Número 377 - Ano 15

São Paulo, quarta-feira, 24 de maio de 2017

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«O paraíso sempre foi perdido.» (Roberval Pereyr) *

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Sete Poetas 2017
Carlos Pena Filho, Luís Vaz de Camões, Machado de Assis, Cassiano Ricardo, Florisvaldo Mattos, Dante Milano e Lenilde Freitas



Amigas e amigos,

O poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850) escreveu um célebre soneto que começa com estas palavras: Scorn not the Sonnet — não desdenhes o soneto. No texto, Wordsworth cita grandes sonetistas da história (Petrarca, Shakespeare, Camões, Dante, Milton), compara o soneto a instrumentos musicais e associa a criação de um soneto à composição de uma peça musical.

No Brasil, Manuel Bandeira, num soneto de 1944, “A Alphonsus de Guimaraens Filho”, saúda o colega, dizendo que este ouviu a recomendação do inglês: “Scorn not the sonnet, disse o inglês. Ouviste / O conselho do poeta e um dia, quando / Mais o espinho pungiu da ausência triste, / O primeiro soneto abriu cantando”. De fato, Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008) seguiu o conselho e tornou-se um dos grandes cultores do soneto entre nós.

Embora o modernismo mais radical de 1922 tenha assestado suas baterias contra as hostes parnasiano-simbolistas, para as quais o soneto era praticamente um símbolo sagrado, a verdade é que o soneto nunca foi desprezado. O próprio Mário de Andrade, uma das figuras máximas da Semana de Arte Moderna, escreveu sonetos. O mesmo aconteceu com poetas mais novos, como Drummond, Vinicius, Paulo Mendes Campos, Carlos Pena Filho e muitos, muitos outros, inclusive nomes atuais como Paulo Henriques Britto, Antonio Cicero e Iacyr Anderson Freitas. Curiosamente, Cecília Meireles, que escreveu tantos poemas usando formas fixas, não cultivou o soneto.

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Criado na Itália há mais de 700 anos, o soneto tem raízes muito bem assentadas na tradição ocidental. Até mesmo o poeta concreto Augusto de Campos escreveu — com intenção satírica, é verdade — escreveu dois sonetos batizados como “Soneterapia”, 1 e 2. Trata-se de montagens decassilábicas com trechos de poemas e letras de canções populares. Ao fim e ao cabo, com ou sem ironia, afirma-se a permanência do soneto.

Numa iniciativa diferente, o poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo (1942-2007) criou uma espécie de alternativa ao soneto. Trata-se da retranca, um poema de 11 versos octossílabos, distribuídos em estrofes de 4-2-3-2 versos, com um par de versos rimando em cada estrofe. Enfim, uma espécie de soneto redistribuído e subtraído em três versos. Portanto, também aí paira o espírito do soneto.

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O QUE É UM SONETO?

Basicamente, há três tipos de sonetos, classificados conforme a distribuição dos versos. O primeiro é o soneto italiano ou petrarquiano (referência ao poeta florentino Francesco Petrarca, 1304-1374). Esse soneto contém duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas outras de três versos (tercetos). É a forma mais utilizada no Brasil: 4-4-3-3.


A segunda forma é o soneto inglês, ou shakespeariano, formado por três quartetos e uma estrofe de dois versos (dístico): 4-4-4-2. A terceira forma é também a menos comum: o soneto monóstrofe, com uma estrofe única de catorze versos.

Na prática, os três tipos se misturam em vários sentidos. Em geral, no soneto italiano mais comum, as rimas dos dois quartetos são apenas duas. Ou seja, nos oito versos, há quatro palavras finais com uma rima e quatro com outra. Nos tercetos, as rimas podem ser entremeadas ou postas em duas sequências do tipo ccd-ccd.

No soneto inglês, os dois quartetos em geral não têm a obrigação de ter as mesmas rimas. No dístico final, os dois versos rimam entre si. Contudo, não é raro encontrar sonetos que misturam procedimentos dessas duas formas tradicionais. O soneto com apenas uma estrofe é o menos praticado entre nós. Contudo, ele pode ser uma composição perfeitamente enquadrável numa das outras categorias, apenas apresentada sem as divisões de estrofes.

Do ponto de vista métrico (número de sílabas de cada verso), o padrão clássico é o soneto decassilábico, adotado tanto no tipo italiano como no inglês. No entanto, há sonetos com versos de outras medidas, como as redondilhas maior e menor (7 e 5 sílabas) e muitas outras variações. Há também sonetos invertidos (com os quartetos no final). Vale também lembrar os sonetos brancos (sem rimas) e ainda os sonetos com esquema rímico livre.

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Nesta edição do boletim, resolvi apresentar uma seleção de sonetos já publicados no poesia.net. Haveria milhares de maneiras para organizar uma seleta de sonetos. Resolvi adotar aquela que me daria menos trabalho, em dois sentidos: antes, na pesquisa, e depois da publicação. Desse modo, livro-me previamente das cobranças do tipo: “faltou o soneto tal, do poeta Fulano”. A resposta antecipada está aqui: só entraram textos já apresentados no boletim.

Na seleção inicial, reuni 15 poemas. (Não são muitos os sonetos no histórico do poesia.net). O último era um texto de Carlos Drummond de Andrade. Deixei esse de fora, uma vez que foram feitos dois boletins recentes focados exclusivamente em sonetos de Drummond: o n. 375, sobre o sonetilho “Áporo”, e o n. 352, que discute o soneto “Leão-marinho”.

Restavam então catorze sonetos. Tive o ímpeto inicial de adotar esse número inclusive no título do boletim: “14 sonetos” — um para cada verso dessa forma fixa. Concluí, depois, que resultaria em algo muito longo, massudo e maçante: 14 autores, 14 poemas — alguns duplicados, em português e na língua original. Resolvi, por fim, cortar os sonetos pela metade. Além disso, fiquei somente com poetas da língua portuguesa. Detalhe: aqui não há nenhum intuito de classificar, melhor ou pior. A ordem é a do aparecimento nos boletins.

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Vamos à seleção. Para não alongar demais o texto, não darei informações sobre os poetas. Ao final de cada pequeno comentário sobre o poema, acrescentarei o link para o boletim de onde ele foi tirado. Assim, os eventuais interessados poderão encontrar lá mais dados sobre o autor e sua obra.


Carlos Pena Filho, “Testamento do homem sensato”. Com leves toques de lirismo surrealista, este soneto do jovem poeta pernambucano é de uma beleza extraordinária, tanto na fluidez das palavras como no ritmo. Faz crer que, se uma pessoa morre, trata-se de algo tão sutil como o desaparecimento de uma luz ou de uma sombra, “uma lembrança desgarrada”. Um soneto italiano que não mantém as mesmas rimas nos dois quartetos. Saiu no poesia.net n. 4, de 2003.


Luís Vaz de Camões, “Sete anos de pastor”. Inspirado na Bíblia, este soneto descreve as desventuras de Jacó, guardador de ovelhas. Apaixonado pela bela Raquel, filha de Labão, Jacó faz um acordo com o futuro sogro: trabalhará para ele sete anos, a fim de que o pai lhe dê a moça em casamento. Desonesto (no texto a palavra “cautela” quer dizer “astúcia fraudulenta”), Labão, em lugar de Raquel, lhe dá Lia, a irmã mais velha. Triste, mas sem perder a esperança, Jacó renova o contrato, e começa a trabalhar para o sogro outros sete anos. Texto incluído no poesia.net n. 38, de 2003, e também no n. 309, de 2014, onde se discute mais longamente sobre o poema.


Florisvaldo Mattos, “A cabra”. Este soneto pastoril do poeta baiano é, salvo engano de minha parte, sua página mais repetida e admirada. O autor atinge momentos de grande leveza e felicidade lírica ao descrever o animal. Inicialmente, a cabra é comparada a um lírio, depois "máquina de alvura" e "residência da ternura". Tem-se aí, na verdade, um ícone a meio caminho entre uma figura real e um ser criado pelo poeta. Poema trazido do poesia.net n. 85, de 2004.


Machado de Assis, “A Carolina”. Escrito no final da vida do autor, este soneto é abertamente autobiográfico. É o viúvo que, cansado e abatido, visita o túmulo da esposa, aonde vai levar “o coração de companheiro”. Carolina morreu em 1904, o soneto é de 1906. E dois anos mais tarde o próprio Machado morreria. Um aspecto que sempre me encantou neste soneto é seu recorte simples. São palavras de vida, não de literatura. Ou, dito de outro modo — e, por isso mesmo, grande literatura. Poema publicado na edição n. 247, de 2008.


Lenilde Freitas, “Rio Verde”. Assim como o soneto “A cabra”, de Florisvaldo Mattos, mais acima, este é também um poema pastoril. O clima é igualmente de sonho, com galos ponteando as madrugadas, colibris bailarinos e flores que apontam idilicamente para o futuro. Mas, sem aviso, ocorre uma reviravolta: o que seria futuro vai se chocar (e rimar) com um muro. "Então o relógio para, a vida zera". Na última linha, o leitor descobre que a quimera se esfuma. A poeta paraibano-pernambucana Lenilde Freitas sabe criar o enredo. Tudo para. Sem sequer um ai, lamento ou imprecação. Belo soneto: monóstrofe e inglês. Este poema apareceu no boletim n. 275, de 2012.


Cassiano Ricardo, “Campanário de S. José”. Temos aqui um soneto raro, composto de versos monossilábicos. Poeta experimentalista, Cassiano representa neste texto os sinos de um campanário — certamente localizado em São José dos Campos-SP, sua terra natal. Em certo sentido, é um poema-partitura, pois traz até, sob o título, uma orientação: “para ser repetido, três vezes, na leitura”. A ideia da repetição é provocar o efeito de vários sinos tocando. Ditas em voz alta, as palavras, que contêm basicamente os sons “em” e “ão”, reproduzem as vozes dos sinos. Poema publicado no boletim n. 295, de 2013.


Dante Milano, “O Náufrago”. Vem, por fim, outro soneto sem separação estrófica, mas no padrão italiano, inclusive com as mesmas rimas nos dois quartetos. Neste poema, o autor trabalha com um registro ambíguo. A pessoa que fala tanto pode estar desesperada, enfrentando um processo de afogamento no mar, como pode ser alguém que se debate contra um desconforto emocional, em terra. A leitura atenta do texto conduz a essas duas hipóteses. Nos comentários do boletim original, discuto mais detidamente sobre isso. Publicado no poesia.net n. 320, de 2014.


Abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Sete poetas, sete sonetos

• Carlos Pena Filho • Luís Vaz de Camões
• Florisvaldo Mattos • Machado de Assis  • Lenilde Freitas
• Cassiano Ricardo • Dante Milano




Lucian Freud - Woman with a tulip
Lucian Freud, alemão-britânico, Mulher com tulipa (1945)



Carlos Pena Filho (1929-1960)


TESTAMENTO DO HOMEM SENSATO

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.



Lucian Freud - A painter
Lucian Freud, Um pintor (1962)



Luís Vaz de Camões (1524?-1580)


SETE ANOS DE PASTOR...

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.




Lucian Freud - Alice e Okie
Lucian Freud, Alice e Okie (1999)



Florisvaldo Mattos (1932-)


A CABRA

Talvez um lírio. Máquina de alvura
Sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório
sobre lajedo o casco azul polindo,
dominas suave clima em promontório;
cabra, o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me, perdurando nos ouvidos,
laborada em marfim — luz e presença
de reinos pastoris antes servidos —,

teu pelo, residência da ternura,
onde fulguras na manhã suspensa:
flor animal, sonora arquitetura.




Lucian Freud - Bella
Lucian Freud, Bella (1981)



Machado de Assis (1839-1908)


A CAROLINA

Querida! Ao pé do leito derradeiro,
em que descansas desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores, — restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos.

1906




Lucian Freud - Girl with a kitten
Lucian Freud, Moça com gatinho (1947)



Lenilde Freitas (1939-)


RIO VERDE

Para melhor compor as madrugadas
também os galos acordavam cedo.
O vento ao passar pela varanda
contava à folhagem um segredo.
A hora era imensa e tão pouca
ó rastro da manhã que já desanda
no tempo, despetalando sim cada
palavra frágil flor de nossa boca.
Os colibris voavam bailarinos
sobre as sépalas verdes do futuro.
A brisa prenuncia assim os finos
dedos da chuva fria sobre o muro.
Então o relógio para, a vida zera.
Desfaz-se a neblina de quimera.

        De A Corça no Campo (2010)



Lucian Freud - Michael Andrews and June
Lucian Freud, Michael Andrews e June (1966)



Cassiano Ricardo (1895-1974)


CAMPANÁRIO DE S. JOSÉ
(para ser repetido, três vezes, na leitura)


          A Antônio Carlos Cabral

Quem
não
tem
seu

bem
que
não
vem?

Ou
vem
mas

em
vão?
Quem?

        De A Difícil Manhã (1960)



Lucian Freud - The painter's mother III
Lucian Freud, A mãe do pintor III (1972)



Dante Milano (1899-1991)


O NÁUFRAGO

Gestos inúteis que não deixam traços
Faço, e as ondas me afogam no seu seio.
Uma parece que me parte ao meio,
Outra parece que me arranca os braços.
Sinto o corpo quebrado de cansaços,
E num exausto, sufocado anseio,
Sem ter a que amparar-me, cambaleio,
Sem ter onde pisar, falseio os passos.
Minha tristeza mede-se por léguas
Que venço, não em terra, mas nadando
No caminho do mar que não dá tréguas,
Batendo-me de peito contra mágoas,
Sôfrego, trôpego, gesticulando,
Como um náufrago em vão se agarra às águas...



poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2017


Carlos Pena Filho
        "Testamento do Homem Sensato"
        • in Os Melhores Poemas de Carlos Pena Filho
           Global, 4a. ed., São Paulo, 2000
Luís Vaz de Camões
        "Sete Anos de Pastor"
        • in Sonetos
Florisvaldo Mattos
       
"A Cabra"
        • in Os Melhores Poemas de Carlos Pena Filho
          
Global, 4a. ed., São Paulo, 2000
Machado de Assis
       
"A Carolina"
        • in Obra Completa, vol.III
          
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994
Lenilde Freitas
       
"Rio Verde"
        • in A Corça no Campo
          
Ed. da autora, Recife, 2010
Cassiano Ricardo
        •
"Campanário de S. José"
           in Cassiano Ricardo - Seleta em Prosa e Verso
          
org. Nelly Novaes Coelho
          José Olympio, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1975
Dante Milano
       
"O Náufrago"
        • in Obra Reunida
          
Organização e estabelecimento do texto,
           Sérgio Martagão Gesteira
           Academia Bras. de Letras, Rio de Janeiro, 2004
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* Roberval Pereyr, "A Outra Visão", in O Súbito Cenário (1996)
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* Imagens: quadros de Lucian Freud (1922-2011), pintor alemão
  naturalizado britânico. Neto de Sigmund Freud.