Número 45

São Paulo, quarta-feira, 12 de novembro de 2003 

«Um poeta não pode dizer nada sobre a poesia. Isso fica para os críticos e professores.» (García Lorca)
 


Paulo Henriques Britto


Caros amigos,

O carioca Paulo Henriques Britto já foi apresentado neste boletim como tradutor de Elizabeth Bishop (poesia.net n. 39, de 01/10/2003). Agora é a vez de trazer o poeta com suas próprias criações. Nascido em 1951, Britto é professor e já publicou quatro livros de poesia: Liturgia da Matéria (1982); Mínima Lírica (1989); Trovar Claro (1997); e Macau (2003).

Em seus livros, ele desenvolve um trabalho poético em que combina o uso de formas fixas (versos medidos, sonetos) com uma linguagem de registro coloquial. Ao lado, dois momentos da poesia de Paulo Henriques Britto.

O primeiro vem de Macau, o livro mais recente. Trata-se da parte II do bloco "Três Epifanias Triviais". O que ressalta, aí, é a habilidade do poeta de fazer uma reflexão grave, quase filosófica, sem abrir mão da ironia e do tom coloquial. Observe que, brasileiramente, a pessoa a quem o texto se dirige ora é você, ora é tu.

O outro texto é um poema diante do espelho, extraído do livro Trovar Claro. A ironia é a mesma, mas o humor e o coloquialismo, aqui, sobem mais alguns pontos e atingem o ápice no final. Em ambos os poemas destaca-se também uma forte aderência aos temas do cotidiano. Mesmo quando as idéias se deslocam para um diapasão mais alto, o ponto de partida é quase sempre um fato comum — uma epifania trivial, para usar uma expressão do poeta.


Um abraço,

Carlos Machado



 

As coisas que nos cercam

Paulo Henriques Britto

 


DE "TRÊS EPIFANIAS TRIVIAIS"

II


As coisas que te cercam, até onde
alcança tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa

pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)


 


"ESSE ROSTO QUE ME OLHA"

Esse rosto que me olha de esguelha
(talvez para não ser reconhecido)
não é o mesmo que ontem vi no espelho,

o rosto familiar de um velho amigo
que desde sempre eu via à minha frente
e que no entanto agora anda sumido.

Não. Este novo é um rosto diferente,
de quem está ali a contragosto,
só por honra da firma, e se ressente

da obrigação de refletir um rosto
que
— fora um ou outro aspecto físico
que nada significa
— é o seu oposto.

(Um dos dois rostos é um impostor, no mínimo.
Um dos dois vai ouvir: Pára com isso,
porra. É com você mesmo, seu cínico.)

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2003

Foto: Bel Pedrosa

Paulo Henriques Britto
•  De "Três Epifanias Triviais"
    In Macau
   
Companhia das Letras, São Paulo, 2003
•  "Esse rosto que me olha"
    In Trovar Claro
   
Companhia das Letras, São Paulo, 1997