Amigas e amigos,
A poeta em destaque nesta edição, Luíza Mendes Furia, já esteve aqui em duas outras ocasiões, nos boletins
n. 370 e
n. 168. Retorna agora,
trazida pelo recente lançamento de sua antologia poética, Nada nos resta senão cantar (Cavalo Azul, 2025).
Organizada pelo poeta, professor e ensaísta Alexandre Bonafim,
essa antologia contém poemas extraídos de livros da autora e também materiais inéditos. Além de fazer a seleção dos textos, Bonafim escreveu
um ensaio crítico que figura como prefácio do livro.
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Passemos à leitura. Os quatro primeiros poemas da pequena seleta ao lado encontram-se originalmente no
livro Inventário da solidão (1998). Em “Canção”, a autora exibe claramente sua inclinação
ao lirismo melodioso: “Canto o que vem comigo desde antes / e são modulações do mesmo grito”.
Vale também destacar o final do poema, que faz referência a “palavras / como se fossem de vidro”. Palavras translúcidas,
reluzentes e frágeis. No poema seguinte, “Morada”, a mesma afinação: “Ergui minha casa na noite / sem muros / Ao longe o rio
da infância / e seu eterno murmúrio”.
No prefácio da antologia, Alexandre Bonafim assinala, a respeito do lirismo de Luíza Mendes Furia: “Cecília Meireles é a referência
mais evidente, tanto pelo tratamento musical do verso quanto pela articulação entre o íntimo e o cósmico, o efêmero e o eterno”.
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“Infância - 3” é a terceira parte de um poema chamado “Infância”. Nele, a poeta
revê, filosoficamente, seus tempos de meninice:
“o vestidinho pregueado / alguma trança / que se desfez ao vento / cariciando teus cabelos finos”. A conclusão é doída, mas sempre
conforme a música: “Revisito tua imagem cotidianamente / (...) Porque o passado / é um presente que perdura”.
Observe-se o duplo sentido do substantivo “presente”, criativamente associado ao passado. É uma oferenda, regalo —
ou o tempo de antes que se estende e permanece ativo até agora?
Avancemos para o poema “Verão”. Aqui a poeta transfere para o corpo as manifestações da mais quente e luminosa estação do ano, “bolha
de Tempo” que explode no período matutino. “Dói e queima / o dia todo”. O alívio só vem durante a noite, que traz ao corpo seu
“cataplasma translúcido”.
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Os dois poemas seguintes provêm do livro Vênus em Escorpião. A história dessa coletânea pode ser contada em capítulos. Primeiro,
esses poemas zodiacais receberam uma publicação pessoal da autora, de tiragem limitada. Somente leitores mais próximos (entre os quais
me incluo) tiveram o privilégio de lê-los. Publiquei alguns poemas de Vênus em Escorpião no
boletim n. 168, de 2006.
Em 2016, o livro saiu, em edição pública, pela Editora Patuá. O boletim n. 370, de 2017, mostrou mais cinco poemas zodiacais. Agora, extraí mais dois da antologia, “XVII” e “XXV – Vésper”.
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Sobre os poemas todos de Vênus em Escorpião, permito-me repetir aqui um trecho do que escrevi em 2006: “Sempre pensei comigo
que um grande poeta se revela de várias formas. Uma delas, sem dúvida, é na capacidade de escrever poemas de amor e, mais ainda,
poemas eróticos. A explicação é simples: o tema é tão velho, tão batido, que só um talento especial consegue extrair dele alguma
emoção nova e legítima. Luíza Mendes Furia realiza esse feito”.
Se alguém ainda tiver alguma dúvida sobre essa afirmação, basta ler os poemas poemas “XVII” e “XXV – Vésper” ao lado e, mais ainda,
consultar os dois outros boletins, aqui indicados, com poemas de Vênus em Escorpião.
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Agora, para finalizar nossa leitura, dois poemas inéditos incluídos na antologia Nada nos resta senão cantar.
Ambos vêm do livro Lições da Casa, cujos textos recebem números como títulos. O primeiro, “Lições da Casa - 4”, consiste
na apreciação de uma paisagem, que começa de forma radiosa: “A mulher que pendurou a toalha na janela / não sabe que aquilo é um poema”.
No texto final, “Lições da Casa - 8”, o eu poético imagina o próprio rosto, numa fotografia antiga, a cumprimentá-lo hoje.
“É o passado vivo / me chamando”, deduz. E, numa concessão à “vaidade das vaidades” (alô, Eclesiastes!), vai mais além: supõe
que “se a alma tem um rosto / há de ser ainda aquele”. Creio que, assim como eu, todos os leitores concordam: por que a face
de nossa alma haveria de ter a aparência de pessoa mais velha? Alma tem de ser bem aprumada — e bonita!
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Nascida em Caçapava-SP (1961), Luíza Mendes Furia é jornalista, poeta e tradutora. Aos 16 anos publicou seu primeiro livro de
poesia, Madrugada e Outros Poemas (1978). Participou de diversas antologias e também publicou poemas em jornais,
revistas e sites literários. Seus livros seguintes foram Inventário da Solidão (Giordano, 1998) e Vênus em
Escorpião, primeiro editado em tiragem limitada (2001) e depois publicado pela Editora Patuá (2016).
A autora publicou ainda Incisões no branco (Penalux, 2022). Agora, a antologia Nada nos resta senão cantar
(Cavalo Azul, 2025) inclui textos de livros anteriores e também inéditos, reunidos nos títulos
Caderno Secreto e Poemas Duros.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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LANÇAMENTO EM SALVADOR
Vários poetas baianos lançam quatro livros
no mesmo evento, todos publicados pela Editora Cavalo Azul.
■ Vieram me chamar para
ver o anjo
Antologia poética
• Carlos Machado
■ Antologia Selvagem
Um bestiário da poesia brasileira contemporânea
• Diversos Autores
■ Concerto para alaúde e eucaliptos ao vento
Antologia poética
• Antonio Brasileiro
■ Navalha Aberta
Haicais
• Johny Guimarães
Quando: Quarta-feira, 26/11/2025, às 18h.
Onde: Academia de Letras da Bahia
Av. Joana Angélica, 198
Nazaré, Salvador-BA
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LANÇAMENTO EM SÃO PAULO
Duas antologias poéticas são lançadas na Pauliceia
pela Editora Cavalo Azul.
■ Escrever como as águias
Antologia poética
• Rosana Piccolo
■ Vieram me chamar para
ver o anjo
Antologia poética
• Carlos Machado
Quando: Sexta-feira, 05/12/2025, a partir das 19h.
Onde: Canto - Centro Cultural
Av. Dr. Arnaldo, 1638 (Próx. Metrô Sumaré)
São Paulo-SP.
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