Amigas e amigos,
Esta edição começa com uma pequena história. Na semana passada, o Instagram me
deu avisos de que alguém havia reproduzido poemas da palestina Heba Abu Nada (poesia.net
n. 543, dez-2024). Fui verificar.
Fiquei muito bem impressionado: as transcrições eram perfeitas, citavam todas as fontes. Percebi
também que a pessoa mostrava empatia com os palestinos massacrados em Gaza, como a poeta Heba Abu Nada.
A autora da página era Nic Cardeal (nome literário de Eunice Maria Cardeal), poeta, contista e cronista em destaque
nesta edição. Nascida em Brusque-SC, em 1963, Nic reside em Curitiba desde 2006. Advogada, atuou durante 27 anos na Justiça
Federal. É integrante do movimento Mulherio das Letras desde sua criação, em 2017. Livros publicados: Sede de céu
(poemas, Penalux, 2019); Costurando ventanias (contos e crônicas, Penalux, 2021); e A menina que queria entender das águas
(infantojuvenil, Caravana, 2023).
Uma característica impressionante da atividade literária de Nic Cardeal é que seus escritos, em boa parte, antes de se tornarem livros,
foram apresentados na página Escrevo Porque Sou Rascunho,
no Facebook. Assim, a seleção de poemas ao lado veio desse perfil na rede social. Mantive, inclusive, ao pé de cada poema,
a data registrada pela autora.
•o•
Passemos à leitura. O primeiro poema selecionado é “D(r)esistência”, palavra que combina ações contraditórias. O ponto de partida,
como se pode ver desde o primeiro verso, é o clássico “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira. Mas aqui o eu poético
logo anuncia sua desistência de ir para o lugar paradisíaco anunciado pelo poeta.
O motivo dessa renúncia se revela no decorrer da estrofe seguinte: “o trem anda fora dos trilhos”, “as mulheres sangrando”
e “a dor de um desamor medonho / daqueles homens que vêm, vão, / e matam”. Aí está o motivo: o absurdo crescimento
das estatísticas de feminicídio e violências de todo tipo contra mulheres.
Mas — pensaremos você e eu — fugir para Pasárgada não seria uma solução? Escolada em tantos sofrimentos, ela (sim, é uma mulher quem fala) sabe que
Pasárgada é apenas uma utopia. Aliás, uma utopia que não parece prometer benesses para quem não é “amigo do rei” nem sonha
ter a mulher que quiser na cama que bem escolher.
•o•
No segundo poema ao lado, “Nuvem de agosto”, Nic Cardeal retorna à própria infância.
A poeta fala da “menina que eu fui”, expressão que repete várias vezes no poema e também em outros textos rememorativos.
Aqui ela relata uma de suas primeiras aventuras em torno das palavras e seus significados, reais ou figurativos.
Vem a seguir “Linguagem”, uma reflexão da mulher adulta que certamente tem tudo a ver com as observações da menina que aprendeu
a se relacionar com as palavras: “depois de pronunciada, / uma palavra / vira abismo”.
O próximo poema, “Escombros”, é dedicado aos mortos na Faixa de Gaza. A autora lamenta a impotência da poesia,
recurso incapaz de “deter projetos [projéteis] estúpidos”. E termina lamentando “essa condição humana / demasiadamente insana /
capaz de massacrar inocentes / a troco / de nada / nada / NA - DA!”
•o•
No poema “Medos”, ao ritmo de versos curtos e bem marcados, a poeta se dedica a pensar sobre seus temores. “Não sei dizer /
por que existem / os meus medos / não me atrevo / a detê-los / são rebeldes / são peraltas / pulam muros / abrem asas /
voam longe / voltam fortes / me devoram / bem aos goles”.
Para fechar a amostra, vem o poema “Viver verá”. Nele, a
autora — que, como já vimos, adora escarafunchar por dentro das
palavras — começa refletindo que “viver é verbo intransitivo / autossuficiente / não pede qualquer complemento”.
Contudo, a análise sintática não contenta a poeta, uma vez que o verbo viver pede, sim, uma infinidade de coisas:
“água, casa, comida”, poesia, primaveras etc.
Como solucionar essa flagrante contradição? Subvertendo a gramática, a poeta conclui: “Viver é verbo imperativo, /
hiperativo, / de fazer profundidades na alma da gente”. E o verbo continua assim, até o fim de cada um de nós.
“Quem viver / verá / — transitivamente”.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
•o•
LANÇAMENTO DUPLO
Nada nos resta senão cantar
• Luíza Mendes Furia
Abalando o centro de um dia azul
• Ruy Proença
A Editora Cavalo Azul lança duas antologias poéticas em São Paulo: Nada nos resta senão cantar,
de Luíza Mendes Furia;
e Abalando o centro de um dia azul, de
Ruy Proença.
As duas coletâneas fazem parte da
Coleção Albatroz e contêm poemas de todos os livros anteriores dos autores, mais uma seleção de inéditos.
Cada volume traz ainda um longo estudo crítico assinado pelo poeta e ensaísta
Alexandre Bonafim,
que é também o organizador das antologias.
Quando: sexta-feira, 26/09/2025, a partir das 18h30.
Onde: Canto - Centro Cultural - Av. Dr. Arnaldo, 1638 - São Paulo-SP.
Atenção: a data do lançamento acima mudou, por alteração do evento feita pelos organizadores.
•o•
Visite o poesia.net no Facebook e no Instagram.