimas, 
alegrias inteiras,
muitos versos,
objetos diretos, indiretos, 
controversos.

Viver é verbo imperativo,
hiperativo,
de fazer profundidades na alma da gente
— até que finalmente 
seja gasta a carne,
seja fraca a mente,
nossos corpos sejam depostos,
devolvidos como sementes
ao canteiro de obras 
de um mundo quase indecente.
Quem viver
verá
— transitivamente.

		(21.02.2017)




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Carlos Machado, 2025


 Nic Cardeal
   • Da página Escrevo Porque Sou Rascunho (Facebook).
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* Myriam Fraga, "Calendário: Março", in Femina (1996)
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* Imagens: desenhos doa pintor Loui Jover (1967-), australiano nascido na Iugoslávia