Número 563 - Ano 23

Salvador, quarta-feira, 19 de novembro de 2025

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«Sonhar é acordar-se para dentro.» (Mario Quintana) *

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Luíza Mendes Furia
Luíza Mendes Furia


Amigas e amigos,

A poeta em destaque nesta edição, Luíza Mendes Furia, já esteve aqui em duas outras ocasiões, nos boletins n. 370 e n. 168. Retorna agora, trazida pelo recente lançamento de sua antologia poética, Nada nos resta senão cantar (Cavalo Azul, 2025).

Organizada pelo poeta, professor e ensaísta Alexandre Bonafim, essa antologia contém poemas extraídos de livros da autora e também materiais inéditos. Além de fazer a seleção dos textos, Bonafim escreveu um ensaio crítico que figura como prefácio do livro.

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Passemos à leitura. Os quatro primeiros poemas da pequena seleta ao lado encontram-se originalmente no livro Inventário da solidão (1998). Em “Canção”, a autora exibe claramente sua inclinação ao lirismo melodioso: “Canto o que vem comigo desde antes / e são modulações do mesmo grito”.

Vale também destacar o final do poema, que faz referência a “palavras / como se fossem de vidro”. Palavras translúcidas, reluzentes e frágeis. No poema seguinte, “Morada”, a mesma afinação: “Ergui minha casa na noite / sem muros / Ao longe o rio da infância / e seu eterno murmúrio”.

No prefácio da antologia, Alexandre Bonafim assinala, a respeito do lirismo de Luíza Mendes Furia: “Cecília Meireles é a referência mais evidente, tanto pelo tratamento musical do verso quanto pela articulação entre o íntimo e o cósmico, o efêmero e o eterno”.

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“Infância - 3” é a terceira parte de um poema chamado “Infância”. Nele, a poeta revê, filosoficamente, seus tempos de meninice: “o vestidinho pregueado / alguma trança / que se desfez ao vento / cariciando teus cabelos finos”. A conclusão é doída, mas sempre conforme a música: “Revisito tua imagem cotidianamente / (...) Porque o passado / é um presente que perdura”.

Observe-se o duplo sentido do substantivo “presente”, criativamente associado ao passado. É uma oferenda, regalo — ou o tempo de antes que se estende e permanece ativo até agora?

Avancemos para o poema “Verão”. Aqui a poeta transfere para o corpo as manifestações da mais quente e luminosa estação do ano, “bolha de Tempo” que explode no período matutino. “Dói e queima / o dia todo”. O alívio só vem durante a noite, que traz ao corpo seu “cataplasma translúcido”.

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Os dois poemas seguintes provêm do livro Vênus em Escorpião. A história dessa coletânea pode ser contada em capítulos. Primeiro, esses poemas zodiacais receberam uma publicação pessoal da autora, de tiragem limitada. Somente leitores mais próximos (entre os quais me incluo) tiveram o privilégio de lê-los. Publiquei alguns poemas de Vênus em Escorpião no boletim n. 168, de 2006.

Em 2016, o livro saiu, em edição pública, pela Editora Patuá. O boletim n. 370, de 2017, mostrou mais cinco poemas zodiacais. Agora, extraí mais dois da antologia, “XVII” e “XXV – Vésper”.

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Sobre os poemas todos de Vênus em Escorpião, permito-me repetir aqui um trecho do que escrevi em 2006: “Sempre pensei comigo que um grande poeta se revela de várias formas. Uma delas, sem dúvida, é na capacidade de escrever poemas de amor e, mais ainda, poemas eróticos. A explicação é simples: o tema é tão velho, tão batido, que só um talento especial consegue extrair dele alguma emoção nova e legítima. Luíza Mendes Furia realiza esse feito”.

Se alguém ainda tiver alguma dúvida sobre essa afirmação, basta ler os poemas poemas “XVII” e “XXV – Vésper” ao lado e, mais ainda, consultar os dois outros boletins, aqui indicados, com poemas de Vênus em Escorpião.

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Agora, para finalizar nossa leitura, dois poemas inéditos incluídos na antologia Nada nos resta senão cantar. Ambos vêm do livro Lições da Casa, cujos textos recebem números como títulos. O primeiro, “Lições da Casa - 4”, consiste na apreciação de uma paisagem, que começa de forma radiosa: “A mulher que pendurou a toalha na janela / não sabe que aquilo é um poema”.

No texto final, “Lições da Casa - 8”, o eu poético imagina o próprio rosto, numa fotografia antiga, a cumprimentá-lo hoje. “É o passado vivo / me chamando”, deduz. E, numa concessão à “vaidade das vaidades” (alô, Eclesiastes!), vai mais além: supõe que “se a alma tem um rosto / há de ser ainda aquele”. Creio que, assim como eu, todos os leitores concordam: por que a face de nossa alma haveria de ter a aparência de pessoa mais velha? Alma tem de ser bem aprumada — e bonita!

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Nascida em Caçapava-SP (1961), Luíza Mendes Furia é jornalista, poeta e tradutora. Aos 16 anos publicou seu primeiro livro de poesia, Madrugada e Outros Poemas (1978). Participou de diversas antologias e também publicou poemas em jornais, revistas e sites literários. Seus livros seguintes foram Inventário da Solidão (Giordano, 1998) e Vênus em Escorpião, primeiro editado em tiragem limitada (2001) e depois publicado pela Editora Patuá (2016).

A autora publicou ainda Incisões no branco (Penalux, 2022). Agora, a antologia Nada nos resta senão cantar (Cavalo Azul, 2025) inclui textos de livros anteriores e também inéditos, reunidos nos títulos Caderno Secreto e Poemas Duros.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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LANÇAMENTO EM SALVADOR

Vários poetas baianos lançam quatro livros no mesmo evento, todos publicados pela Editora Cavalo Azul.

Quatro livros


■ Vieram me chamar para
ver o anjo

Antologia poética

• Carlos Machado

■ Antologia Selvagem
Um bestiário da poesia brasileira contemporânea

• Diversos Autores

■ Concerto para alaúde e eucaliptos ao vento
Antologia poética

• Antonio Brasileiro

■ Navalha Aberta
Haicais

• Johny Guimarães

Quando: Quarta-feira, 26/11/2025, às 18h.

Onde: Academia de Letras da Bahia
Av. Joana Angélica, 198
Nazaré, Salvador-BA

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LANÇAMENTO EM SÃO PAULO

Duas antologias poéticas são lançadas na Pauliceia pela Editora Cavalo Azul.

Duas antologias

■ Escrever como as águias
Antologia poética

• Rosana Piccolo

■ Vieram me chamar para
ver o anjo

Antologia poética

• Carlos Machado

Quando: Sexta-feira, 05/12/2025, a partir das 19h.

Onde: Canto - Centro Cultural
Av. Dr. Arnaldo, 1638 (Próx. Metrô Sumaré)
São Paulo-SP.

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Palavras de vidro


• Luíza Mendes Furia


              


Anastasia Matveeva - Mulher e Cézanne
Anastasia Matveeva, pintora russa, Mulher e Cézanne


CANÇÃO

Canto o que vem comigo desde antes
e são modulações do mesmo grito

Como os grilos que ora tracejam a noite
com seu canto simplesmente folha transformado em vida.

Hoje, que hei de dizer-te?
Que esteve claro o dia e turva a vista

Que nada retive de seu esplendor
já outonal, senão um ritmo

Este que faz as mãos acariciar as palavras
como se fossem de vidro.

MORADA

Ergui minha casa na noite
sem muros
Ao longe o rio da infância
e seu eterno murmúrio

Cultivei jardins rebeldes
amantes da água e do vento
e neles passeio os olhos
quando estou sedenta.

Ergui minha casa na noite
de translúcidas janelas
Ao longe a cidade ecoa
uma canção que é só dela.

No alto a solidão
enluarando tudo.


Anastasia Matveeva - A tentação da limonada
Anastasia Matveeva, A tentação da limonada


INFÂNCIA – 3

Porque tudo na vida é passado
rebusco-te nas fotos da infância
o vestidinho pregueado
alguma trança
que se desfez ao vento
cariciando teus cabelos finos

Porque agora é também ontem
habitando esparsas latitudes
em contração e espasmo o pensamento
delineia a sempre mesma busca

Ainda hoje um raio claro
povoou teu rosto, fragmentou-se em sombras
efêmeros detalhes
e em teus olhos se firmou
como um sorriso ágil
a serenar-se em fugaz arquitetura

Revisito tua imagem cotidianamente
e assim o meu amor se expande
em tessituras de voo e altura

Porque o passado
é um presente que perdura.

VERÃO

Às vezes
é assim a manhã:
bolha de Tempo
que explode
incandescente.

Dói e queima
o dia todo.

O corpo
só se acalma
quando adere à pele
o cataplasma translúcido da noite.


Anastasia Matveeva - Uma hippie
Anastasia Matveeva, Uma hippie


VÊNUS EM ESCORPIÃO - IV

Para teu corpo
teu porto
ansioso por navios
me faço água

suave, me deito
em tua terra
e corro pelos vãos
das tuas pedras

Ágil, ardente
de vento me faço
e quero
inaugurar o fogo
em tuas trevas

VÊNUS EM ESCORPIÃO - XIV

As noites eram sempre verão.
Entre meu corpo e o teu
o sol se dilatava até explodir
em constelações — então
éramos Antares e Algedi
no escuro a cintilar.

Agora que o verão passou
nos vejo árvores do mesmo pomar
E fulgurantes frutas pendem
de nossos braços abertos
onde pássaros de açúcar vêm pousar.


Anastasia Matveeva - Tulipa no vitral
Anastasia Matveeva, Tulipa no vitral


LIÇÕES DA CASA - 4

A mulher que pendurou a toalha na janela
não sabe que aquilo é um poema
voando no compasso do vento e dos acordes da música
que o rádio espalha

Talvez ninguém tenha visto
o indescritível amarelo caiado
do prédio vizinho, cercado de azul:
pálidas tintas que compõem esta manhã.

No fundo deste bairro
quem ouve tanta luz?
Mesclada à picareta que desce às pedras
e a outros ruídos aparentemente banais

a mulher que pendurou a toalha
não sabe de mim nem ouve rádio.
Talvez nunca tenha imaginado
que sua toalha fosse uma asa enlouquecida.

LIÇÕES DA CASA - 8

O rosto que eu teria
às vezes me olha
do fundo de uma fotografia.

É o passado vivo
me chamando.

Às vezes me cumprimenta
no espelho em sombras.
É hoje puro sonho.

Ah, vaidade das vaidades!
Porque se a alma tem um rosto
há de ser ainda aquele.



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Carlos Machado, 2025


 Luíza Mendes Furia
      in Nada nos resta senão cantar - Antologia poética
      Organização, seleção dos poemas e prefácio de Alexandre Bonafim.
      Cavalo Azul, Franca-SP, 2025
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* Mario Quintana, "Os Parceiros", in Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
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* Imagens: quadros de Anastasia Matveeva (1988-), pintora russa.