
Ana Cecília de Sousa Bastos
Amigas e amigos,
Nesta edição, o poesia.net apresenta poemas do livro A Marca do Barro (Confraria do Vento, 2025), da poeta
baiana Ana Cecília de Sousa Bastos. Quem acompanha este boletim já conhece Ana Cecília, que esteve aqui em várias outras
oportunidades: nas edições n. 93,
n. 478 e
n. 536.
O livro A Marca do Barro divide-se em duas partes: “O barro dessas horas” e “O barro de que somos feitos”. Em ambas a
autora inclui poemas e prosas poéticas. Para esta página, selecionei cinco poemas. Deixei de lado os textos em prosa,
especialmente por causa de sua extensão.
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Passemos à leitura dos poemas selecionados. O primeiro deles é “O barro dessas horas”. Neste texto a autora faz um passeio
autobiográfico, listando os lugares onde viveu. O mar da Bahia, o solo vermelho do Crato-CE, o barro candango de Brasília.
Conclui que sua escrita é como argila e se proclama uma “artesã ceramista”. Cerâmica de palavras.
Vem a seguir o poema “Anônima”. Trata-se, na verdade, de uma crônica em versos motivada por uma tragédia cotidiana: uma mulher,
na China, morre imprensada após a quebra de uma esteira rolante. “Anônima entre bilhões de humanos. / Anônima na engrenagem”.
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Em “O Rio”, um momento brevíssimo de reflexão lírica. As “águas de memória”, o tempo fluindo na correnteza dos dias — “e a poesia
que vibra, / imóvel / alerta”.
No poema “Pelo Muro Mágico da Brincadeira” alinham-se recordações de infância. E, mais uma vez, a conexão com o barro: “um mesmo
barro, / um mesmo coração de menino ou de menina, / um mesmo desespero de chegar(...)”.
Por fim, no poema “Abraço Verde”, a autora põe o foco em lembranças do Crato, cidade cearense onde passou a infância. “Deixei
meu coração numa ondulação desta serra”, diz. E completa: “Depois fiquei a me procurar, / fingindo ter saído para sempre, /
disfarçada de estrangeira.”
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Ana Cecília de Sousa Bastos (Salvador, 1954) é psicóloga e professora aposentada da Universidade Federal da
Bahia e da Universidade Católica de Salvador. Publicou as seguintes coletâneas de poesia: Uma Vaga Lembrança do Tempo
(Prêmio Copene, 1999); A Impossível Transcrição (1ª ed., 2007; 2ª ed. ampliada, 2021); Escritos Extraídos
do Silêncio (2015); Contemplação do Mar (Confraria do Vento, 2022); e A Marca do Barro (Confraria do Vento, 2025).
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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LANÇAMENTOS
1. Poesia em dose dupla
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Nada nos resta senão cantar
• Luíza Mendes Furia
Abalando o centro de um dia azul
• Ruy Proença
A Editora Cavalo Azul lança duas antologias poéticas em São Paulo: Nada nos resta senão cantar,
de Luíza Mendes Furia;
e Abalando o centro de um dia azul, de
Ruy Proença.
As duas coletâneas fazem parte da
Coleção Albatroz e contêm poemas de todos os livros anteriores dos autores, mais uma seleção de inéditos.
Cada volume traz ainda um longo estudo crítico assinado pelo poeta e ensaísta
Alexandre Bonafim,
que é também o organizador das antologias.
Quando: sexta-feira, 26/09/2025, a partir das 18h30.
Onde: Canto - Centro Cultural - Av. Dr. Arnaldo, 1638 - São Paulo-SP.
2. Ficção
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Quando eu era velha
• Fernanda Pompeu
A jornalista, cronista e romancista Fernanda Pompeu lança Quando Eu Era Velha (Editora Labrador, 2025), uma ficção que procura descobrir o que é envelhecer.
Quando: sábado, 04/10/2025, das 16h às 19h.
Onde: Livraria Drummond - Conjunto Nacional - Av. Paulista, 2073 - São Paulo-SP.
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• Ana Cecília de Sousa Bastos
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Anastasiya Matveeva, pintora russa, Mulher apaixonada
O BARRO DESSAS HORAS
O barro dessas horas,
matéria de poesia.
Forma bruta dura
dos dias que passam.
O barro dessas horas.
Argila e trabalho.
Forma indefinida súbito vida
na roda do oleiro.
Também eu, artesã ceramista
no barro desses dias e dessas horas.
Sou feita do ancestral barro vermelho do Crato.
Trago nos olhos e na alma o eterno mar da Bahia.
Pisei um dia o vermelho solo de Brasília,
a poeira fina cobrindo os dias,
os móveis,
o respiro.
Sob a aparência algo cosmopolita,
o mesmo barro candango.
Ali onde sonhos viram pedra
em beleza ou desalento.
O barro não floresce,
sedimenta em mim escrita e versos,
formas incubadas no barro das horas.
Escrita como argila.
Argila para o corpo envelhecido.
Argila para a pele da alma
em dias rubros de pasmo e dor.
Ainda busco o Jardim do Éden,
mesmo se ora nada vejo senão o barro,
sem seu ornamento de flores.
ANÔNIMA
Imprensada na engrenagem de carrinhos
de supermercado, morreu, na China, uma mulher.
A esteira rolante quebrou e ela ficou presa
entre carrinhos.
Anônima entre bilhões de humanos.
Anônima na engrenagem.
Máquina, compras, a vida de bilhões, impessoais.
Sua vida, sua memória, sua estrela,
suas crianças talvez,
ali imprensadas.
Nunca poderia ter sabido de sua existência.
Do outro lado do mundo,
sua morte dói.
Anastasiya Matveeva, Duas
O RIO
O rio leva e lava
águas de memória e limo.
Correnteza.
Leva a mim mesma,
como se lhe pertencesse,
e a poesia que vibra,
imóvel,
alerta.
PELO MURO MÁGICO DA BRINCADEIRA
Tempo em suspenso,
vozes,
movimento.
Mágicas cortinas que tudo envolvem,
até mesmo o olhar austero, imediato e alheio.
Ali estou agora transportada, surpassando distâncias.
Posso sentir a intensidade,
o momento,
presente pleno,
a vida.
Gritos, luta, emoções extremas,
vividas sem transição ou limite,
todos juntos.
Um poema era música:
De que são feitos os meninos,
de que são feitas as meninas?
De poeira,
terra,
água.
De terra molhada de chuva —
extensão de nossos corpos de criança,
barro em que nos plantamos até hoje.
Nariz escorrendo.
Pés descalços,
Pele rajada, arranhões,
lanhuras que nem doem,
ou que se esquecem de doer.
Irmãos e primos, um só organismo,
cor de terra, cor de criança,
um mesmo barro,
um mesmo coração de menino ou de menina,
um mesmo desespero de chegar,
exercício lúdico dessa aflição de busca,
eterna companheira.
E o fim, a meta?
Brincadeira é coisa que não tem fim,
nem precisa ter,
existe em si mesma,
acontecendo incessante,
coração disparado.
Vozes, ímpeto,
vultos em labirintos
de claros-e-escuros.
Uma eventual fogueira,
vaga-lumes,
besouros e sapos,
estrelas cintilantes,
euforia e pranto,
a vida em desabalada carreira.
Frêmito, ânsia.
Alegria, sofreguidão.
Infância.
Anastasiya Matveeva, Mulher com pavão
ABRAÇO VERDE
Isto também é o Crato:
um grande abraço verde.
A serra abraça e é em seu colo que nos reunimos em festa.
Olho em torno e há quietude.
Os lugares cheios de infância seguem em mim,
fraternos.
Suas árvores, águas e bichos me embalam
e comovem.
Por aquela fresta,
naquele olhar,
minha adolescência ainda espia.
Das histórias que me contam, parece que a terra,
uma vez acolhedora,
é agora a que pode trair e decepcionar.
A terra,
a cidade cada vez mais urbana,
o rural que se esfacela.
A serra,
seus silêncios e sua verdade.
As poucas palavras
e as palavras de infinita mágoa.
Deixei meu coração numa ondulação desta serra.
Aqui fui eu mesma de um modo inteiro e por uma vez.
Depois fiquei a me procurar,
fingindo ter saído para sempre,
disfarçada de estrangeira.
Mas aqui estou:
nos olhos que me olham e em mim,
neste imenso afeto à flor da pele,
nas palavras ocultas nas horas do dia,
nesta agonia,
neste sabor de verdade.
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