Número 329 - Ano 13

São Paulo, quarta-feira, 1 de abril de 2015

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«Amor é compromisso / com algo mais terrível do que amor?» (Carlos Drummond de Andrade) *

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Fernando Pessoa
Fernando Pessoa


Amigas e amigos,


Quem dá uma olhada, mesmo superficial, na obra poética do lisboeta Fernando Pessoa (1888-1935) percebe facilmente que Álvaro de Campos é de longe seu heterônimo mais prolífico. Verdadeiro alter ego, Campos é o mais Pessoa de todas as três principais sombras de Pessoa.


No baú dos escritos até recentemente inéditos do poeta, essa característica se mantém. Tanto que a portuguesa Teresa Rita Lopes, destacada pessoóloga e também poeta, publicou em 1993 a edição crítica Álvaro de Campos - Livro de Versos, que revela mais 79 poemas de Campos, além dos até então conhecidos.


Antes de Teresa Rita, a brasileira Cleonice Berardinelli, especialista em literatura portuguesa e estudiosa pessoana, também havia publicado, em 1990, uma edição crítica dos Poemas de Álvaro de Campos, contendo igualmente alguns textos inéditos.

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Quem é Álvaro de Campos?

Conforme a biografia traçada por Pessoa, Álvaro de Campos nasceu em 1890, em Tavira, no extremo sul de Portugal. Engenheiro naval formado em Glasgow, Escócia, nunca exerceu a profissão, por absoluta inconformidade com a rotina de um local de trabalho e as miudezas da vida.


Após retornar a Portugal, Campos conhece Alberto Caeiro, outro heterônimo de Pessoa, de quem se torna discípulo. De Caeiro ele admira o objetivismo, a aversão à filosofia, a percepção visual da realidade. "Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender...", ensina o mestre Caeiro.


Homem das sensações — daí o termo “sensacionista” —, o engenheiro Álvaro de Campos é futurista, vanguardista. É o heterônimo do século XX, fascinado pela velocidade, pelas máquinas e a eletricidade. Arrebatado, mostra-se ao mesmo tempo racional, lúcido e negativista.


Exuberante, impetuoso, hiperbólico, ele sofre a influência do americano Walt Whitman e seu caudaloso livro-poema Folhas de Relva (1855). Num dos inéditos encontrados por Cleonice Berardinelli, Campos garante: “Minha imaginação é um Arco de Triunfo. / Por baixo dela passa toda a Vida”.


Um detalhe interessante. Dos três heterônimos de Pessoa, só Caeiro morreu, aos 26 anos. Os outros dois, Campos e Reis, sobreviveram ao seu criador. Isso, aliás, deu azo a que José Saramago escrevesse o romance O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Quem leu o livro sabe que as últimas peripécias de Reis, conforme a ficção de Saramago, ocorrem após o desaparecimento de Fernando Pessoa.

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Embora entre os traços característicos de Álvaro de Campos não se destaque o bom humor, quero realçar neste boletim dois poemas atribuídos ao engenheiro naval nos quais ele mostra certa disposição para a leveza e a brincadeira. Ambos pertencem aos textos desentranhados da arca de Fernando Pessoa.


O primeiro é “Ai, Margarida”, datado de 1927, que apresenta um diálogo mantido entre Margarida e o namorado. Este pergunta e Margarida responde. Ele é um sonhador, dado a promessas vazias e grandiosas, enquanto a moça tem os pés firmemente plantados no chão. Um saboroso detalhe do poema é a nota que vem ao final. Ela dá a entender que alguém teria anotado esses versos, uma vez que o autor, o engenheiro naval Álvaro de Campos, se encontrava em “estado de inconsciência alcoólica”.


O outro texto é “Quando os povos da Dalmácia”, que não traz data. Nele, Campos trabalha com rimas bem ao gosto dos simbolistas: em ácia, écia, ícia, ócia. O resultado é uma história de total nonsense.


“Ai, Margarida” está no volume Álvaro de Campos – Livro de Versos, (1993), de Teresa Rita Lopes. Já “Quando os Povos da Dalmácia” vem de Poemas de Álvaro de Campos (1990), de Cleonice Berardinelli.

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Pensando bem, no início (antes de conhecer Alberto Caeiro), Campos até exibia certa inclinação para o riso. No longo poema “Opiário”, um de seus primeiros, escrito em 1914 “no Canal de Suez, a bordo”, ele confessava:

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.


Mais adiante:

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmolas às portas da Alegria.


E, por fim:

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co'a sueca... e o resto ele adivinha.


Se não ria às escâncaras, o  engenheiro naval Álvaro de Campos pelo menos esboçava algum sorriso.

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Para  completar o boletim, incluí mais dois poemas de Álvaro de Campos extraídos do baú de Pessoa por meio do livro de Teresa Rita Lopes. Esses, no entanto, não têm abertura para o riso: trazem o habitual humor sombrio do engenheiro.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

P.S.: Fernando Pessoa já esteve neste boletim outras vezes:

- poesia.net n. 22
- poesia.net n. 145
- poesia.net n. 250

 


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O sorriso de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa


 
 
Almada Negreiros - Retrato de Fernando Pessoa (1964)
Almada Negreiros, português, Retrato de Fernando Pessoa (1964)




AI, MARGARIDA

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência alcoólica.

1-10-1927




Almada Negreiros - Caeiro, Reis, Campos
Almada Negreiros: como o artista imaginava os três heterônimos.
Da esq. para a dir.: Caeiro, Reis e Campos (o eterno viajante) 




QUANDO OS POVOS DA DALMÁCIA

Quando os povos da Dalmácia
Fizeram guerra aos da Grécia
Saiu muita gente sécia
Da casa do rei da Trácia.
Houve disto grande falácia,
Lá para as bandas da Fenícia,
Porém temendo malícia,
De gente tão pouco sócia,
Lá se foram para a Beócia
Para se curar da icterícia.

s/ data




Almada Negreiros - Arlequim (1941)
Almada Negreiros, Arlequim (1941)



TENHO ESCRITO MAIS VERSOS QUE VERDADE

Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?
Nunca!
Seria um indivíduo perfeitamente consentível,
Teria casa própria e moral.
Senhora Gertrudes!
Limpou mal este quarto:
Tire-me essas ideias de aqui!

15-10-1930
Data aposta, no verso da folha, a outro fragmento de poema.
(Observação de Teresa Rita Lopes)





Almada Negreiros - Estudo (1929)
Almada Negreiros, Estudo para decoração de um teatro (1929)




SIM, ESTÁ TUDO CERTO

Sim, está tudo certo.
Está tudo perfeitamente certo.
O pior é que está tudo errado.
Bem sei que esta casa é pintada de cinzento
Bem sei qual é o número desta casa —
Não sei, mas poderei saber, como está avaliada
Nessas oficinas de impostos que existem para isto —
Bem sei, bem sei...
Mas o pior é que há almas lá dentro
E a Tesouraria de Finanças não conseguiu livrar
A vizinha do lado de lhe morrer o filho.
A Repartição de não sei quê não pode evitar
Que o marido da vizinha do andar mais acima lhe fugisse com a cunhada...
Mas, está claro, está tudo certo...
E, excepto estar errado, é assim mesmo: está certo...

5-3-1935
Poema publicado pela Aguilar como de Fernando Pessoa, ele-mesmo.




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www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2015


Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
* "Ai, Margarida", "Tenho escrito mais versos que verdade"
   e "Sim, está tudo certo"
   In Álvaro de Campos - Livro de Versos
   Edição crítica de Teresa Rita Lopes
   Estampa, Lisboa, 1993
* "Quando os Povos da Dalmácia"
   In Poemas de Álvaro de Campos
   Edição crítica de Cleonice Berardinelli
   Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1990

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* Carlos Drummond de Andrade, "Mineração do Outro", in Lição de Coisas (1964)

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- Imagens: trabalhos do português José de Almada Negreiros (1893-1970) artista
  plástico e poeta que fez parte do grupo de Pessoa na revista Orpheu
(1915)