Amigas e amigos,
O poeta mineiro Adão Ventura (1939-2004) esteve aqui pela primeira vez sete anos atrás, na
edição n. 413.
Na época, montei um boletim baseado em livros avulsos do autor. Agora ele retorna, graças ao lançamento
de A Cor da Pele - Poesia Reunida, volume organizado, prefaciado e anotado por
Fabrício Marques,
também poeta e igualmente mineiro, para a editora Círculo de Poemas.
Nascido em Santo Antônio do Itambé, na região central de Minas Gerais, Adão Ventura graduou-se em direito
pela UFMG, trabalhou na redação do jornal Suplemento Literário de Minas Gerais, foi professor
convidado na Universidade do Novo México (1973), nos Estados Unidos, e presidente da Fundação Palmares (1990-1994).
O livro A Cor da Pele reúne toda a obra de Ventura, que inclui os seguintes títulos:
Abrir-se um Abutre ou Mesmo Depois de Deduzir-se Dele o Azul (1970); As Musculaturas do Arco do Triunfo
(1975); A Cor da Pele (1980); Jequitinhonha - Poemas do Vale (1980; 2ª ed., revista e ampliada, 1997);
Texturaafro (1992); e Litanias de Cão (2002). Há também um título póstumo, Costura de Nuvens (2006),
antologia organizada por Jaime Prado Gouvêa e Sebastião Nunes.
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Para montar a seleção de poemas ao lado, tive a preocupação de pinçar textos diferentes dos já apresentados no
boletim n. 413. Mas passemos à leitura. O primeiro poema é “A Cor da Pele”, expressão que se tornou título de
um livro de 1980 e também da atual poesia reunida.
Neste poema, os versos curtos são rápidos e repetitivos como chicotadas: “a cor da pele / saqueada / e vendida.
// a cor da pele / chicoteada / e cuspida // a cor da pele / camuflada / e despida”. Trata-se de um texto que serve
bem como amostra icônica da poesia de Adão Ventura a partir de seu terceiro livro, quando o autor decide trazer
para sua criação poética as marcas de sua ancestralidade afro-brasileira.
No texto destaca-se ainda a estrofe final, não por acaso isolada como uma parte “II” do poema: “a cor da pele /
esfolada / em banho-maria”. Com isso, o poeta lembra que a seção de vergastadas, quase sempre associada ao passado,
é também um processo de cozimento lento e, com outros formatos, estende-se até hoje.
No próximo poema, “Procissão”, Adão Ventura descreve uma cena de religiosidade popular mineira, com velas acesas,
cortejo percorrendo ruas e fiéis de joelhos. Gente que espera “o milagre”.
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Vêm a seguir três poemas, todos com o mesmo título, "Iam", que versam sobre o mesmo assunto: as diferenças no
modo de vida do interior de origem do poeta (lavadeiras, remédios caseiros, viola, forró) e a secura capitalista
da cidade grande. Em Belo Horizonte, diz o poema, “tudo parece falso — plastificado, / até o amor”.
Além disso, é muita correria por nada, ou por “dê cá aquela palha”.
Ainda no mesmo tom, o poema “Festa em Diamantina” descreve uma festa popular, também na região de origem de Adão
Ventura. O texto organiza uma longa lista de personagens (“cumpadre Chico Preto, sanfoneiro”, “Sá Maria
Castora, minha madrinha de Santo Antônio do Itambé”, mais parentes, moça com flor no cabelo, cavaleiros, dança,
cachaça — e “o namoro e a viola comendo fundo no coração”.
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No texto seguinte, “Poema da Morte de um Pai”, o poeta se rende às dores da perda e às lembranças de seu genitor, José
Ferreira dos Reis (1905-1988). Registra com carinho o dia a dia do homem, no trabalho da roça, com enxadas, no
transporte de mercadorias, com burros subindo e descendo montanhas mineiras. No final, o filho consternado
enxerga o pai, menino, reencontrando-se com “seu Teodoro da Fazenda”, como era conhecido o avô.
O pai, José Ferreira dos Reis, vulto José Teodoro, era arrieiro (uma espécie tropeiro-chefe) e bisneto de
escravizados, pelo lado paterno. Os avós maternos eram de origem indígena. Adão teve três irmãos.
Se no texto anterior o poeta reverencia o pai, em “Identidade” a homenageada é a mãe, Sebastiana de José Teodoro,
lavadeira de roupa para as famílias de Itambé. Mais uma vez, a descrição dos trabalhos domésticos termina com
uma deliciosa lembrança de filho pequeno: “Vem cantar cantiga / de ninar / para mim”.
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Agora, os últimos poemas da miniantologia ao lado. Primeiro, a “Oração da Pedra”, que bem poderia, sem trocadilho,
chamar-se oração da perda. Aqui, o poeta elenca diferentes formas de perder. Curiosamente, o poema repete cinco
vezes o verbo “perder”. Nas quatro primeiras, nunca deixa claro o objeto perdido. Supõe-se, portanto, que se
está falando de prejuízos dos mais variados. Na última vez, o que se perde é “o anzol / de fisgar / o sol”.
De fato, um enorme prejuízo.
Por fim, o último poema, “Nesta mão”. Nele, o poeta oferece, literalmente, um “testamento / todo timbrado em
armaduras e / distâncias”. E o que deixa o testamenteiro? A resposta está na última estrofe, que vale a pena
citar na íntegra: “Indico apenas as correntes que / possuo no nó do sangue, / herança corrosiva de comarcas /
de muitas eras. / — O meu mundo é limitado por / selos, números e ossos”.
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No posfácio ao livro A Cor da Pele - Poesia Reunida, Fabrício Marques traça um esboço biobibliográfico
de Adão Ventura. Assim, ficamos sabendo que os dois primeiros livros de Ventura (aqueles dois de títulos
longuíssimos) pouco têm a ver com o poeta que se revela a partir de A Cor da Pele (1980).
Escreve Fabrício Marques: “Com A Cor da Pele e Jequitinhonha, Adão alcança sua síntese poética,
abandonando a poesia mais próxima da prosa dos dois primeiros livros e investindo em vocabulário do cotidiano
e em versos econômicos, dos quais todo o excesso foi depurado, ficando só o sumo do que precisa ser dito”.
A Poesia Reunida de Adão Ventura também inclui o artigo “A Cor da Pele”, de 1981, do professor mineiro
Silviano Santiago. Nesse artigo, Silviano faz uma leitura pioneira do livro de Adão. Num momento em que quase
não havia obras poéticas patentemente voltadas para a negritude, Silviano afirma:
“A originalidade da poesia de Adão advém do sentimento da cor da pele. A cor da pele: algo de pessoal e intransferível,
e ao mesmo tempo algo de coletivo e histórico. O homem se descobre negro na tessitura da pele, e nesta vê as marcas
da escravidão e do degredo, e sente os sofrimentos e a Mãe-África”. A propósito, veja abaixo sobre o lançamento de
uma biografia de Silviano Santiago, atualmente com 89 anos.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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LANÇAMENTOS
Presente do Acaso - Um ensaio autobiográfico sobre Silviano Santiago
• João Pombo Barile
O jornalista João Pombo Barile lança Presente do Acaso - Um Ensaio Biográfico
Sobre Silviano Santiago (Editora Autêntica, 2025). O livro, uma reportagem
literária, parte de uma longa série de
entrevistas com Silviano Santiago, professor, ensaísta e romancista, ganhador do
Prêmio Camões de 2022. No lançamento, autógrafos do biógrafo e do biografado.
Quando: terça-feira, 04/11/2025, às 19h.
Onde: Livraria Travessa - Rua Visc. de Pirajá, 572 - Ipanema - Rio de Janeiro-RJ .
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Face de Outono
• Maria Thereza Noronha
A poeta
Maria Thereza Noronha
lança Face de Outono (Editora Sopa no Mel, 2025).
Organizado e prefaciado
por Ivo Korytowski, o livro tem texto da contracapa assinado por Alexei Bueno.
Quando: sexta-feira, 24/10/2025, às 18h.
Onde: Café Lamas - Rua Marquês de Abrantes, 18 - Flamengo - Rio de Janeiro-RJ.