Número 560 - Ano 23

Salvador, quarta-feira, 24 de setembro de 2025

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«Escrevemos cada vez mais / para um mundo cada vez menos.» (Alberto da Cunha Melo) *

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Fernando Campanella
Fernando Campanella


Amigas e amigos,

Neste edição n. 560, o poesia.​net revisita a obra de Fernando Campanella (Pouso Alegre-MG, 1953-), poeta que já esteve aqui em 2013, no boletim n. 296.

Desta vez, o boletim apresenta poemas de três livros digitais do autor, organizados em autoedições: Antiqua; Minas Aderit; e Sagração do Ócio. Para a pequena amostra ao lado, selecionei dois poemas de cada um desses volumes.

Comecemos a leitura pelos dois textos extraídos de Minas Aderit. O poeta explica que este título, com a palavra latina aderit, pode ser traduzido como “Minas está presente”. Comecemos com A cappella, um poema brevíssimo, uma saudação quase religiosa ao solo mineiro. O texto também sugere um canto, a plenos pulmões e céu aberto, composto apenas de voz, sem acompanhamento instrumental.

O poeta se dirige a Minas, canta para niná-la e “para que em mim sonhes” — uma complicada operação psicológica mediante a qual o torrão mineiro vai sonhar dentro da pessoa que o acalenta.

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Fernando Campanella também é fotógrafo, e tem por hábito empreender viagens pelo interior de seu estado natal. Nessas excursões fotografa pessoas, paisagens, plantas, animais, sempre com um olhar de perscrutação poética.

É assim que encontra lugares como o “Cemitério de São Sebastião das Três Orelhas”, situado em Gonçalves, no sul de Minas: “Aqui, entre três pedras, jazem / o sr. José Arvino e dona Maria de Jesus. / Aqui dormem minérios, / sonham calcários — / o silêncio é história / e velas perpétuas choram”.

Além do próprio nome do lugar, São Sebastião das Três Orelhas — um achado poético —, a descrição do cemitério abre espaço para muito pensar. Quem teriam sido o sr. José Arvino e dona Maria de Jesus, que lá dormem para sempre, no silêncio dos minerais?

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Passemos para os dois poemas do livro Antiqua. No primeiro deles, “Cantilena”, o poeta se põe a ouvir o cantar dos grilos num jardim. No texto seguinte, “A Emily Dickinson”, o sujeito poético se dirige à escritora estadunidense do século XIX: “Emily, Emily, / o que há em ti / que dedilha / cordas tão ternas em mim?”

Vem, por fim, a dupla de poemas extraída do volume Sagração do Ócio. O primeiro texto é homônimo do livro. Trata-se de uma reflexão existencial, escrita num dia de aniversário do poeta. “Transito pelo tempo dos pássaros: / quem me conta os anos, / quem na memória me guarda?”.

Poema voltado para dentro, “Sagração do ócio” certamente tem esse título porque descreve um momento de repouso, quando o eu poético se dispõe a ficar à toa, “de papo para a tarde”, pensando. Como o poeta revela em seus textos uma forte inclinação religiosa, decidiu atribuir caráter sagrado aos seus silenciosos pensamentos de aniversário.

Agora, o último poema, “A Uma Flor”. Num diálogo com uma flor que “posa” para o fotógrafo, o poeta atribui vaidades humanas à sua floral “modelo”.

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Natural de Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais, o poeta e fotógrafo Fernando Campanella (1953-) é, no cartório civil, Antonio Fernando Cruz. “O sobrenome Campanella”, escreve ele, “vem da família de minha mãe, o qual adotei como nome artístico (...)”.

Graduado em Letras (português e inglês), fez cursos de aperfeiçoamento em língua inglesa nos Estados Unidos e na Inglaterra. Foi também professor de português e inglês em Pouso Alegre. Publicou, em edições do autor, seis livros de poesia: O Assento Vazio; Cartas ao Eu; Esfinge Revisitada; Minas Aderit; Antiqua; e Sagração do Ócio. É membro da Academia Pouso-alegrense de Letras.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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LANÇAMENTOS


1. Poesia em dose dupla
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Nada nos resta senão cantar
• Luíza Mendes Furia

Abalando o centro de um dia azul
• Ruy Proença

LançamentoA Editora Cavalo Azul lança duas antologias poéticas em São Paulo: Nada nos resta senão cantar, de Luíza Mendes Furia; e Abalando o centro de um dia azul, de Ruy Proença. As duas coletâneas fazem parte da Coleção Albatroz e contêm poemas de todos os livros anteriores dos autores, mais uma seleção de inéditos. Cada volume traz ainda um longo estudo crítico assinado pelo poeta e ensaísta Alexandre Bonafim, que é também o organizador das antologias.

Quando: sexta-feira, 26/09/2025, a partir das 18h30.

Onde: Canto - Centro Cultural - Av. Dr. Arnaldo, 1638 - São Paulo-SP.


2. Ficção
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Quando eu era velha
• Fernanda Pompeu

LançamentoA jornalista, cronista e romancista Fernanda Pompeu lança Quando Eu Era Velha (Editora Labrador, 2025), uma ficção que procura descobrir o que é envelhecer.

Quando: sábado, 04/10/2025, das 16h às 19h.

Onde: Livraria Drummond - Conjunto Nacional - Av. Paulista, 2073 - São Paulo-SP.


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Sagração do ócio


• Fernando Campanella


              



August Macke - sailing-boat-on-the-tegernsee-c.1910
August Macke, pintor alemão, Veleiro no Tegernsee (c. 1910)


A CAPPELLA

Minas de minhas almas,
eu te batizo em nome da mãe
e te embalo a cappella
para que em mim sonhes —
e já não me pesas
e já não me dóis.

CEMITÉRIO DE SÃO SEBASTIÃO DAS TRÊS ORELHAS (Gonçalves, sul de MG)

Aqui, entre três pedras, jazem
o sr. José Arvino e dona Maria de Jesus.
Aqui dormem minérios,
sonham calcários —
o silêncio é história
e velas perpétuas choram.

O cemitério de São Sebastião
é um universo a cappella
onde a humanidade se despe
corruíras descansam
e se agarram as gavinhas.



August Macke - the-hat-shop-1913
August Macke, A chapelaria (1913)


CANTILENA

O solitário cri de um grilo
se acasala a outros cris
e crispa de sonora eternidade
a sonolência úmida
de um jardim.
Mas o mínimo diz o máximo.
Para a grila,
basta a monocórdia orgia
do grilo em cio no espaço.

A EMILY DICKINSON

Emily, Emily,
o que há em ti
que dedilha
cordas tão ternas em mim?
O que é? — mas não me digas —
um certo arco no céu
que transcende as cores,
uma escova
que varre etéreos mares
ou um translúcido trevo
de onde bebes
e então flutuas
como delicado bem-te-vi.



August Macke - Saint George
August Macke, São Jorge (1912)


SAGRAÇÃO DO ÓCIO

Hoje, no dia dos meus anos,
saio da toca das palavras
e vou festejar no telhado
por horas ali ficando, um pombo
ou um tímido gato,
de papo para a tarde virado.

Hoje, não mais sou um bicho doído
nem trago o gosto antigo
de um paletó
ou de um guarda-chuva, pendurados.

Transito pelo tempo dos pássaros:
quem me conta os anos,
quem na memória me guarda?

Se a luz incide, sei que o dia perdura
e me ilumina por dentro esse fato.
Quando escurece, vou dançar conforme a sombra,
contar estrelas intermináveis
ou adormecer no anonimato.

Mas não quero agora falar de sombras —
a noite, eu sei, a noite já é bem outro trato.

A UMA FLOR

Hoje é dia de fotos.
Oh, delicada, universal vaidade,
seria impressão ou recolhes as pétalas
ocultando alguma ruga
que mal desponta?

Mas não me respondas.
Alguns segredos melhor se guardam
no faz de conta.




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Carlos Machado, 2025


 Fernando Campanella
   • “A cappella” e “Cemitério de São Sebastião das Três Orelhas”
      in Minas Aderit
      Ed. do autor, Pouso Alegre-MG, s/d
   • “Cantilena”, “A Emily Dickinson”
      in Antiqua
      Ed. do autor, Pouso Alegre-MG, s/d
   • “Sagração do ócio” e “A uma flor”
      in Sagração do ócio
      Ed. do autor, Pouso Alegre-MG, s/d
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* Alberto da Cunha Melo, "Casa Vazia", in Dois Caminhos e Uma Oração (2003)
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* Imagens: quadros de August Macke (1887-1914), pintor impressionista alemão.