Número 437 - Ano 18

São Paulo, quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

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«Que estará dizendo / o lábio quase humano / da orquídea?» (Cassiano Ricardo) *

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Cecília Meireles
Cecília Meireles



Amigas e amigos,

Neste 12 de dezembro, o poesia.​net completa 17 anos em circulação. Para mim, é sempre uma satisfação pensar que já estamos juntos há tanto tempo, compartilhando doses quinzenais de poesia.

Este é o último boletim do ano. Em janeiro, como ocorre desde 2002, o poesia.​net não circula. Boas festas e feliz 2020 para todos.

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Em dezembro de 2008 — lá se vão onze anos! —, a edição n. 260 do boletim teve como título “Canções de Cecília”. Tratava-se, como este, de um número especial de aniversário. Agora, resolvi repetir a dose, publicando outras canções de, claro, Cecília Meireles.

Conforme se sabe, Cecília é uma poeta em cuja obra a musicalidade, o ritmo, os versos cantantes se destacam como talvez em nenhum outro autor da língua portuguesa. Desse modo, o boletim comemora seu aniversário ao som de canções cecilianas.

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Para este número, pincei na poesia completa de Cecília Meireles exata meia dúzia de poemas-canções. O primeiro já se revela pelo nome: “Canção do Carreiro”. Neste poema se observam dois andamentos. Nas estrofes ímpares, o primeiro verso é sempre “Dia claro”, enquanto o segundo traz uma caracterização do vento: “sereno”, “marinho”, “do monte” etc. O terceiro verso também se repete: “roda, meu carro” — e segue-se uma observação sobre o percurso.

Enquanto as estrofes ímpares fazem as vezes de um refrão variável, as pares desenvolvem pensamentos. E, numas e noutras, a musicalidade se mantém: “Na verdade, o chão tem pedras, / mas o tempo vence tudo. / Com águas e vento quebra-as / em areias de veludo.”

O próximo texto é “Chorinho”, outra canção anunciada pelo título. O final é de uma grande melancolia: “Ai, choro de clarineta! / Ai, clarineta de prata! / Ai, noite úmida de lua...”

Vem a seguir o poema “Panorama”. Trata-se de uma dessas cançonetas tristes — na poesia de Cecília, quase todas têm esse tom — que parecem ter como objetivo apenas exalar música. “Em cima, é a lua, / no meio, é a nuvem, / embaixo, é o mar”.

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Agora, chega a vez desse magnífico “Encomenda”, que eu não teria medo de incluir entre os mais belos textos da autora. Mais uma vez, uma canção de profunda melancolia. Observe-se que o pedido é para o fotógrafo produzir uma foto que finja alegria e na qual a fotografada vai aparecer “com um vestido de eterna festa”. Esse contraste (alegria simulada versus tristeza real), somado ao sentimento de perda (cadeira vazia), torna o poema mais sombrio e, ao mesmo tempo, mais rico de susgestões e significados.

Já que falamos em perda, o próximo texto, “Caronte”, é todo sobre isso. Centra-se na maior de todas as perdas, a morte. Caronte, na mitologia grega, é o barqueiro que faz a travessia do rio Estige, transportando as almas dos recém-falecidos do mundo dos vivos para o outro lado.

A mulher que fala no poema dirige-se ao barqueiro e se revela uma poeta, uma trovadora, mesmo nesse momento extremo: “Caronte, juntos agora remaremos: / eu com a música, tu com os remos”. Não resta dúvida de que é a própria Cecília quem dialoga com o sinistro navegador. Curiosamente, nesta canção não há uma recusa da morte. Ao contrário: a trovadora entende que está empreendendo a mesma viagem natural já feita por seus pais, avós e irmãos.

O tratamento dado ao barqueiro é cordial. “Fala-me das coisas que estão por aqui, / das águas, das névoas, dos peixes, de ti”. E, mais uma vez, consciente de que o artista só tem sua arte, promete pagar ao homem pela travessia. “Pago-te em sonho, pago-te em cantiga, / pago-te em estrela, em amor de amiga”. No final, confirma a terrível solidão do mortos e canta uma palavra: “ADEUS!”.

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O último poema da seleção é “Surdina”. Observem como tudo conduz à música. Surdina, diz-nos o Aurélio, é uma peça que se acopla a diversos instrumentos musicais para abafar-lhes a sonoridade e alterar-lhes o timbre. É também o pedal esquerdo do piano. Portanto, o título do poema não aparece aí por acaso.

No texto, a música provoca sentimentos difusos: lembranças, saudades. Para fechar com um tom de nostalgia bem à la Paul Verlaine, em meio à música distante (“vaga música”, como o título de um livro de Cecília), irrompe a chuva. E tudo termina entre nuvens e “séculos de melancolia”.

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A carioca Cecília Meireles (1901-1964) já esteve outras vezes aqui no poesia.​net. Para saber mais sobre ela e sua poesia, visite os outros boletins em que ela aparece:

poesia.​net 278
poesia.​net 267
poesia.​net 261
poesia.​net 260
poesia.​net 5


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado


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poesia.​net, 17 anos

Visite o painel com todos os poetas publicados pelo boletim em seus 17 anos. Clique no selo abaixo.



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LANÇAMENTOS

Neste final de ano, muitos novos livros de poesia estão chegando aos leitores. Aqui, quatro deles: três em São Paulo e um em Salvador.


Rastros
• Tarso de Melo

Tarso de Melo - RastrosApós lançar uma poesia reunida em 2014 e Íntimo Desabrigo em 2017, Tarso de Melo produz agora a antologia Rastros, publicada pela Martelo Casa Editorial.

Poesia +
(Antologia 1985-2019)
• Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson - Poesia maisNo mesmo evento de Tarso de Melo, o poeta Edimilson de Almeida Pereira lança Poesia + (Antologia 1985-2019). Os dois escritores autografarão seus livros e conversarão sobre poesia no local.

Quando:
Quinta-feira, 12/12/2019, às 19h30

Onde:
Tapera Taperá
Av. São Luis, 187
Galeria Metrópole - Loja 29 - 2° andar - Centro
São Paulo, SP


Mulheres Salgadas
• Cecilia Furquim

Cecilia Furquim - Mulheres SalgadasA poeta Cecília Furquim, que já tem livros para o público infantil, lança Mulheres Salgadas, seu primeiro título para leitores de mais idade. Com ilustrações de Lúcia Hiratsuka, a obra sai pela Editora Urutau..

Quando:
Sábado, 14/12/2019, às 18h

Onde:
Tectonica Café
R. Min. Ferreira Alves, 686
Pompeia
São Paulo, SP


Campo de Eros e Outros Poemas de Amor
• Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho - Campo de ErosO poeta Ruy Espinheira Filho organiza nova antologia, desta vez centrada no sentimento amoroso. Trata-se de Campo de Eros e Outros Poemas de Amor, livro publicado pela Editora Caramurê.

Quando:
Segunda-feira, 16/12/2019,
às 18h

Onde:
Estande da Editora Caramurê
Shopping Barra, 2° piso
Salvador, BA


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Séculos de melancolia


• Cecília Meireles


              



De Chirico - As musas inquietantes-1916-18
Giorgio de Chirico, italiano, As musas inquietantes (1916-18)



CANÇÃO DO CARREIRO

Dia claro,
vento sereno,
roda, meu carro,
que o mundo é pequeno.

Quem veio para esta vida,
tem de ir sempre de aventura:
uma vez para a alegria,
três vezes para a amargura.

Dia claro,
vento marinho,
roda, meu carro,
que é curto o caminho.

Riquezas levo comigo.
Impossível escondê-las:
beijei meu corpo nos rios,
dormi coberto de estrelas.

Dia claro,
vento do monte,
roda, meu carro,
que é perto o horizonte.

Na verdade, o chão tem pedras,
mas o tempo vence tudo.
Com águas e vento quebra-as
em areias de veludo...

Dia claro,
vento parado,
roda, meu carro,
para qualquer lado.

Riquezas comigo levo.
Impossível encobri-las:
troquei conversas com o eco
e amei nuvens intranquilas.

Dia claro,
de onde e de quando?
Roda, meu carro,
pois vamos rodando...



De Chirico - A família do pintor-1926
Giorgio de Chirico, A família do pintor (1926)


CHORINHO

Chorinho de clarineta,
de clarineta de praia,
na úmida noite de lua.

Desce o rio de água preta.
E a perdida serenata
na água trêmula flutua.

Palavra desnecessária:
um leve sopro revela
tudo que é medo e ternura.

Pela noite solitária,
uma criatura apela
para outra criatura.

Não há nada que submeta
o que Deus nos arrebata
segundo a vontade sua...

Ai, choro de clarineta!
Ai, clarineta de prata!
Ai, noite úmida de lua...



De Chirico - Heitor e Andrômaca-1917
Giorgio de Chirico, Heitor e Andrômaca (1917)



PANORAMA

Em cima, é a lua,
no meio, é a nuvem,
embaixo, é o mar.

Sem asa nenhuma,
sem vela nenhuma,
para me salvar.

Ao longe, são noites,
de perto, são noites,
quem se há de chamar?
Já dormiram todos,
não acordam outros...
Água. Vento. Luar.

O trilho da terra
para onde é que leva,
luz do meu olhar?
Que abismos aéreos
de reinos aéreos
para visitar!

Na beira do mundo,
do sono do mundo
me quero livrar.
E em cima — é a lua,
no meio — é a nuvem,
e embaixo — é o mar!



De Chirico - Piazza-1961
Giorgio de Chirico, Praça (1961)



ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.



De Chirico -The prodigal son-1922
Giorgio de Chirico, O filho pródigo (1922)



CARONTE

Caronte, juntos agora remaremos:
eu com a música, tu com os remos.

Meus pais, meus avós, meus irmãos,
já também vieram, pelas tuas mãos.

Mas eu sempre fui a mais marinheira:
trata-me como tua companheira.

Fala-me das coisas que estão por aqui,
das águas, das névoas, dos peixes, de ti.

Que mundo tão suave! que barca tão calma!
Meu corpo não viste: sou alma.

Doce é deixar-se, e ternura o fim
do que se amava. Quem soube de mim?

Dize: a voz dos homens fala-nos, ainda?
Não, que antes do meio sua voz é finda.

Rema com doçura, rema devagar:
não estremeças este plácido lugar.

Pago-te em sonho, pago-te em cantiga,
pago-te em estrela, em amor de amiga.

Dize, a voz dos deuses onde principia,
neste mundo vosso, de perene dia?

Caronte, narra mais tarde, a quem vier,
como a sombra trouxeste aqui de uma mulher

tão só, que te fez seu amigo:
tão doce — ADEUS! — que canta até contigo!



De Chirico - The uncertainty of the poet-1913
Giorgio de Chirico, A incerteza do poeta (1913)



SURDINA

Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, — e a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2019



Cecília Meireles
      •  “Canção do Carreiro”, “Chorinho”, “Panorama” e “Encomenda”,
      de Vaga Música (1942)
      •  “Caronte” e “Surdina”, de Mar Absoluto (1945)
      in Obra Poética
      Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1987
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* Cassiano Ricardo, “A Orquídea”, in Um Dia Depois do Outro (1947)
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* Imagens: obras de Giorgio de Chirico (1888-1978), pintor italiano