Número 561 - Ano 23

Salvador, quarta-feira, 15 de outubro de 2025

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«Assim é o amor: mortal e navegável.» (Eugénio de Andrade) *

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Adão Ventura
Adão Ventura


Amigas e amigos,

O poeta mineiro Adão Ventura (1939-2004) esteve aqui pela primeira vez sete anos atrás, na edição n. 413. Na época, montei um boletim baseado em livros avulsos do autor. Agora ele retorna, graças ao lançamento de A Cor da Pele - Poesia Reunida, volume organizado, prefaciado e anotado por Fabrício Marques, também poeta e igualmente mineiro, para a editora Círculo de Poemas.

Nascido em Santo Antônio do Itambé, na região central de Minas Gerais, Adão Ventura graduou-se em direito pela UFMG, trabalhou na redação do jornal Suplemento Literário de Minas Gerais, foi professor convidado na Universidade do Novo México (1973), nos Estados Unidos, e presidente da Fundação Palmares (1990-1994).

O livro A Cor da Pele reúne toda a obra de Ventura, que inclui os seguintes títulos: Abrir-se um Abutre ou Mesmo Depois de Deduzir-se Dele o Azul (1970); As Musculaturas do Arco do Triunfo (1975); A Cor da Pele (1980); Jequitinhonha - Poemas do Vale (1980; 2ª ed., revista e ampliada, 1997); Texturaafro (1992); e Litanias de Cão (2002). Há também um título póstumo, Costura de Nuvens (2006), antologia organizada por Jaime Prado Gouvêa e Sebastião Nunes.

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Para montar a seleção de poemas ao lado, tive a preocupação de pinçar textos diferentes dos já apresentados no boletim n. 413. Mas passemos à leitura. O primeiro poema é “A Cor da Pele”, expressão que se tornou título de um livro de 1980 e também da atual poesia reunida.

Neste poema, os versos curtos são rápidos e repetitivos como chicotadas: “a cor da pele / saqueada / e vendida. // a cor da pele / chicoteada / e cuspida // a cor da pele / camuflada / e despida”. Trata-se de um texto que serve bem como amostra icônica da poesia de Adão Ventura a partir de seu terceiro livro, quando o autor decide trazer para sua criação poética as marcas de sua ancestralidade afro-brasileira.

No texto destaca-se ainda a estrofe final, não por acaso isolada como uma parte “II” do poema: “a cor da pele / esfolada / em banho-maria”. Com isso, o poeta lembra que a seção de vergastadas, quase sempre associada ao passado, é também um processo de cozimento lento e, com outros formatos, estende-se até hoje.

No próximo poema, “Procissão”, Adão Ventura descreve uma cena de religiosidade popular mineira, com velas acesas, cortejo percorrendo ruas e fiéis de joelhos. Gente que espera “o milagre”.

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Vêm a seguir três poemas, todos com o mesmo título, "Iam", que versam sobre o mesmo assunto: as diferenças no modo de vida do interior de origem do poeta (lavadeiras, remédios caseiros, viola, forró) e a secura capitalista da cidade grande. Em Belo Horizonte, diz o poema, “tudo parece falso — plastificado, / até o amor”. Além disso, é muita correria por nada, ou por “dê cá aquela palha”.

Ainda no mesmo tom, o poema “Festa em Diamantina” descreve uma festa popular, também na região de origem de Adão Ventura. O texto organiza uma longa lista de personagens (“cumpadre Chico Preto, sanfoneiro”, “Sá Maria Castora, minha madrinha de Santo Antônio do Itambé”, mais parentes, moça com flor no cabelo, cavaleiros, dança, cachaça — e “o namoro e a viola comendo fundo no coração”.

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No texto seguinte, “Poema da Morte de um Pai”, o poeta se rende às dores da perda e às lembranças de seu genitor, José Ferreira dos Reis (1905-1988). Registra com carinho o dia a dia do homem, no trabalho da roça, com enxadas, no transporte de mercadorias, com burros subindo e descendo montanhas mineiras. No final, o filho consternado enxerga o pai, menino, reencontrando-se com “seu Teodoro da Fazenda”, como era conhecido o avô.

O pai, José Ferreira dos Reis, vulto José Teodoro, era arrieiro (uma espécie tropeiro-chefe) e bisneto de escravizados, pelo lado paterno. Os avós maternos eram de origem indígena. Adão teve três irmãos.

Se no texto anterior o poeta reverencia o pai, em “Identidade” a homenageada é a mãe, Sebastiana de José Teodoro, lavadeira de roupa para as famílias de Itambé. Mais uma vez, a descrição dos trabalhos domésticos termina com uma deliciosa lembrança de filho pequeno: “Vem cantar cantiga / de ninar / para mim”.

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Agora, os últimos poemas da miniantologia ao lado. Primeiro, a “Oração da Pedra”, que bem poderia, sem trocadilho, chamar-se oração da perda. Aqui, o poeta elenca diferentes formas de perder. Curiosamente, o poema repete cinco vezes o verbo “perder”. Nas quatro primeiras, nunca deixa claro o objeto perdido. Supõe-se, portanto, que se está falando de prejuízos dos mais variados. Na última vez, o que se perde é “o anzol / de fisgar / o sol”. De fato, um enorme prejuízo.

Por fim, o último poema, “Nesta mão”. Nele, o poeta oferece, literalmente, um “testamento / todo timbrado em armaduras e / distâncias”. E o que deixa o testamenteiro? A resposta está na última estrofe, que vale a pena citar na íntegra: “Indico apenas as correntes que / possuo no nó do sangue, / herança corrosiva de comarcas / de muitas eras. / — O meu mundo é limitado por / selos, números e ossos”.

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No posfácio ao livro A Cor da Pele - Poesia Reunida, Fabrício Marques traça um esboço biobibliográfico de Adão Ventura. Assim, ficamos sabendo que os dois primeiros livros de Ventura (aqueles dois de títulos longuíssimos) pouco têm a ver com o poeta que se revela a partir de A Cor da Pele (1980).

Escreve Fabrício Marques: “Com A Cor da Pele e Jequitinhonha, Adão alcança sua síntese poética, abandonando a poesia mais próxima da prosa dos dois primeiros livros e investindo em vocabulário do cotidiano e em versos econômicos, dos quais todo o excesso foi depurado, ficando só o sumo do que precisa ser dito”.

A Poesia Reunida de Adão Ventura também inclui o artigo “A Cor da Pele”, de 1981, do professor mineiro Silviano Santiago. Nesse artigo, Silviano faz uma leitura pioneira do livro de Adão. Num momento em que quase não havia obras poéticas patentemente voltadas para a negritude, Silviano afirma:

“A originalidade da poesia de Adão advém do sentimento da cor da pele. A cor da pele: algo de pessoal e intransferível, e ao mesmo tempo algo de coletivo e histórico. O homem se descobre negro na tessitura da pele, e nesta vê as marcas da escravidão e do degredo, e sente os sofrimentos e a Mãe-África”. A propósito, veja abaixo sobre o lançamento de uma biografia de Silviano Santiago, atualmente com 89 anos.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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LANÇAMENTOS


Presente do Acaso - Um ensaio autobiográfico sobre Silviano Santiago
• João Pombo Barile

LançamentoO jornalista João Pombo Barile lança Presente do Acaso - Um Ensaio Biográfico Sobre Silviano Santiago (Editora Autêntica, 2025). O livro, uma reportagem literária, parte de uma longa série de entrevistas com Silviano Santiago, professor, ensaísta e romancista, ganhador do Prêmio Camões de 2022. No lançamento, autógrafos do biógrafo e do biografado.

Quando: terça-feira, 04/11/2025, às 19h.

Onde: Livraria Travessa - Rua Visc. de Pirajá, 572 - Ipanema - Rio de Janeiro-RJ .


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Face de Outono
• Maria Thereza Noronha

LançamentoA poeta Maria Thereza Noronha lança Face de Outono (Editora Sopa no Mel, 2025). Organizado e prefaciado
por Ivo Korytowski, o livro tem texto da contracapa assinado por Alexei Bueno.

Quando: sexta-feira, 24/10/2025, às 18h.

Onde: Café Lamas - Rua Marquês de Abrantes, 18 - Flamengo - Rio de Janeiro-RJ.




A cor da pele


• Adão Ventura


              



Marc Chagall - o violinista-1912-13
Marc Chagall, pintor belorrusso, O Violinista (1912-13)



A COR DA PELE

I

a cor da pele
saqueada 
e vendida.

a cor da pele
chicoteada
e cuspida.

a cor da pele
camuflada
e despida.

a cor da pele
vomitada
e engolida.

II

a cor da pele
esfolada
em banho-maria. 

PROCISSÃO

gente
de velas
na mão

vela-se
ao santo.

entre as
curvas
das ruas

curva-se
ao santo.
no dobrar
das esquinas

dobram-se
ao santo
os joelhos genuflexos
e puros para o milagre.



Marc Chagall - Saint Jean Cap Ferrat-1952
Marc Chagall, Saint Jean Cap Ferrat (1952)


IAM

acho que a gente poderia ficar por aqui mesmo,
sentar no pé desses montes,
falar com as lavadeiras,
aprender ciência de remédios caseiros,
beber muita cachaça,
escutar modas de viola
— namorar, dançar forró
— espiar a lua crescer na encosta da serra.


IAM

não sei não. mas aqui a gente
conversa assuntos
que na Capital necas/nadas.
lá é aquela gente correndo
— corredeira sem fim
pra qualquer decá aquela palha.


IAM

na Capital tudo parece falso — plastificado,
até o amor.

FESTA EM DIAMANTINA

				À Eliete Ribas
				In memoriam

É cumpadre Chico Preto, sanfoneiro de Dom Joaquim,
Sá Maria Castora, minha madrinha de Santo Antônio
					[do Itambé,
a marujada do Serro, o congado de Milho Verde,
meu Tio José, garimpeiro de Datas, enfiado em botinas
e terno novo.
É pau de sebo, banho de cachoeira,
moça com sempre-viva nos cabelos,
mascate de Curvelo,
raizeiro de Santo Antônio da Coluna,
cavaleiro de Mãe dos Homens,
a dança e a cachaça do Mercado,
o namoro e a viola comendo fundo no coração.



Marc Chagall - The-Soldier-Drinks-1911-12
Marc Chagall, O Soldado Bebe (1911-12)


POEMA DA MORTE DE UM PAI
(José Ferreira dos Reis - 1905-1988)

— Que cesse o barulho das enxadas,
das cantigas de eito
— Que a madrinha da tropa
interrompa o curso
de seus passos
em territórios do Serro,
Santo Antônio do Itambé,
Baguari, Folha Larga,
Iapanhoacanga
e São Miguel & Almas de Guanhães.

E José,
novamente menino,
descalço, chapeuzinho de palha,
aguilhada na mão,
a se encontrar
com seu Teodoro da Fazenda. 

IDENTIDADE

Sebastiana Ventura de Souza
Sebastiana de Minas Gerais
Sebastiana de Minas
Sebastiana de Tal

Vem limpar o chão
vem lavar a roupa
vem enxugar a louça

Vem cantar cantiga
de ninar
para mim.



Marc Chagall - window over a garden-1917
Marc Chagall, Janela sobre um jardim (1917)


ORAÇÃO DA PEDRA

Perder
por amor
ou morte.

Perder
por dor
ou corte.

Perder
para o tempo
na haste
do desgaste.

Perder
por fogo
ou fôlego.

Perder 
o anzol
de fisgar
o sol. 

NESTA MÃO

Nesta mão eu te trago a
estrada suja de suor,
nela escrevi meu nome, dela
reconheci firma,
muitos anos se passaram até eu 
chegar aqui,
com este testamento
todo timbrado em armaduras e 
distâncias.

Indico apenas as correntes que
possuo no nó do sangue,
herança corrosiva de comarcas
de muitas eras.
— O meu mundo é limitado por
selos, números e ossos. 



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Carlos Machado, 2025


 Adão Ventura
      in A Cor da Pele - Poesia Reunida
      Organização, prefácio e notas de Fabrício Marques
      Círculo de Poemas, São Paulo, 2025
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* Eugénio de Andrade, "O Amor", in Obscuro Domínio (1971)
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* Imagens: quadros de Marc Chagall (1887-1985), pintor belarrusso-francês.