Número 56

São Paulo, quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004 

«O tempo é o teste da dor / mas não é o seu remédio.» (Emily Dickinson)
 


Carlito Azevedo


Caros amigos,

Guitarras mouriscas e cimitarras suicidas. A centelha do som e o brilho do aço caminhando em forma de mulher numa rua ou praia luminosa do Rio de Janeiro. Talvez, sim, outra garota de Ipanema. Mas aqui o poeta expectante é Carlito Azevedo, com sua "Nova Passante".

Embevecido em seu voyeurismo poético, Carlito desfila uma primorosa seqüência de metáforas para expressar sua admiração por essa Vênus transeunte que anda "sobre uma passarela de relâmpagos súbitos". Mas, como o ofício de voyeur se resume a olhar, toda a festa termina num "tiroteio de silêncios".

Outra faceta da poesia de Carlito Azevedo é mostrada aqui no poema "Rói". Nele o poeta exercita o ouvido para escutar a música minimalíssima dos cupins e imaginar seu incessante trabalho de destruição.

Nascido no Rio de Janeiro em 1961, Carlito Azevedo é um dos poetas mais ativos da geração 90. Publicou Collapsus Linguae (1991); As Banhistas (1993); Sob a Noite Física (1996); e Versos de Circunstância (2001). Também em 2001, reorganizou esses quatro livros num volume de poemas escolhidos, sob o título de Sublunar (1991-2001). Os dois textos mostrados aqui fazem parte dessa coletânea, mas ambos vêm originalmente de Collapsus Linguae.

Além de escrever poesia, Carlito exerce atividade como crítico, editor de livros e também co-editor da revista Inimigo Rumor, a mais destacada publicação de poesia no país, com sete anos de atividade. Aliás, a Inimigo Rumor é hoje binacional, pois tem também uma edição portuguesa.

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Um abraço,

Carlos Machado

 

Tiroteio de silêncios

Carlito Azevedo

 

 

NOVA PASSANTE


1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)

2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz

3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
       te dedicaria
um concerto
            para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)



RÓI


Rói
qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima
música
de
cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a
rede de canais
que a perquirição predatória
possa
ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o
ouvido
capto
súbito
o
mundo dos vermes
 


poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004

Carlito Azevedo
In Sublunar (1991-2001)
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2001